Capital de Risco (Mira-se) ao Espelho

Cimeira dos investidores de risco com empreendedores
da Nova Economia reúne-se em Lisboa (em Abril de 2000)
numa organização da revista Ideias & Negócios

Jorge Nascimento Rodrigues em mais uma reportagem (sectorial) do Portugal que mexe

 POLÉMICA: TER OU NÃO TER UM NOVO MERCADO EM LISBOA 

Depois da viragem de atitude cultural e de posicionamento estratégico em meados de 1999 face ao tornado da Economia Digital, assinalada pela Janela na Web, uma grande parte da nata do Capital de Risco português veio, esta semana (18 Abril de 2000), pentear-se ao espelho face a uma plateia de empreendedores e de alguns candidatos anónimos com boas ideias.

A imagem que ficou é a de uma alteração profunda do mosaico de protagonistas com dinheiro para aplicar e, por outro lado, de uma atitude mais selectiva por parte dos empreendedores da nova vaga.

O «workshop» sobre o potencial papel deste tipo de capital no financiamento da Nova Economia reuniu cerca de uma centena de pessoas num hotel da capital numa organização de Diogo de Vasconcelos e da revista que lidera, a Ideias & Negócios.

Sinal dos tempos, Mário Valente, cabelos compridos e casaco de cabedal, fundador da Esoterica, e hoje líder da Ruído Visual, riu-se de em 1993 ter andado a pedir por favor uns trocos na banca comercial e de hoje deixar como conselho aos empreendedores que vêem os capitalistas de risco a assediá-los: «Seleccionem, seleccionem, seleccionem» - como que a sugerir não escolham gato por lebre, vejam bem o parceiro com que vão dar o nó.

Novos protagonistas dão a cara

Não faltou inclusive a Comissão Europeia para nos presentear com uma chuva de medidas na calha e novos protagonistas fizeram a sua estreia no palco nacional.

A 3i PLC, a mais antiga capital de risco britânica e a de maior projecção europeia, anunciou, neste evento, a abertura de um escritório em Lisboa até final do ano. Por outro lado, apresentou-se a primeira capital de risco independente portuguesa, a Change Partners, liderada por Mário Pinto, que, mesmo em férias, tem andado a amealhar uns milhões para aplicação futura e tem como outros «partners» fundadores o próprio líder da Ideias & Negócios e Paulo Teixeira Ribeiro, que sairá do BPI em breve.

Na plateia, sem casaco nem gravata, a Sonae.com anunciou pela boca de Manuel de Freitas a entrada em cena dos grupos nacionais no negócio da «captura» das jovens 'start ups' - as «gazelas», segundo a linguagem comunitária, aqui trazida por Patrick Corsi, ou os «ratinhos» nas palavras de Maite Ballester, da 3i. Em linguagem anglo-saxónica, esses tubarões.com dão pelo nome de «corporate investors». Recorde-se que a Sonae.com comprou, há algum tempo, 49% da Prodígio, uns rapazes que até andam descalços e têm uma sala de jogos na empresa para combater o «stress», e mais recentemente a Sidra Multimédia, uma das empresas típicas da nova paisagem «digital» de Braga.

Os próprios investidores individuais «informais», que o mercado baptizou «business angels», começaram a dar um ar de sua graça, e já chegou a hora de mostrarem a cara, como é o caso de Salvador da Cunha, presente neste «workshop», que tendo realizado alguma liquidez num bom projecto de que foi fundador - o da Mediafin - procura, agora, apoiar outras boas ideias e 'start ups'.

«Portugal é ainda um mercado subdesenvolvido em matéria de 'venture', mas houve uma viragem em 1999 e tornou-se apetecível. O próprio vírus do 'despeça-se já' do seu 'velho' emprego está a alastrar. À disponibilidade de dinheiro juntou-se uma mudança de cultura e a erupção de empreendedorismo. E há inclusive empresas desta nova vaga lusa que se estão a transformar em modelos», afirmou Diogo de Vasconcelos, certamente a pensar no caso da Altitude Software (ex-Easyphone), o mais badalado internacionalmente, e da Nova Base.

Carlos Quintas e Rogério Carapuça, os líderes respectivos, vieram a este «workshop» falar dos preparativos para ida aos mercados de capitais, apesar da grande volatilidade actual. A correcção que se desenha, até pode ser benéfica, pois «separará o trigo do joio», disse Carapuça. E ficou um aviso: a vara vai guinar nas apreciações das «dot.com», «pois já não vai bastar o potencial de crescimento, os lucros futuros vão passar a ser essenciais», rematou Quintas.

Mas o clima é tórrido. Para as jovens 'gazelas', e fazendo fé nas palavras de Rosário Cação, da Prodígio, «até há gente que está a largar bons 'velhos' empregos para vir para projectos como o nosso».

Com 26 milhões de contos estimados para o fecho de 99, espera-se que o capital de risco português dispare este ano para não deixar fugir esta janela de oportunidade, enquanto as «ofertas iniciais de venda» - os tais IPO, na designação americana, que agora se tornou 'chique' - ainda são atractivas.

Fórmulas complicadas e «química»

Mas uma coisa ficou clara - as capitais de risco não são para dar de bíberão às boas ideias. «As instituições de capital de risco devem entrar numa determinada fase em que já é necessário um certo volume de capital. Para a fase inicial, para os pequenos investimentos, a intervenção deve ser dos 'business angels'», sublinhou Mário Pinto, que, no entanto, lamentou que não haja ainda, no nosso país, «operadores profissionalizados no capital de risco, que, como tudo o que é português, é um bocado amador».

Mas o que possa haver em «amadorismo», sobra em fórmulas e critérios de avaliação manuseados pelos homens do 'venture'. José Carlos Gama, um professor da Universidade Católica Portuguesa, especialista na matéria, projectou umas fórmulas matemáticas, aparentemente de assustar qualquer 'gazela'. Mas, por detrás, de toda esta parafernália de critérios está um problema de senso comum, que é saber como avaliar o 'intangível', o «goodwill', o efeito de marketing e de moda a que está associada a actual vaga de «dot.com».

Para Fernando da Costa Lima, director do BPI para esta área, «o cash continua a ser rei e sempre o será», tanto na 'velha' como na 'nova' economias. Mesmo que se devam juntar critérios complementares, como a cenarização, ou a simulação mais sofisticada, ou o «benchmarking» com o que existe similar no mercado, no final, o que resta como método seguro, é o tal «cash» futuro que o negócio gerará, o que exige algum exercício no 'business plan'. Costa Lima aceita que é um pouco como «pegar na bola de cristal» numa nova economia que se movimenta à velocidade de «anos caninos» (cada ano vale por 6 ou 7). O que provocou uma saudável risada de Mário Valente: «Já não há mais paciência para os 'business plans'. Acho imensa graça a eles, quando ninguém sabe o que vai acontecer daqui a seis meses!».

É, de facto, um problema bicudo, frisou Mário Pinto, para quem «na nova economia há um valor substantivo do conjunto da empresa». «Partir aos bocados uma empresa destas não faz qualquer sentido - ficará zero ou negativo», concluiu com algum humor. Por seu lado, Mário Bolota, director da área no Banco de Investimento Global, aceita que «no final, o que conta é o 'cash' a gerar», mas acentuou a ideia de que «estamos numa economia de transição», em que é necessário criar novos métodos de avaliação das 'start ups' em que é indispensável um radar atento sobre os modelos de negócio emergentes.

Uma coisa é certa - as negociações com as capitais de risco não são um passeio de jardim e catalisam muita energia, como referiu Pedro Piçarra, da Biotecnol, que as andou a percorrer, no ano passado, com um portátil na mão, falando de uma «coisa» do futuro...antes da actual vaga mediática da genómica. «Acabou por funcionar a 'química', a empatia, e o valor acrescentado que o parceiro pode trazer ao negócio», resumiu como principal conselho.

TER OU NÃO TER
O «workshop» resolveu trazer a terreiro a possível criação de um novo mercado em Portugal, à semelhança do que já existe noutros países europeus, e como recentemente aconteceu em Espanha. Luís Rodrigues, da Bolsa de Valores de Lisboa e Porto (BVLP), veio dar algumas - parcas - informações sobre o lançamento previsto do Novo Mercado de Lisboa, mas ficou a interrogação, de vários presentes, sobre se alguma vez ele terá massa crítica.
Apesar da pintura animadora feita por Hans Leufkens, responsável da rede europeia de novos mercados que dá pela sigla de EURO.NM, com uma capitalização global de 255 mil milhões de euros, os novos mercados estão fragmentados por país e, apesar da euforia actual em torno das «dot.com europeias, está muito longe da capitalização americana do NASDAQ.
Para obstar a esta fragmentação, três dos actuais novos mercados nacionais - o de Paris, o de Amsterdão e o de Bruxelas - vão unir esforços e juntar os trapinhos. A prazo, especula-se se o novo mercado europeu continental - o mercado alternativo inglês, o AIM, ligado ao London Stock Exchange, é outra história - não tenderá para a fusão dos seus pares.
A questão do novo mercado lisboeta ficou, por isso, mais polémica. Para Mário Pinto, da Change Partners, o seu papel está como que «ensandwichado» entre algumas empresas de alto crescimento portuguesas que apostam numa estratégia de cotação em mercados internacionais - como é o caso da Altitude Software, que, segundo os rumores, lançará o seu IPO na Bolsa de Amsterdão até final de Maio - e outras, como a Nova Base, que irão directamente para a Bolsa de Valores de Lisboa e Porto.
Luís Rodrigues retorquiu que «o novo mercado de Bruxelas começou com duas empresas», e que, por isso, não está preocupado. Alguém comentou, na plateia: «Era outra época». No entanto, alguns empreendedores e «business angels» consideram que faz falta um mercado onde muitas das 'start ups' portuguesas - sem capacidade para voos mais globais ou para entrar na Bolsa tradicional - encontrem uma forma de fazer o seu IPO e valorizar o capital metido pelos investidores, fundadores e pelos empregados, a quem se acena agora com as famosas «opções de acções» («stock options», na gíria da gestão).
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