A próxima rebelião do Ouro?

O preço da onça de ouro está quase a metade dos valores dos anos 80, fruto de um "esquema" de futuros e empréstimos alimentado por alguns bancos
de investimento desde final de 97. Em vésperas da Conferência de Paris (26
e 27 de Junho) organizada pelo Financial Times sobre este metal precioso, alguns analistas vaticinam o final próximo desta situação

Jorge Nascimento Rodrigues com William Murphy, presidente do Gold Antitrust
Action Commitee

Links de referência sobre o tema do ouro
 Site com o documento do GATA - "Gold Derivative Banking Crisis" 
Dados históricos (médias mensais e alguns valores diários
entre 1968 e Junho de 2000)

Comentário sobre a Conferência Mundial de Paris

O preço do ouro está muito abaixo do seu valor de equilíbrio no mercado face a uma procura 30% superior à oferta. O preço é mantido baixo, desde finais de 1997, em virtude de uma oferta artificial criada por via de futuros financeiros e por um esquema hábil de empréstimos de ouro por parte de alguns bancos centrais a juros insignificantes.

A acusação, nas vésperas da Conferência sobre o Ouro, organizada pelo Financial Times, que se vai realizar em Paris a 26 e 27 de Junho de 2000, é do Gold Antitrust Action Commitee (GATA), um grupo de pressão norte-americano, que identifica um "pool" de grandes bancos de investimentos de vários países e algumas entidades oficiais dos Estados Unidos como estando a "manipular" o preço da onça de ouro, de modo a este não ultrapassar uma imaginária "Linha Maginot" em torno dos 290 dólares.

O ouro no mercado "spot" de Nova Iorque continuava esta terceira semana de Junho de 2000 a ser transaccionado abaixo dos 290 dólares e os futuros para Agosto têm variado numa faixa entre os 285 e os 295 dólares.

Mas esta situação artificial começa a revelar-se política e economicamente insustentável, particularmente depois do Acordo - conhecido por "Acordo de Washington" - entre os 15 bancos centrais europeus em Setembro do ano passado (26 de Set. de 1999) que permitiu colocar a nu, pela primeira vez, o "absurdo" de um preço tão baixo.

QUADRO DE REFERÊNCIA HISTÓRICA
(Médias Mensais no London Fix 1968-1999 e valores
 diários em 2000 segundo Bloomberg; dólares por onça) 
 Janeiro 68 - 35,2
 Janeiro 71 - 37,87 (Ano de abandono do padrão-ouro)
 Janeiro 73 - 65,14 (1º choque petrolífero)
 Janeiro 74 - 129,19 (duplicou de preço num ano!)
 Janeiro 79 - 227,27
 Dezembro de 79 - 455,08 (ano do 2º choque petrolífero)
 Janeiro 80 - 675,30 (pico histórico)
 Janeiro 81 - 557,38
 Janeiro 89 - 404,01
 Fevereiro 96 - 404,79
 Dezembro 97 - 288, 74 (Início da Manipulação)
 Outubro 99 - 310,72 (Depois do Acordo de Washington)
 Janeiro 2000 - 288
 7 Fevereiro 2000 - 312
 31 Maio 2000 - 272
 19 Junho 2000 - 286

Recorde-se que, na sequência da declaração deste grupo de bancos centrais europeus no sentido de limitar as vendas anuais de ouro a 400 toneladas nos próximos cinco anos e a não aumentar o nível de empréstimos, o preço subiu de 87 dólares em pouco dias para valores muito acima dos 300 dólares por onça e as taxas de empréstimo dispararam para os 9% ao ano.

Bomba a contra-relógio

"O 'pool' de manipuladores deitou, então, as mãos à cabeça e não parou enquanto não conseguiu neutralizar a medida", refere-nos William Murphy, presidente do GATA, que fez carreira financeira nos futuros, e que hoje dirige dois "sites" na Web que são referência para a comunidade de investidores e analistas do ouro (o www.gata.org e o forum www.LeMetropoleCafe.com).

"A não se corrigir rapidamente esta deriva poderá gerar-se uma crise financeira de proporções épicas nas entidades envolvidas", acrescenta o responsável do GATA que entregou em Maio uma Carta Aberta, intitulada "Gold Derivative Banking Crisis" (que poderá ser lida ou obtida em www.gata.org), no Congresso e no Senado norte-americanos. "Trata-se de uma bomba a contra-relógio, que poderá explodir a qualquer momento, quando os próprios departamentos de controlo de crédito desses bancos determinarem subitamente o fim da euforia dos derivados e dos empréstimos em ouro", explica Murphy.

Um dos resultados "benéficos" (na óptica do GATA) de uma crise de derivados do ouro será, naturalmente, um disparo do preço do ouro para valores mais próximos da sua "média" durante os anos 80 e 90 (acima dos 400 dólares por onça), o que favoreceria os investidores que apostam no ouro, os produtores do metal precioso... e outros bancos centrais interessados em contra-atacar a hiper-valorização da nota verde americana.

Esta "manipulação" em torno do ouro e os limites a que está a chegar é mais um sintoma do período conturbado de que nos aproximamos.

Segundo os analistas do GATA, podem estabelecer-se "ligações perigosas" com a hiper-valorização da nota verde (o dólar norte-americano) e o clima especulativo bolsista, bem como com um ambiente geral de "bebedeira" de crédito bancário e o agravamento do défice da balança comercial dos Estados Unidos.

Há sinais de que estas várias "componentes" estão a convergir para uma correcção de grandes proporções - lê-se nas entrelinhas do relatório. A indicação para os investidores é, por isso, cristalina - quando a "bolha" dos mercados de capitais esvaziar e o dólar descer para o seu valor "natural", o ouro voltará a ser um investimento interessante.

Um absurdo económico

"A oferta do ouro (físico) por quem o produz tem diminuído e, no entanto, os empréstimos sobre o ouro e os derivados dispararam. Alguém está a tentar manter baixo o preço do ouro usando puro papel. Demasiado ouro está a ser consumido a preço demasiado baixo", lê-se no relatório do GATA. O turbilhão de empréstimos e de futuros já excedeu em 2000 as onze mil toneladas de ouro - qualquer coisa como quase 5 anos de oferta de ouro (real) ou 1/3 de todas as reservas de ouro oficiais declaradas pelos bancos centrais junto do FMI.

"Todas as reservas de ouro existentes nos bancos centrais - que deverão totalizar umas 33 mil toneladas oficiais - ao desbarato do preço actual não valeriam mais de 1 trilião de dólares, ou seja pouco mais do que a actual capitalização bolsista da Microsoft (388 biliões) e da Intel (457 biliões) juntas", escandaliza-se Bill Murphy, para quem isto é "um absurdo económico", apesar da importância da Nova Economia.

O ouro decuplicou de preço no período das crises petrolíferas dos anos 70 e atingiu um pico histórico no seu valor monetário em Janeiro de 1980 (mais de 675 dólares por onça) durante o período de crise prolongada nos Estados Unidos, antes da descolagem da Terceira Vaga. Até final de 1997 manteve-se acima dos 400 dólares por onça, até que o "esquema" manipulador (ver caixa abaixo)começou a actuar e empurrou subitamente a onça para menos de 290 dólares em Dezembro daquele ano.

SITES DE REFERÊNCIA SOBRE O OURO
GATA: www.gata.org
Forum do Le Metropole Café: www.LeMetropoleCafe.com
 Preços e Futuros ao dia das Commodities: www.bloomberg.com 
Outros sites:
www.e-gold.com | www.golddirectory.com | www.kitco.com
www.goldensextant.com

OS ÓSCARES DA MANIPULAÇÃO
O GATA atribuiu os "óscares" da "manipulação" a bancos de investimento como "o Goldman Sachs, a UBS, o Deutsche Bank, o Morgan Bank, o Chase Bank e, provavelmente, o Morgan Stanley", segundo Bill Murphy, que acrescenta que é "de suspeitar que o Exchange Stabilization Fund e o próprio Federal Reserva Board não estarão inocentes no que se está a passar".
Com base em dados estatísticos de Março passado do US Office of the Controller of Currency pode estimar-se que os derivados de ouro alimentados pelo "pool" de "manipuladores" deverá rondar os 91 biliões de dólares (mais de 100 mil milhões de euros), o que equivaleria a 319 milhões de onças de ouro, ou seja vários anos de produção. Nalguns casos de bancos de investimento, o peso dos derivados de ouro nos balanços subiu entre 40 a 250% só no último ano, segundo o GATA.
O "esquema" começou como um expediente financeiro de alguns bancos que pediam emprestado ouro aos bancos centrais a taxas de juro de 1% ao ano. Essas entidades tomadoras de ouro vendem-no, depois, no mercado, onde é transformado regra geral (sobretudo joalharia na Ásia), e investem os ganhos em especulação financeira ou em outros instrumentos financeiros, como títulos do tesouro norte-americano. O problema "técnico" é como devolver, depois, esse ouro a quem o emprestou.
O truque intensificou-se, depois, com o recurso aos futuros que têm artificialmente criado uma oferta (em posições no papel) enorme de ouro, o que tem permitido manter o preço baixo. O GATA refere que "uma brecha legal" no New York Mercantile Exchange permite "vender" metais preciosos sem realmente os possuir.
A última manobra de diversão, segundo Bill Murphy, foi ainda, recentemente, protagonizada na última Conferência do Instituto Internacional de Metais Preciosos em Williamsburg, nos Estados Unidos, em 12 de Junho. Um economista do Federal Reserve Board, Dale Henderson, chegou a lançar a "bisca" de que os bancos centrais se deveriam livrar das reservas, o que empurraria o preço do ouro para valores abaixo dos 210-220 dólares, uma "solução final" que ficaria abaixo da avaliação "mais barata" do custo de produção, que seria, no mínimo, de 250 dólares por onça. Uma baixa deste tipo implicaria um prejuízo adicional de uns 133 biliões de dólares (cerca de 140 mil milhões de euros) para os produtores.
Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal