Cartas para a Imprensa


Depois logo se vê...

Engana-se quem pensa que «Robinson Crusoé» é apenas um livro infanto-juvenil pois, para além de uma leitura ligeira, tem muito mais que se lhe diga; e uma das cenas de que nunca me esquecerei é aquela em que o herói resolve fazer um barco com uma árvore bastante grande que está muito afastada da água.

Esperam-no três desafios: derrubá-la, escavá-la e transportá-la até ao mar.

Deliberadamente, Robinson decide não pensar no último problema e dedica-se com afinco aos outros dois.

Por fim, quando, depois de anos de trabalho, chega a altura de levar a gigantesca canoa para a água... constata que é impossível - o que, aliás, ele já suspeitava desde o início!

Esta é uma das muitas lições que o romance encerra e que devia servir de tema de meditação àqueles que, tão «à portuguesa», pensam que «depois, quando os problemas aparecerem, logo se vê» - o que, segundo diz quem sabe destas coisas, vai suceder, p.ex., quando as obras do Aeroporto da Ota começarem a esbarrar em problemas que, actualmente, já são conhecidos - mas em que «depois logo se há-de pensar»...


Publicado no "metro" de 26 Janeiro 2006 e no "Público-Local" em 31 Janeiro 2006

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte