Euro: 2003 - um ano de sofrimento

A Europa tem de se adaptar a um período de dólar "fraco" e aos impactos negativos desta estratégia da Administração Bush. E aproveitar as oportunidades financeiras e a baixa dos preços internacionais das mercadorias definidos em dólares. Tem, também, que "digerir" um provável "não ainda" da Grã Bretanha na adesão à zona euro e os rumores de atrasos com a Suécia, Dinamarca, Polónia, Hungria e Eslováquia.

EM EXCLUSIVO
Robert Mundell, Prémio Nobel de Economia de 1999, e considerado o "padrinho" do euro nos anos 70, fala da indecisão do Reino Unido e incentiva os novos países da adesão à União Europeia em 2004 a não imitarem a indecisão britânica.
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Por Jorge Nascimento Rodrigues, 30 de Maio de 2003

Dólar "fraco", euro "forte" - como agir?

Apesar do euro ter ultrapassado em 21 de Maio de 2003 as valorizações do seu primeiro mês de lançamento, no começo de 1999, face ao dólar norte-americano, a desvalorização da nota verde é "ainda demasiadamente modesta", segundo a análise do conhecido economista-chefe da Morgan Stanley, Stephen Roach. O euro abriu o mês de Maio a 1,1175 dólares e em 21 de Maio atingiu o valor médio diário de 1,1711, um valor cambial acima dos 1,1674 de 1 de Janeiro de 1999. Fechou Maio de 2003 com o euro a valer 1,1783 dólares.

As estimativas de valorização adicional do euro variam entre 20 a 25%, segundo o Institute for International Economics, de Washington, e os 40% segundo o European Citicorp Forex. Apesar da geometria variável de previsões, a recomendação de estratégia dada unanimemente pelos analistas é simples: a Europa tem de adaptar-se a um dólar "fraco" enquanto durar a actual situação de depressão nos Estados Unidos e de duplo défice abissal nas suas contas correntes e na sua balança de pagamentos.

Sem margem de manobra

Depois das recentes declarações do secretário do Tesouro norte-americano, John Snow, ficou claro que a Administração Bush entendeu que os cortes "competitivos" nas já baixas taxas de juro deixaram de ser uma ferramenta macro-económica eficaz - o exemplo da ineficiência competitiva da estratégia de "cortes" no Japão é hoje uma evidência. Restava, por isso, regressar à desvalorização "competitiva" e ao dólar "fraco" anterior a 1995 e ao disparo da "bolha" especulativa nas bolsas americanas.

A actual desvalorização do dólar - que já vai em 11% este ano - compensa só uma parte da subida de 47% que ocorreu desde os mínimos históricos do dólar em Maio de 1995

A ruptura com a estratégia de valorização artificial do dólar seguida por Robert Rubin, o secretário do Tesouro de Bill Clinton, é agora assumida. "A actual desvalorização do dólar - que já vai em 11% este ano - compensa só uma parte da subida de 47% que ocorreu desde os mínimos históricos do dólar em Maio de 1995", escreveu Roach, que sublinha a necessidade dos EUA procederem a este tipo de "reequilibro" que conduzirá a taxas de juro mais altas e à reconstrução das poupanças do sector privado.

O défice das contas correntes dos EUA já se situa nos 6% do PIB - disparou de 393 mil milhões em 2001 para uma estimativa de 600 mil milhões no final de 2003. Por seu lado, o défice da balança de pagamentos passou de 85 mil milhões para 325 mil milhões, no mesmo período. A lógica da desvalorização terá um efeito já estimado - cada ponto percentual de desvalorização do dólar no índice da Reserva Federal poderá, a prazo, reduzir o défice corrente em 10 a 15 mil milhões, segundo Fred Bergsten, director do Institute for International Economics.

Para a Goldman Sachs, analisando o impacto noutra óptica, cada 10% de desvalorização do dólar melhorará as "condições financeiras em 50 pontos de base". Quanto ao défice comercial, a desvalorização actuará como um "laxativo" para as exportações norte-americanas, refere aquela entidade. O analista independente Peter Cohan sublinha o duplo efeito que a desvalorização cambial poderá ter nos sectores exportadores americanos: "As empresas que vendem em dólares poderão baixar os preços nas exportações para outros países e as firmas exportadoras que vendem em euros verificarão que na conversão cambial ganharão mais dólares. No curto prazo, estas dinâmicas poderão levar a lucros crescentes nas empresas americanas".

Impactos de sinal contrário
A valorização do euro acarretará um efeito duplo na Europa. Por um lado debilitará os países da União Europeia que exportam em dólares nomeadamente para os EUA e Reino Unido, favorecerá as importações sobretudo dos países asiáticos (denominadas em dólares) e poderá implicar reacções políticas mais extremadas contra a entrada na eurozona por parte de países da União Europeia ainda não aderentes. "Um euro hiper-forte não é bom para a Europa, sobretudo para quem depende do mercado americano. Ora isso poderá aumentar o risco de recessão global europeia", afirma Peter Cohan.
No entanto, por outro lado, há que equilibrar as más notícias com uma boa novidade, sobretudo para países como Portugal muito dependentes de algumas mercadorias estratégicas. As importações de petróleo e de outras commodities, cujo preço internacional é definido em dólares, ficam relativamente mais baratas em euros.
Finalmente, o novo clima psicológico em torno do euro abre uma oportunidade para estratégias de captação dos capitais internacionais que têm fugido dos EUA e de mudança de referência para o euro por parte de entidades e países que têm abandonado estratégias de "hedging" em dólares ou encetado medidas de recomposição das suas reservas. Fruto da perda de atracção dos EUA já saíram deste país 213 mil milhões de dólares em 2002, conforme já referimos noutro artigo.

Economistas pressionam Blair para aderir ao euro

O primeiro ministro inglês tem estado sob forte pressão do mundo académico, industrial e financeiro internacional que maioritariamente desejaria que a libra saísse de cena até 2006/7. Continua a expectativa sobre a decisão política de adesão formal à zona euro ou de repetição de um adiamento, como o decidido pelos ingleses em 1997. A decisão será discutida em Conselho de Ministros a 5 de Junho de 2003 e anunciada dia 9 pelo chanceler do Tesouro.

Nomes sonantes da classe dos economistas e das instituições financeiras de renome mundial continuam a pressionar publicamente Tony Blair e o governo inglês no sentido de, na próxima semana, na reunião do Conselho de Ministros de 5 de Junho, darem um sim político à entrada do Reino Unido na zona euro. A haver um "sim", a saída de cena da libra esterlina poderia efectivar-se, em termos práticos, em 2006, ainda antes da entrada no euro de alguns dos novos países membros da União Europeia a partir de Maio de 2004.

Paul Volcker, ex-presidente da Reserva Federal norte-americana entre 1979 e 1987, Stanley Fisher, ex-director geral do Fundo Monetário Internacional de 1994 a 2001, e o Prémio Nobel Robert Mundell, surgem à cabeça de uma lista de nomes reclamando que "não só há uma evidência económica esmagadora a favor da entrada no euro, como é essa a opinião dos economistas". Estes notáveis contrariam abertamente os rumores de que os cinco "testes económicos" de novo realizados sobre os impactos da entrada na zona euro dariam ao chanceler do Tesouro britânico, Gordon Brown, argumento "científico" para publicamente a 9 de Junho voltar a adiar a decisão, como em 1997.

Foi Brown que inventou há seis anos atrás o mecanismo dos "testes económicos", com o argumento de evitar repetir os erros voluntaristas do passado, nomeadamente a atribulada entrada da libra em 1990 e a saída dois anos depois do Mecanismo de Taxas de Câmbio Europeu. Com base nessa metodologia, o Reino Unido não aderiu formalmente ao euro em 1999. O balanço do período de 1987 a 2002 não é pacífico - alguns analistas referem que o Reino Unido perdeu dinâmica competitiva, caindo do sétimo para o décimo primeiro lugar no "ranking" da Competitividade Global das Nações, criado pelo World Economic Forum e por Michael Porter.

Esta afirmação pública de uma galeria de notáveis vem na sequência de uma outra tomada de posição de 11 economistas de referência internacional que apresentaram em Inglaterra um estudo sugestivamente intitulado "As consequências de dizer não". Segundo o documento "um adiamento temporário é uma opção política com um preço", concluindo que ficar de fora do euro é "mais arriscado".

As divisões dentro do Conselho de Ministros inglês são conhecidas e alguns dos membros andam a tomar "aulas" sobre o tema com Robin Marris, um economista reformado do Birkbeck College da Universidade de Londres

O documento intitulado no original "The Consequences of Saying No: An Independent Report into the Economic Consequences of the UK saying No to the Euro" foi publicado no dia 6 de Maio, e era assinado, entre outros, por Barry Eichengreen, da Universidade da California em Berkeley, onde é director do Instituto de Estduos Europeus, David Begg, do Imperial College inglês, que coordenou o documento, e Olivier Blanchard do MIT.

Ler o documento dos "11" aqui

As divisões dentro do Conselho de Ministros inglês são conhecidas e alguns dos membros andam a tomar "aulas" sobre o tema com Robin Marris, um economista reformado do Birkbeck College da Universidade de Londres, um personagem conhecido pela obra seminal de 1964 "The Economic Theory of Managerial Capitalism" e pelo recente e polémico "Ending Poverty" (1999). Marris vai lançar, na própria semana em que o gabinete discute, à porta fechada, o tema, um manifesto intitulado "Porque razão a Grã Bretanha fará melhor estando no euro".

Os argumentos da City

Mas a City financeira londrina, com fortes ligações ao Partido Conservador, tem uma sensibilidade diferente. As objecções da City à moeda única são de três ordens.

Por um lado, opõe-se à transferência de soberania do Banco de Inglaterra para o Banco Central Europeu (BCE) e critica as regras que estão a ser pensadas para a reforma do funcionamento do BCE no futuro.

Por outro, pensa que a adesão à moeda única vai forçar o Reino Unido a perder a sua margem de maior flexibilidade orçamental e a sua aposta em taxas de juro mais elevadas.

E, finalmente, a própria questão da taxa de câmbio apropriada para a "fusão" da libra no euro alimenta o argumento do adiamento. Para a Goldman Sachs o nível actual de desvalorização da libra face ao euro não é ainda favorável a uma entrada na zona euro - o euro já está acima dos 72% da libra, mas a casa financeira é de opinião que menos de 77% não é aceitável "tecnicamente". O FMI lança 81% como o ponto de equilíbrio e o Institute for International Economics prefere 83%. A GS alvitra, por isso, que é preferível fazer "a desvalorização fora da zona euro" que dentro de um período de transição, segundo o seu Global Economics Paper, nº90, de 21 de Fevereiro de 2003, num relatório intitulado "Can the UK Achieve a Smooth Transition to EMU?". "Esperamos que o Tesouro (britânico) conclua que o momento não é ainda o apropriado para que o Reino Unido entre na moeda única", refere o documento.

"Por tudo isso é compreensível a resistência", diz-nos um dos "11", Barry Eichengreen, professor de Economia e de Ciência Política na Universidade de Berkeley, na Califórnia. Contudo, Eichengreen afirma que os interesses geo-estratégicos da City deveriam ir no sentido contrário: "O desejo de manter Londres como um dos centros mundiais da finança - o primeiro no mercado de divisas - é um forte argumento para a adopção do euro. E não o contrário. Se o Reino Unido ficar de fora, será difícil competir, a prazo, com uma outra praça financeira emergente, seja Paris ou Frankfurt, à medida que o euro se consolidar".

Outro artigo polémico com Eichengren na Janelanaweb.com
"A reforma realista do FMI"

O sentido das vantagens da adesão é, desde há muito, defendido pelo lóbi industrial, que nos últimos anos tem pressionado o governo inglês a aderir ao euro. Ainda esta semana, o presidente da multinacional Unilever, Niall Fitzgerald, advertiu dramaticamente Tony Blair para as consequências dum "não" ao euro: o comércio, os investimentos e a influência britânica na União Europeia serão afectadas.

O analista americano Peter Cohan tem opinião contrária: "Uma análise independente do impacto na performance económica do sector industrial levaria à conclusão de que ficará melhor se continuar independente da eurozona". Os resultados do já referido "ranking" de competitividade indicam que, a nível micro-económico, as empresas inglesas passaram do sétimo lugar em 1987 para o terceiro lugar em 2002, logo a seguir aos EUA e à Finlândia, e à frente da Alemanha.

A "concorrência" do Leste

Mas um possível adiamento do sim pelo Reino Unido tem desvantagens acrescidas que estão relacionadas com o alargamento da UE ao Leste. Se o Reino Unido decidir adiar a decisão sobre o euro para depois da entrada dos novos 10 países em Maio de 2004, as negociações em 2005 ou 2006 serão, então, menos vantajosas para Londres. Se aderisse agora, Bruxelas e Frankfurt mostrariam certamente alguma flexibilidade, tanto mais que o euro está a sofrer um fortíssimo ataque da estratégia do dólar "fraco" e há sinais de recessão em países europeus.

Tony Blair dispõe de uma janela de oportunidade agora, que nem ele ou o seu sucessor disporão depois

Como explica Eichengreen: "Penso que os membros da zona euro terão de reformar aspectos institucionais - como, por exemplo, a muito polémica forma de constituição da direcção do futuro Banco Central Europeu - para poderem acomodar os novos membros. Por isso, há, agora, de facto, uma janela de oportunidade para o Reino Unido poder influenciar estas decisões, se aderir ao euro - de outra forma, não as influenciará".

Mas se a Inglaterra aderir juntamente com países como a Polónia, Hungria e Eslováquia, é altamente improvável que se aceitem excepções para Londres. Tony Blair dispõe de uma janela de oportunidade agora, que nem ele ou o seu sucessor disporão depois. De qualquer modo, o adiamento inglês poderá influenciar negativamente o referendo de adesão à união monetária que se vai realizar em Setembro na Suécia.

Os meios políticos britânicos falam, no entanto, de um eventual compromisso dentro do Governo inglês no sentido de equilibrar o adiamento deixando uma porta aberta para o recurso a um futuro referendo. Continua em aberto se antes das eleições gerais de 2005, ou se depois.


ENTREVISTA EXCLUSIVA

Nobel Mundell: "Não imitem o exemplo inglês"

O artificio político dos testes económicos ingleses não é exemplo para outros países europeus que queiram avaliar os prós e contras da adesão à zona euro, afirma Robert Mundell, Nobel de Economia em 1999, considerado o "padrinho" do euro . Apesar de ser um canadiano que lecciona no Departamento de Economia da Universidade de Columbia em Nova Iorque, Mundell, com 71 anos, continua a ser, em termos monetários, um "europeísta" assumido. Na teoria económica foi o pioneiro da ideia da vantagem de abdicação de moedas nacionais e da criação de divisas comuns em determinados espaços geo-políticos - o que lhe valeu o Nobel. O seu artigo de 1961 escrito na American Economic Review (edição de Novembro, "A Theory of Optimum Currency Areas") influenciaria o "Plano para uma moeda europeia" lançado em 1970, em que ele também esteve envolvido, quando foi consultor do Comité Monetário da CEE e pertenceu, em 1972 e 1973, ao grupo de estudo da União Monetária. Mais recentemente coordenou a publicação do livro "The Euro as a stabilizer in the International Economic System" (compra do livro), um título que fala por si.

O Reino Unido irá, finalmente, por decisão política, entrar na zona euro?

Entrará, certamente. A única questão é saber quando. É o melhor meio para promover a sua liderança na Europa, para manter a Europa na NATO e evitar que o Continente não se torne, de vez, anti-americano.

Os cinco "testes" económicos foram uma boa metodologia ou são um expediente político para atrasar, como em 1997, uma vez mais, a decisão?

Foram uma distracção que aumentou o peso do Tesouro e do Chanceler Gordon Brown dentro do Governo de Tony Blair e pretenderam ser uma metodologia economicamente objectiva para retirar a decisão do campo político. Os outros países europeus que queiram, agora ou no futuro, aderir à zona euro não devem imitar o exemplo britânico.

Que impacto económico e financeiro teria para a Europa a entrada do Reino Unido na zona euro?

Permitiria estabilizar melhor o câmbio do euro-dólar e transformaria a economia europeia numa entidade mais comparável com os Estados Unidos. E naturalmente fortaleceria, a longo prazo, o euro como divisa internacional de reserva.

"O Banco Central Europeu não deve deixar os Estados Unidos manipularem o câmbio do euro-dólar contra os interesses da Europa"

A posição inglesa poderá ser um sinal para outros países que ainda não aderiram ao euro como a Suécia ou a Dinamarca?

Se o Reino Unido entrar influenciará seguramente as opiniões públicas nesses dois países que já pertencem à União Europeia. Mas continuam a haver muitos receios nessas monarquias. Têm medo que a absorção das suas moedas nacionais seja mais a perca de um símbolo da sua identidade.

A actual desvalorização acelerada do dólar é um argumento adicional para um não inglês à entrada na zona euro?

Não é nem bom nem mau argumento. As oscilações na relação euro-dólar são um problema para todos na zona euro. Creio inclusive que um euro forte ajuda o Reino Unido a negociar uma taxa de câmbio mais baixa entre a libra e o euro. O Banco Central Europeu não deve deixar os Estados Unidos manipularem o câmbio do euro-dólar contra os interesses da Europa.

Sítio na web de Robert Mundell: www.robertmundell.net

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