A Oportunidade Perdida

(Publicado na «BIT» de Março 2002)

Em Outubro de 2001, o autor deste escrito, entusiasmado com o agradável site dos CTT, teve a ingenuidade de pretender adquirir Certificados de Aforro on-line. Como tal não se revelou possível, foi pessoalmente a uma Estação dos Correios. Depois, passadas as 3 semanas da praxe, começou a deslocar-se lá com frequência, apenas para se deparar com filas de 1 hora e voltar para trás. Vejamos porquê...

Há dias, de passagem por Castelo Branco, precisei de aceder à Internet. Entrei na estação dos Correios, vi que tinham Net-Post, e resolvi comprar o indispensável cartão. Desembolsei mil-e-tal escudos, gastei depois uns 200 e guardei o cartão para usar mais tarde.
Lembro-me de que, ao metê-lo na carteira ao pé dos outros que já lá estavam, pensei: «Mais um!». No entanto, a maior surpresa estava para vir:
Ao chegar a casa, e ao ler o folheto das instruções, vim a saber uma coisa espantosa: o Porta-Moedas Multibanco, o cartão normal do Multibanco ou qualquer outro de crédito também teriam servido! Acabara, pois, de comprar uma coisa de que não precisava.
«Mas pronto» - pensei - «Seja tudo a bem da Sociedade da Informação. Terei de comprar selos mais dia, menos dia, e as máquinas actualmente já têm a ranhura e a indicação de que aceitam o cartão».
E foi aqui que a coisa começou a correr mal. Ou então sou eu que tenho muito azar, pois, até hoje, não encontrei uma única máquina (e já fui a muitas) que o aceitasse! Um visor em cristais líquidos avisa-me, simpaticamente: «Pague com moedas» e um até me informou: «... e em euros e na quantia certa».
Passemos adiante, omitindo o facto de, nos balcões dos CTT, não se poder pagar com nenhum dos referidos cartões. E esqueçamos mesmo essa empresa e pensemos um pouco na oportunidade perdida que esteve associada à mudança de moeda:
No início de Janeiro vimos inúmeras reportagens com laivos terceiro-mundistas dando destaque a velhinhos e velhinhas que se recusavam a usar o euro - alguns até não distinguindo, nas moedas, o número 2 do número 20. Vimos isso e muito mais, mas pouco ou nada que incentivasse a resolução desse problema através dos pagamentos electrónicos.
Já em 1990, na RFA, fiquei admirado com a grande quantidade de táxis que incentivavam o pagamento por cartão, o que resolvia o drama dos assaltos e dos trocos, para já não falar do problema recente associado à mudança de moeda.
Mas o trôpego andar do nosso país a caminho da modernidade daria motivos para qualquer cronista escrever até ao fim dos tempos:
Há dias tive de ir tratar da mudança do registo de propriedade do meu carro. Descobri onde era a Repartição (nem me passou pela cabeça que o assunto se pudesse resolver pela Internet), e pude conviver com muitas pessoas que durante umas horas deixaram de trabalhar para irem tratar de assuntos iguais ou parecidos com o meu. Enquanto esperava, tive oportunidade de apreciar as montanhas de papeis que por ali havia, os carimbos manipulados agilmente, as fichas e os recibos escritos à mão... Computadores, se os havia, não os vi.
Quando, finalmente, fui atendido, deram-me um papel provisório e informaram-me de que deveria lá voltar 3 semanas depois!
«Olha, também é Chapa 3!» - pensei, pois também demora três semanas a obtenção do título definitivo de um simples Certificado de Aforro...
Mas eu sou optimista, pelo que pus em prática o que já levava preparado:
Puxei de um envelope e de um selo e pedi para me enviarem o documento para casa, como se faz com o IRS, com a carta de condução e até com coisas mais sérias como convocatórias de tribunais.
O senhor que me atendia olhou-me, boquiaberto:
«Não! Não! Não estamos autorizados!».
E é assim que vamos convivendo com o nosso atraso - informático e não só.
Neste caso dos automóveis, o conservadorismo até estava anunciado na tabuleta da porta: «CONSERVATÓRIA». Mas, quanto aos CTT, acho que têm menos desculpa para não me enviarem o meu Certificado de Aforro... pelo Correio!

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