Don Tapscott sobre a Geração Net
O PODER IGNORADO DOS MIÚDOS
Jorge Nascimento Rodrigues
com
Don Tapscott em Toronto
Don Tapscott escreveu «Growing Up Digital - The Rise of the Net Generation» curiosamente a pensar nos adultos que hoje detém o poder nas empresas, na sociedade e na família. O objectivo é abaná-los, para que se evite, amanhã, um choque geracional de grandes proporções. Deu, por isso, voz aos adolescentes e jovens que nascerem e cresceram, sobretudo na América do Norte, já "dentro" da emergência da economia digital e do predomínio das comunicações. Revelou a sua face "construtiva" e desmanchou calúnias e mitos sobre a jovem geração.
A EXECUTIVE DIGEST foi ouvir Tapscott nas vésperas do lançamento emocionado
do «site» do projecto (www.growingupdigital.com)
e registou os seus avisos repetidos. A leitura desta entrevista deve ser complementada
com as que realizámos com Kate Baggot, de 24 anos,
o braço direito de Don neste projecto, e com Allison
Ellis, moderadora de «FreeZone».
Dez anos depois de ter escrito Mudança de
Paradigma [Paradigm Shift], acha que o seu ponto de vista se tem confirmado,
ou foi mais uma «buzzword»?
DON TAPSCOTT - Eu acho que a ideia de mudança de paradigma quanto à
natureza e papel da tecnologia no mundo dos negócios se aguentou muito bem
ao longo desta década. Continuo a encontrar por todo o lado onde vou homens
de negócio e líderes a usarem o conceito. Ele popularizou-se.
Mas qual foi a sua efectiva contribuição?
O discurso do novo paradigma já vinha detrás...
D.T. - As pessoas tinham começado a falar da aprendizagem para toda
a vida, do teletrabalho e das comunicações em rede. Mas eram conceitos dispersos,
não estavam interligados. Desde o meu livro, que se começou a ligar aquelas
ideias a mudanças reais no nosso comportamento. Mas é preciso ir mais longe,
mais fundo na mudança de paradigma a nível empresarial.
Mais fundo ainda, com uma maioria de empresários
e gestores que tremem só de ouvir essas suas "ousadias" teóricas (que esperam
sinceramente que nunca passem disso mesmo)?
D.T. - Veja o caso que eu abordo neste meu livro - o da geração Net.
Ela está a praticar - falo de praticar, não de discurso - o trabalho em equipa,
a partilha de saber e a globalização, ao usarem no dia-a-dia as novas ferramentas.
Estas actividades e comportamentos - absolutamente naturais, neles - não toleram
a hierarquia do modelo empresarial clássico, nem mesmo a da família tradicional.
Será muito interessante, nos próximos anos, ver o que vai acontecer nas empresas
e nas famílias que se recusarem a uma comunicação mais aberta e a um conhecimento
partilhado, quando esta nova geração se tornar adulta.
Este livro que agora editou sobre a nova
geração vem na sequência de A Economia Digital [The Digital Economy]. Continua
a apostar na ideia da emergência de uma nova realidade económica e social,
apesar de muita gente responsável a continuar a ignorar?
D.T. - Sim. Estamos a meio de uma revolução tão importante como outras
anteriores na história. As comunicações em rede e os media digitais estão
a mudar radicalmente a forma como fazemos os negócios, como nos divertimos
e estudamos. Seria completamente ingénuo julgar que os miúdos não estão a
ser afectados por esta vasta mudança social, política e económica. Escrevi
Growing Up Digital quando descobri que a gente jovem está muito mais preparada
do que nós para a mudança. Ela cresce naturalmente com as novas tecnologias,
algo que nós - adultos - tentamos agarrar. Chamei-lhe "geração Net" porque
é a primeira leva a nascer com acesso a estes novos media.
Você escreveu que essa geração de miúdos
controla facilmente aspectos essênciais dessa revolução. Essa é uma "vantagem
competitiva" incrível. É a primeira vez na história que isso acontece, não
é? Será que os adultos, no poder, não terão imenso a recear da irupção desses
pequenos guardas-vermelhos da Web?
D.T. - De facto, pela primeira vez na História da Humanidade, as crianças
têm mais conhecimentos, do que nós, sobre um aspecto - direi crucial - do
desenvolvimento da nossa sociedade. Isto é bom para aqueles adultos que são
capazes de aprender com os miúdos. Mas mete medo e gera receios à multidão
de todos os outros. Pais e professores crêm que já não conseguem "proteger"
os miúdos da pornografia ou da literatura que inflama ódio [mas não está ela
ao virar da esquina?]... Há dois extremos, ambos conservadores, nesta discussão:
um dos lados vê estas crianças como "vítimas coitadinhas" e o outro como perigosos
guerrilheiros. Em que ficamos? Um cínico dirá: são as duas coisas. A meu ver,
ambos são pontos de vista nocivos para a liberdade de expressão e os direitos
da criança. Contudo, depois da derrota, nos Estados Unidos, da Lei da Decência
nas Comunicações, que esses extremos acalmaram um pouco. Isto ajudou a Net
e trará mais gente para o «on line».
Fala, também de mundos paralelos, realidades
sobrepostas, entre a nova geração e os adultos de hoje. Já não é um fosso
- como na nossa época de jovens em relação aos nossos pais. O que é que quer
dizer exactamente com essa distinção entre o «gap» geracional (o tal fosso
que nós vivemos há 30 anos atrás) e o «lap» geracional de hoje?
D.T. - Nós falávamos de fosso geracional - o «gap» - para ilustrar
o cisma entre nós [a geração nascida no pós-guerra, conhecida por «baby boomers»
na designação inglesa] e os nosso pais. Nos anos 60, não concordávamos em
nada com eles. Havia um fosso...de atitudes. Hoje, o problema não é esse.
A separação entre gerações não é fundamentalmente sobre atitudes - mas sobre
competências e aptidões. Deixo-lhe uma adivinha: se um pai e um filho se puserem
à frente de um PC em casa para aprender a usá-lo, qual dos dois ganha facilmente
a dianteira?
Mas porque é que há essa diferença de velocidade
entre o miúdo e pai?
D.T. - Tem a ver com os estágios de desenvolvimento humano. Como as
crianças estão numa fase de crescimento rápido, conseguem assimilar mais facilmente
as novas tecnologias, interiorizá-las na sua vida do dia-a-dia como algo "natural",
enquanto que nós, adultos, temos de nos adaptar. "Reciclar", não é como se
diz? Ora, a tal reciclagem, a adaptação tenta reconciliar o novo com o velho
(é o nosso mecanismo). Pelo contrário, a assimilação absorve pura e simplesmente
o novo (é o mecanismo dos miúdos) - não tem de reciclar nada! A reciclagem
- o nosso caso - é, por isso, um processo de aprendizagem muito mais difícil
e doloroso.
Há, então, o perigo - ou a sorte, depende
do lado da barricada - de um novo Maio de 68, fruto de uma nova rota de colisão
entre gerações?
D.T. - Um novo Maio de 68 é um cenário bem real. No livro, eu falo
de quatro cenários possíveis. O desfecho deles depende basicamente da vontade
e da capacidade de nós, adultos, entendermos os nossos filhos ou não. Se apoiarmos
as empresas e as comunidades da geração Net, se participarmos na partilha
do saber e na construção de novas relações, então a aliança entre duas gerações
poderá ser a mais forte de sempre da História. Mas, pelo contrário, se continuarmos
a exigir submissão à (nossa) hierarquia nas famílias e nas empresas, então
caminharemos para uma colisão sem precendentes.
Voltando ao tal «lap» geracional. Nós começamos
a assistir a um virar de permas para o ar da própria hierarquia do saber.
Os miúdos sabem e fazem coisas que os adultos não são capazes ou sentem uma
terrível dificuldade. Quais são as consequências desta inversão de poder nas
escolas e dentro da família?
D.T. - Quando as crianças se tornam "mestres" em determinadas áreas
- sublinho que isto está a acontecer pela primeira vez na História! - isso
muda radicalmente o conceito de autoridade na família, nas escolas e noutras
instituições. Estes miúdos, no futuro, não vão querer trabalhar para organizações
tradicionalistas, em que há um patrão tido como o suprasumo. Tal tipo de autoridade
está a desaparecer!
Daqui a dez ou quinze anos como será o equilíbrio
do poder no mundo empresarial e político com a entrada na vida adulta dos
mais velhos desta geração Net?
D.T. - O futuro não se adivinha. Constrói-se. Nós adultos temos de
ter uma atitude positiva em relação à cultura jovem, à sua tecnologia, para
evitar amanhã um choque geracional profundo.
E qual é o grande impacto no marketing que
está a provocar esta geração "ligada"?
D.T. - Estes miúdos são a primeira geração a tornar o comércio digital
uma realidade. Os homens do marketing têm de perceber isto rapidamente.
Um dos pontos que sublinha é que há um renascimento
do espírito comunitário, um hábito que se tinha perdido com o PC. Mas quais
são as principais diferenças entre as comunidades «on line» jovens e as dos
adultos?
D.T. - Os miúdos entram e criam mais cedo essas comunidades. E para
os miúdos são coisas para gente "normal", não são comunidades fechadas para
tecnólogos ou maluquinhos dos computadores.
Será que a TV vai renascer e voltar a ter
os miúdos de volta colados ao televisor? E o PC estará mesmo morto enquanto
máquina "estúpida" e "individualista"?
D.T. - A TV está morta e ponto final. Está a ser literalmente comida
pela Web - as redes de TV no futuro não serão mais do que um «site» adicional
na Web. Quanto ao computador pessoal está morto, sim, no sentido de que ele
se tornou uma rede e a rede se está a tornar o computador. A computação "pessoal"
é cada vez menos pessoal - as pessoas usam os computadores para se relacionarem
com os outros. É cada vez mais interpessoal. O PC tornou-se um meio de comunicação.
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