A vantagem competitiva dos miúdos

Jorge Nascimento Rodrigues


As «novas tecnologias» continuam a deslumbrar os adultos, apanhados pela «terceira vaga». Ou a assustá-los e intimidá-los. Para combater essa infofobia existem várias vacinas. Mas o que há de desconforto total para os maiores de 40, é algo natural para a nova geração que hoje corre entre os 4 e os 20 anos. Isso começa a ser verdade pelo menos nos países mais avançados, onde os miúdos e os adolescentes já nasceram «envoltos» no computador pessoal e noutros «media» digitais.

A imagem de uma geração jovem só colada à MTV, apreciadora de criaturas cínicas e patifes como Beavis e Butt-Head, incapaz de ler, escrever e aprender, parece estar a passar à história nas crónicas dos Velhos do Restelo.

A nova geração já pouco tem a ver com a «Geração X» pintada pelo romancista canadiano Douglas Coupland há uns anos atrás. Don Tapscott, outro autor canadiano, baptizou-a de «Geração Net», e escreveu um quase manifesto sobre o que eles são e o que querem, a que deu o nome de Growing Up Digital - The Rise of the Net Generation (editado pela McGraw-Hill), a que já nos referimos no mês passado, aquando do seu lançamento em Toronto.

O impacto do livro e a discussão que gerou inclusive «on line» (ver www.growingupdigital.com) começa, no entanto, a ultrapassar o que era previsível. As revistas mais lidas pelos adultos descobriram o filão do tema - por exemplo, ainda recentemente, a Time Digital (edição de Novembro de 97 com o tema de capa «Meet the Worldwide Webers - A User´s Guide to the Unfolding Information Age» em www.pathfinder.com/@@WSvtPwYACjO@sRmT/time/digital e traduzido na edição da revista «Visão» de 27/11/97.

Entre nós, uma condensação da obra, completada com entrevistas em exclusivo com Tapscott e Kate Baggot, a jovem que coordenou a investigação no terreno, será publicada em português no número de lançamento da Digest Digital, uma nova publicação que será lançada com a Executive Digest de Dezembro, na próxima semana.

Esta súbita «descoberta» tem a sua razão de ser. Tapscott fala de uma rota de colisão entre as duas gerações demograficamente mais fortes da actualidade - entre a geração dos anos 60 que hoje ascendeu ao poder e os mais jovens, seus filhos, nascidos na época do mundo digital. Há um desalinhamento crescente entre os que mandam na família, na escola e no poder e os que percebem demais sobre as tecnologias essênciais da actualidade. Pela primeira vez, na História, não só os adultos controlam uma revolução tecnológica.

O que dantes só acontecia a pequenos géniozinhos, hoje é «massificável». Por outro lado, o modo de pensar,de agir e de comprar desta nova geração é diferente das anteriores.

OS CINCO PROTAGONISTAS
Rufo Sanchez:
13 anos, rapaz,
descobriu o PC aos 4 anos
Nichole Ferguson:
15 anos, rapariga,
estuda numa escola de vanguarda
Heather Gerrard:
15 anos, rapariga,
descobriu o PC aos 4 anos
Sarah Evans:
15 anos, rapariga,
com paralisia cerebral,
descorbiu o PC aos 6 anos na cama do hospital,
ligada à BBS Ability On Line
Javeed Sukhera;
17 anos, rapaz,
um dos membros da equipa KIDSNRG
(Kids' Energy) que criou o «site» Growing Up Digital

Fomos, por isso, «ouví-los» virtualmente. Escolheu uma amostra de cinco canadianos e norte-americanos entre os mais de 300 jovens que participaram no projecto do livro de Tapscott. São adolescentes. O mais novo, Rufo Sanchez, tem 13 anos e o «senior», Javeed Sukhera, tem 17 e foi um dos escribas de serviço do «site» Growing Up Digital. Curiosamente, as raparigas estão em maioria - aliás, é a realidade das jovens comunidades virtuais, como a FreeZone.

Quase todos tomaram contacto com o computador em tenra idade - quatro anos, para a maioria dos nossos interlocutores! E desde 95 que estão mergulhados na Net. Uns têm famílias altamente «tecnológicas» e frequentam escolas em que todos os «profs» têm correio electrónico, imagine-se. Outros não, batalham num deserto de infoanalfabetismo. Um deles, Sarah Evans, é um caso tocante. Ela sofre de paralisia cerebral e foi o computador aos 6 anos e, mais tarde, a ligação a uma comunidade «on line» (Ability on Line) que lhe devolveu o direito de cidadania. Esta entrevista com ela seria impossível se não fosse por «e-mail».

Se há um traço comum a todos é a consciência clara de que têm uma vantagem, «competitiva» adjectivariam os adultos. "Como o futuro vai ser fortemente centrado na tecnologia de comunicação, eu penso que nós, os putos, temos uma real vantagem sim", diz-nos Rufo Sanchez, o mais novo desta amostra. E, sem comentários adicionais, bastaria repetir o que nos escreveu Sarah Evans: "Absolutamente!". Isto permite-lhes desempenhar um novo papel na família e na escola, o que é uma revolução sem igual. Quase todos metem o seu pauzinho nas decisões familiares. "Depende do assunto. Em computadores, sem margem de dúvida", diz Nichole Ferguson, que ainda por cima vive numa família altamente tecnológica e se corresponde com os «profs» por correio electrónico.

No caso de Heather Gerrards, que quase desde as fraldas mexe no PC, o seu papel ainda é mais decisivo: "Ainda ajudo a minha mãe a mandar os seus «e-mails» e tenho de insistir com o meu pai para navegar na Net até para bem dos interesses dele". Ela diz inclusive que na escola "poderia muito bem ensinar os seus professores a usar a Net" e que seria "óptimo se em todas as salas de aula estivessemos ligados". Javeed Sukhera, o mais velho, remata: "Gostaria imenso de estar numa escola em que os «profs» preferissem também eles aprender".

A CIMEIRA JUNIOR
AS CIMEIRAS da miudagem nasceram na cabeça do líder da Sega.

Em 1995, Isao Okawa, no regresso de uma Mesa Redonda europeia com altos responsáveis do mundo da política e dos negócios, constatou a forma como os principais actores do futuro - ao fim e ao cabo os clientes da Sega - estavam totalmente afastados dos foruns que decidiam a sua vida, do debate sobre o futuro.

Resolveu, por isso, criar as "Cimeiras Júnior", a primeira das quais reuniu 40 miúdos de 12 países em Tóquio há dois anos. Agora, com o apoio do Media Lab de Nicholas Negroponte, irá realizar-se a segunda cimeira entre 6 e 11 de Outubro do próximo ano no Massachusetts Institute of Technology em Cambridge/Boston.

«Site» permanente: www.jrsummit.net
E-mail: jrsummit@media.mit.edu

O impacto no mundo do trabalho e dos negócios é, por ora, ainda inimaginável. Mas uma coisa é certa - está a renascer o espírito empreendedor e a capacidade de auto-emprego. "Há imensas oportunidades hoje em dia na Net. A mais imediata é o design de «home-pages», em que já estou metida", diz-nos Nichole, com apenas 15 anos. Rufo, só com 13, vai na mesma onda: "Se eu quiser posso manter o meu próprio negócio a partir da minha «home page» e no campo da programação desenvolver software para partilha".

Em termos de sociedade, o sentido de cidadania global é cada vez mais precoce. Sarah Evans é a mais entusiasta: "Encontro tanta gente, de todo o mundo. Sei tanta coisa. Como o conseguiria de outro modo? E sobretudo jovens como eu com doenças graves?". Javeed Sukhera sintetiza que o digital traz-nos "o mundo à palma da mão".

Acusam-nos de «viciados». Eles respondem que o são "com paixão", tal como os adultos que se perdem no «surf» da Net ou de outras coisas. Mas de uma coisa se limparam - da colagem à TV. "Acho a televisão muito passiva", afirma Rufo, sintetizando o sentir geral. "A TV sinceramente só me atrai para programas muito específicos", respondem Nichole e Heather.

O «vício» maior são, contudo, os «chat rooms», o que os pedagogos revolucionários dizem estar a fazer renascer o gosto pela conversação. E esta é muito "elevada", diriam os adultos - basta ver os temas dos onze foruns em que participam os jovens no «site» Growing Up Digital. Seria óptimo, se uma décima parte deles fosse discutido pelos adultos!

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