A febre do ouro está de volta

(Fevereiro 2003)

O anúncio público da venda de 15 toneladas de ouro pelo Banco de Portugal em Janeiro trouxe o nosso país para a ribalta nos foros de debate sobre o mercado do ouro. A discussão "online" tem estado ao rubro e na Conferência de Vancouver realizada na última semana de Janeiro de 2003 no Canadá o tema serviu de ignição para a discussão do que se passou com este metal mítico nos últimos seis anos. O fecho desta primeira semana e meia de Fevereiro viu o ouro chegar perto dos 380 dólares por 100 onças troy, voltando a valores anteriores à "bolha" bolsista.

Jorge Nascimento Rodrigues com apoio de Bill Murphy do GATA e do World Gold Council, Fevereiro de 2003

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A venda das 15 toneladas de ouro português foi feita numa altura em que este metal está claramente a iniciar um ciclo altista. A primeira semana de Fevereiro de 2003 fechou com valores acima dos 370 dólares por 100 onças troy.

Alguns analistas projectam valores muito superiores a 400 dólares em 2003, depois do metal dourado ter penado entre 1998 e 2002 abaixo, em regra, do que os especialistas chamavam a "Linha Maginot" (de 290 dólares por 100 onças troy). O próximo patamar de "resistência" às pressões para a baixa está fixado, pelos analistas, numa faixa entre 410 e 420 dólares.

O ouro está no início de um mercado dominado pelo 'touro' e é agora o momento do investidor inteligente se posicionar

Bill Murphy, que esteve, nos últimos dias de Janeiro, na Vancouver Resource Investment Conference, no Canadá, e que é o líder do Gold Antitrust Action Committee (GATA), considera inclusive que o ciclo altista levará o ouro em 2004 a valores próximos dos ocorridos nos anos 80 - saltou de 110 dólares para 634 nos dois primeiros dias de Janeiro de 1980 e chegou a estar a 850 - e afirma que as acções das empresas ligadas ao sector vão entrar num período de valorização, em contra-ciclo com o descalabro geral das bolsas.

Robert Bishop, editor do Gold Mining Stock Report, afirmou também no evento no Canadá que «o ouro está no início de um mercado dominado pelo 'touro'» e que «é agora o momento do investidor inteligente se posicionar».

Sensível à geo-política

Ao mesmo tempo, as noticias na Índia, China, Japão e Coreia do Sul dão conta da corrida ao ouro físico por parte de fundos asiáticos, de especuladores individuais e de cidadãos comuns que acreditam que «o ouro é sensível à geo-política e aos 'crashs' bolsistas», comentam, com ironia, os analistas asiáticos. A "sensibilidade" do ouro é como um termómetro - quanto mais aquece a geo-política mais o ouro sobe de valor e se afirma como valor-refúgio.

O toque de Midas está a mobilizar os asiáticos e os detentores de petrodólares no Médio Oriente (que beneficiam do disparo dos preços do barril de petróleo). A China está a animar o recém-criado mercado do ouro em Xangai - aberto em finais de Outubro passado. Esta viragem psicológica é sustentada pelo facto de que os fundos de investimento no ouro subiram 62,22% em 2002 contra 20,25% da generalidade dos fundos de investimento, segundo o World Gold Council.

O raciocínio do asiático ou do árabe é simples: o ouro é um investimento de "refúgio" em período pós-"crash" e quando aumenta a turbulência política

Alguns analistas vão mais longe na comparação e afirmam que o ouro em 2002 foi o melhor investimento - cresceu 23% em termos de preço e superou o investimento em divisas como o dólar em 25%, o iene japonês em 14%, a libra em 13%, o euro em 9% e o próprio franco suíço em 7%. Em relação às aplicações bolsistas, o ouro sueprou o FTSE londrino em 52%, o Dow Jones novaiorquino em 47%, o Nikkei japonês em 44% e o índice europeu em 36%.

O raciocínio do asiático ou do árabe é simples: o ouro é um investimento de "refúgio" em período pós-"crash" e quando aumenta a turbulência política. A estratégia não é só motivada pelo "medo", mas por uma contabilidade terra-a-terra: comprar agora para segurar um activo que se vai valorizar; investir agora enquanto o preço ainda não está "louco"; vender quando se der «um pânico generalizado de compra», na definição técnica do que poderá suceder daqui a algum tempo.

Choque de Civilizações

Este optimismo dos amantes do ouro contrasta com os cenários do Barclays Capital e da Lehman Brothers que vaticinaram este primeira semana de Fevereiro que o ouro voltará em 2004 abaixo da "Linha Maginot", no caso, segundo estes analistas, aos 275 dólares.

Os cenários divulgados pela Reuters, com base numa "ronda" pelas casas de investimento, apontam para valores médios anuais em torno dos 340 dólares em 2003 e 2004. No entanto, as casas financeiras mais conhecidas (como o Barclays, a JPMorgan Securities, a Merrill Lynch Europe, a Mitsui, a Salomon Smith Barney) são profundamente "conservadoras" falando de cenários do ouro com valores entre 315 a 340 dólares. Apenas instituições como a UBS Warburg ou a Rothschild, entre as mais conhecidas, arriscam valores acima dos 350-360 dólares. Das casas ouvidas pela "sondagem" da Reuters, apenas a Sprott Securities aponta valores médios na ordem dos 400 dólares em 2003 e 2004.

Por isso, o que estamos a assistir é um verdadeiro choque de civilizações. A Ocidente defende-se o desembaraço do ouro argumentando ser um activo com baixa rentabilidade financeira numa óptica de longo prazo e porque deixou de desempenhar desde 1971 o papel de padrão do sistema monetário internacional acordado em Bretton Woods em 1944. A Oriente começou a febre cíclica do ouro. Não se trata, apenas, de um movimento sazonal, apesar dos casamentos de final de ano na Índia e do novo ano lunar na China de 1 a 7 de Fevereiro influenciarem esta febre. Refira-se que o consumo anual de ouro - em 90% dos casos aplicado na joalharia - é dominado pela Ásia em 43% e pelo Médio Oriente em 13%. A Índia vem à cabeça com 21%, seguido da China com 8% e do Japão com 3%.

A última herança da "bolha"

O retorno a valores do ouro próximos dos anteriores a Dezembro de 1996 era, desde há mais de dois anos, considerado "inevitável" por muitos analistas independentes, como então referimos na Janelanaweb.com e no semanário português Expresso em Junho de 2000.

A análise de Junho de 2000

O baixo preço do ouro - valores abaixo dos 290 dólares - era considerado como parte de um triângulo estratégico desenhado em particular por Robert Rubin, o ex-secretário de Estado do Tesouro de Bill Clinton, que beneficiaria do "boom" da Nova Economia: valorização do dólar (50% entre 1995 e 2001) como moeda forte mundial (afectando psicologicamente o próprio nascimento do euro), desvalorização ideológica e real do ouro e criação das condições para um disparo dos "derivados" financeiros.

A pirâmide de derivados chegou ao absurdo de ter quase tantas toneladas de ouro em derivados (puramente em papel financeiro) quanto toneladas em reservas oficiais (que andarão pelas 32 mil em finais de 2002)

A lógica foi rapidamente entendida pelos bancos de investimento e pelos operadores do mercado do ouro por grosso. Em seis anos, o total dos contratos em derivados com base no ouro triplicou em toneladas afectas - de 10 mil em 1995 para mais de 30 mil em 2001 - e duplicou em valor em dólares (de 150 mil milhões para 300 mil milhões). Esta pirâmide de derivados chegou ao absurdo de ter quase tantas toneladas de ouro em derivados (puramente em papel financeiro) quanto toneladas em reservas oficiais (que andarão pelas 32 mil em finais de 2002).

O cartel do ouro

O mecanismo de lucro funcionava do seguinte modo: os operadores pediam emprestado ouro aos bancos centrais a um preço baixo e a um juro de 1% ou menos ao ano ou trocavam "swaps" sobre o ouro por disponibilidades em dólares (então valorizados). Vendiam o ouro de seguida no mercado físico - para acabar em grande parte no pescoço das asiáticas ou nos coleccionadores - e com os ganhos investiam especulativamente na bolsa. Os bancos centrais ajudavam a manter o preço do ouro baixo através de vendas no mercado que é altamente deficitário face à procura - há um défice anual de cerca de 1500 toneladas.

Para alguns bancos centrais, as operações saldaram-se por vendas baratas de ouro, aquisição de dólares caros e juros cobrados insignificantes

O sistema ficou transparente, precocemente, quando, em 26 de Setembro de 1999, 15 bancos centrais europeus decidiram, pelo Acordo de Washington - Wahsginton Agreement on Gold (conhecido no calão do sector por "WAG"), limitar as vendas anuais a 400 toneladas até 2005. O valor do ouro subiu de imediato aos 300 dólares, mas a força da "bolha" foi mais forte e o ouro voltou abaixo da "Linha Maginot".

A situação tornou-se insustentável para o que Bill Murphy designa por "cartel do ouro" quando se deram os "crashes" bolsistas em 2000 e se verificou, ao longo de 2001 e 2002, que a alta das acções não regressaria.

Todo o esquema ficou definitivamente furado em 2002: os operadores para poderem "devolver" o ouro emprestado pelos bancos centrais ou trocado por dólares tinham agora de comprar o ouro mais caro no mercado (valorizou-se 24% entre Janeiro e Dezembro de 2002) e, em muitos casos, não o encontravam disponível, dada a escassez. Face a estas pressões da procura, o ouro recomeçou a sua subida. Para alguns bancos centrais, as operações saldaram-se por vendas baratas de ouro, aquisição de dólares caros e juros cobrados insignificantes.

Segundo dados do World Gold Councial, já foram vendidas, até à data, 1341 toneladas (nas quais se incluem recentemente as 15 toneladas portuguesas) por bancos europeus signatários do WAG e estima-se que até Setembro de 2003 ainda se venham a vender mais 283 (pela Suíça). O total anunciado em 1999 para os cinco anos de vigência do WAG foi de duas mil toneladas.

O principal país vendedor, desde Setembro de 1999, é a Suíça, que já totaliza 698 toneladas vendidas e estima vender em 2003 e 2004 mais cerca de 650 toneladas, perfazendo o objectivo de alienar um total de 1300 toneladas nos cinco anos de vigência do WAG. A Suíça é o 5º país do mundo com maiores reservas. Seguem-se nas vendas a partir de Setembro de 1999, o Reino Unido que já vendeu 345 toneladas e a Holanda que alienou 169. A Holanda deverá totalizar, no final deste acordo de cinco anos, 300 toneladas, sendo o terceiro maior vendedor na Europa. O quarto maior vendedor europeu é, até à data, a Áustria com 90 toneladas já vendidas. Bill Murphy, do GATA, considera esta estratégia dos bancos europeus «pura loucura».

Só 26% do ouro está em Portugal
A operação de venda no mercado internacional das 15 toneladas de ouro veio chamar à atenção da estrutura das reservas deste metal em Portugal. A operação de venda fora negociada em 1997 e 1998 como opções de venda de ouro com datas de exercício a partir do final de 2002. As reservas de ouro baixaram, assim, de 606,7 toneladas no final de 2002 para 591,8 no abrir de 2003. O ouro cativo em "swaps" representa 65% das reservas e o em depósitos à ordem e a prazo no estrangeiro 8%. O que significa que o ouro em barras existente no país é apenas 26% do contabilizado como reservas oficiais. Portugal está, ainda, em 8º lugar nos dez países do mundo com mais reservas oficiais, atrás do Japão e da Holanda, mas à frente de Espanha. As reservas portuguesas representam 2% das reservas de ouro mundiais.
Segundo o World Gold Councial, as reservas oficiais portuguesas seriam 37,6% das reservas externas, mas segundo fonte oficial do Banco de Portugal citada pelo EXPRESSO o peso seria de 47% das reservas líquidas externas ou de 33% se se incluir os euros no total. Essa percentagem é considerada "excessiva" no comunicado do Banco sobre a operação. Recorde-se que o valor na Alemanha é de 38,9%, na Holanda é de 47,3%, na França de 51,3% e na Itália de 50,2%, para citar parceiros comunitários.

Reservas oficiais em Novembro de 2002 - Top 8
(em toneladas) *
 Estados Unidos8149,0
 Alemanha3445,8
 França3024,6
 Itália2451,8
 Suíça1957,2
 Holanda873,6
 Japão765,2
 Portugal606,8  (antes da venda das 15 toneladas) 
 Total mundial   32345,0
  Fonte: World Gold Council, www.gold.org
  Nota: * Só países, exclui FMI e Banco Central Europeu

LISTA DE SÍTIOS NA WEB DE REFERÊNCIA
 www.theminingweb.com | www.gold-eagle.com | www.kitco.com 
www.usagold.com | www.GoldSeek.com | www.goldenbar.com
www.thebulliondesk.com | www.sharelynx.net | www.jsmineset.com
www.mininglife.com | www.financialsense.com
www.goldensextant.com | www.goldmoney.com
www.depression2.tv | www.buycoin.com | www.gold.org
Por subscrição:
www.zealllc.com | www.dowtheoryletters.com
www.lemetropolecafe.com

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