Cartas para a Imprensa


Rapida... mente

Como se sabe, o povo português é muito pouco dado a expressões rigorosas, e as pessoas com formação jurídica parecem sê-lo ainda menos.

A prova disso é que todos convivemos, muito satisfeitos, com expressões tão vagas como «um dia destes», «um certo tempo», «com urgência», «à tardinha» - sendo que o caso mais curioso é o «um bocado», pois até tem um sub-múltiplo, «um bocadinho». E mais uma vez pudemos confirmar essa pecha nacional a propósito do escândalo das famigeradas disquetes da PT:

Na mesma semana em que referia - e bem - que expressões como «um prazo razoável» são demasiado vagas, Jorge Sampaio pedia que a averiguação acerca do referido escândalo fosse «rápida».

Passado um mês, Alberto Costa reconheceu que a investigação estava a demorar «muito tempo», e Souto Moura vinha dizer que ela «vai demorar o tempo que for necessário».

O certo é que todos eles me fazem lembrar, por contraste, um chefe que eu tive e que começava logo por ensinar aos jovens que iam trabalhar com ele que nunca deviam usar expressões desse tipo, pois são tão imprecisas que cada um as entende como mais lhe convém.

E contava sempre a rábula do marido que, ao ver a mulher a preparar-se para sair de casa, a interpela:

- Olha lá, aonde é que tu vais?

- Aonde eu quiser.

- E a que horas voltas?

- Quando me apetecer.

O homem, então, dá um berro - e encerra o assunto, demonstrando a sua autoridade:

- Mas nem um minuto mais tarde, ouviste?


Publicado no jornal "metro" em 15 Fevereiro 2006

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