Kate Baggot, o braço direito
de Don Tapscott


O poder da criança pela primeira vez na História

Jorge Nascimento Rodrigues com Kate Baggot


Sem Kate Baggot provavelmente «Growing Up Digital» não existiria com a vivacidade e a objectividade que Don Tapscott lhe deu depois. A jovem foi responsável por cerca de 300 entrevistas «on line» com gente entre os 4 e os 20 anos durante um ano. Vasculhou a realidade nos quatro cantos do mundo. Ultimamente foi a cabeça de um grupo de jovens - alcunhados KIDSNRG (Kids'Energy) - que colocou na rede um «site» (www.growingupdigital.com) que é o complemento indispensável do livro. Kate falou com a EXECUTIVE DIGEST no meio da euforia final do projecto. Repete o que por todo o lado se pode constatar ao observar a Geração Net: a relação entre adultos e jovens mudou radicalmente e indiscutivelmente para melhor. Este novo poder é um progresso.


Da sua experiência neste projecto para o livro de Don Tapscott, em que sentido se pode falar de uma vantagem especial que a nova geração está a descobrir nos PC ligados à Net?


KATE BAGGOT - Para lhe dar um exemplo, passado precisamente aí no seu país. Em Novembro do ano passado estive de visita em Vila Real de Santo António em casa de uma família portuguesa e assisti a uma discussão entre João e Vanessa, os filhos, àcerca do PC - o primeiro - a comprar para casa. Fiquei pasmada a ouví-los; o seu conhecimento perfeito sobre a terminologia técnica (em inglês impecável!) e àcerca do poder real deste novo meio para o ensino. Eles não acreditam mais que a Escola de hoje seja suficiente. Disseram-me que queriam usar a Internet como uma ferramenta de estudo para uma aprendizagem independente, autónoma. Na investigação que fizemos para este projecto de Don Tapscott, assisti às mesmas reacções e atitudes do João e da Vanessa tanto nos Estados Unidos, como no Canadá, onde vivo, ou em Singapura ou na Nova Zelândia, posso garantir.

Tapscott diz que as crianças e os adolescentes se estão a tornar autênticas autoridades em certas matérias e áreas. Verificou isso na investigação que dirigiu?


K.B. - Já alguma vez foi corrigido por um garoto de 13 anos? A mim, acontece-me frequentemente. No começo, mexia com o meu ego, mas agora sei que tenho de respeitar a «expertise» deles. Sem dúvida que os miúdos se estão a transformar em "mestres" pela primeira vez na História, pois eles sabem como usar os media digitais e os adultos também o pretendem, mas têm enormes dificuldades. Isto dá à geração Net a oportunidade de ensinar os pais e os professores. A meu ver, a relação entre adultos e crianças mudou radicalmente, e é provavelmente um progresso!

Significa isso que a revolução digital já não é controlada totalmente pelos adultos?


K.B. - Os jovens da geração Net são indiscutivelmente os grandes actores dessa revolução. Não são miúdos que consomem passivamente os media, eles criam-nos. E, ao contrário da televisão para crianças, que é controlada por adultos, a geração Net controla os media que produz para a sua idade.

Mas, como sabe, há um sem número de gente nos media que descreve essa juventude como "viciada na Net", hiper-egoísta, ciníca, culturalmente uma nulidade, só pensando nos cifrões, e em geral "rasca", entre os adjectivos mais simpáticos. Acha que alguns jornalistas, colunistas e políticos estão a criar um ambiente negativo à volta desta nova geração?


K.B. - Os media (tradicionais) estão a pintar um retrato absolutamente falso sobre essa juventude que usa computadores e está "ligada". A TV e os jornais em papel só contam histórias negras sobre «hackers» terríveis, bandidinhos de palmo e meio e marginais à sociedade, e nunca a outra face sobre jovens que estudam arduamente na Net ou que criam comunidades de utilizadores de canais de discussão sobre assuntos "sérios" (segundo os próprios cânones dos adultos). Todos os adultos que entrevistámos para o projecto manifestaram surpresa ao descobrirem que a geração Net é inteligente e muito bem informada. Devo confessar que, no começo, também eu fiquei surpreendida. Como adultos, todos somos um pouco permeáveis a certos preconceitos em relação aos miúdos e aos adolescentes, mas creio que esta nova geração pode ganhar o respeito dos mais velhos - isto se estes arranjarem tempo para perceberem efectivamente como ela vive e pensa, quem ela é de verdade.

E o que é que aconteceu à geração MTV, de que tanto se falou há uns anos atrás, logo que a cultura da TV por satélite se mundializou?


K.B. - Os homens do marketing ainda continuam a acreditar numa cultura jovem homogénea, como a da "geração MTV", moldada por uma mentalidade televisa globalizante. Mas, a realidade é que hoje há uma enorme diversidade entre os jovens. Os novos media interactivos acabaram com a uniformidade e permitiram a personalização que o mosaico da diversidade exige. Muitos adolescentes mais velhos disseram-me que o suícidio de Kurt Cobain os marcou profundamente. [Kurt era o vocalista dos Nirvana, uma banda «grunge». Ele suicidou-se com um tiro de caçadeira na boca! Tinha 28 anos e o seu público ía dos 15 aos 30]. A morte desta estrela matou também muita da influência da MTV...

Como é que surgiu este projecto de Don Tapscott?


K.B. - Don e a família estavam a passar férias em Santa Lúcia, quando a filha Niki, ao despedir-se de Lauren, uma amiga de verão, não sabia como continuar a corresponder-se. Lauren sugeriu que o fizessem por fax - mas, por essa altura, em casa de Don, nem sequer uma máquina dessas havia! Niki convenceu o pai a comprar um fax em circunstâncias curiosas - no preciso momento em que ele era entrevistado em casa para um canal de TV. Um construtor viu o flagrante na TV e convidou a pequena a falar para uma audiência de um milhar de gente do imobiliário, imagine! O painel de miúdos que lá foram ouvidos convenceu também Don de que o pensamento que esta geração tem sobre a tecnologia é altamente válido. E à medida que ele falava com mais miúdos, apercebeu-se de que esta nova geração tinha algo de particular - assim nasceu a geração Net.

E o seu envolvimento como é que aconteceu?


K.B. - O meu envolvimento no projecto de Don surgiu por puro acaso - que é como hoje em dia os adultos mais jovens conseguem arranjar emprego! Quando respondi ao anúncio, apenas sabia que se tratava de um autor de tecnologia e negócios aqui de Toronto que precisava de apoio para o seu próximo livro, e como eu tinha um mestrado em comunicação criativa e alguns artigos a crédito, aventurei-me. Além disso, havia sido educadora infantil para pagar os meus estudos, e tinha ensinado o inglês a crianças filhas de emigrantes. (Aqui, no Canadá, ensinar crianças é um trabalho muito mal remunerado, mas eu gostei imenso de fazer isso). Não tinha a mínima ideia do que depois iria acontecer - entrevistar esta nova geração era precisamente a minha tarefa no projecto.

E houve algum momento mais especial que a tenha impressionado?


K.B. - O ter descoberto a comunidade Ability on Line, um «site» para jovens deficientes. Eu descobri lá uma jovem de 15 anos, Sarah Evans, com paralisia cerebral, com quem tive enorme dificuldade em comunicar por telefone, em perceber o que ela dizia - mas quando passámos a comunicar «on line» tudo se transformou do dia para a noite. A Net permitiu-nos comunicar perfeitamente, o que seria impossível há uns anos atrás.

Para terminar, como surgiu o seu interesse pela Net?


K.B. - Começei a usar a Net em 1995 - apenas há dois anos! -, quando estava a tirar o mestrado na Universidade de British Columbia, pois usava o correio electrónico para me corresponder com o meu supervisor de tese que estava em Vancouver, na costa do Pacífico, enquanto eu continuava aqui em Toronto. Também passei umas férias a trabalhar para o Comité Canadiano de Protecção aos Jornalistas, em que usávamos a Net para relatar casos de violação internacional dos direitos humanos, ameças aos trabalhadores da informação e ataques à liberdade de informação. Esta experiência, posso assegurar, mostrou-me o lado mais positivo desta nova tecnologia. Além do mais, os meus pais sempre me ensinaram que o saber era mais revolucionário do que a bomba nuclear.

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