Dinheiro barato é insustentável...por muito
mais tempo

Um alerta no 1º semestre de 2003

Na expectativa da reunião de 6 de Maio (2003) da Reserva Federal norte-americana, correm rumores de mais um corte na já baixa taxa de juros de referência dos fundos federais norte-americanos, actualmente nos 1,25%, que não tem sido mexida desde Novembro do ano passado. No entanto, são cada vez mais os analistas que alertam que os EUA não podem trilhar o caminho do Japão até taxas de juro negativas em termos reais, próximas de zero em termos nominais. O mais recente relatório do IFO alemão fala de uma viragem para o aumento das taxas de juro nos próximos seis meses de 2003 na América do Norte.
Tome Nota: 213 mil milhões/bilhões de dólares investidos por estrangeiros "fugiram" dos Estados Unidos em 2002.

Jorge Nascimento Rodrigues, Abril 2003

The World Economic Survey pelo IFO- Institute for Economic Research,
Munich, Germany

Global Economics Weekly da Goldman Sachs
Relatório de 14 de Março 2003 do Bureau of Economic Analysis - US Dept.
of Commerce

O clima de preparação da operação do Iraque ofuscou completamente um relatório de 14 de Março (2003) do Bureau de Análise Económica do Departamento de Comércio dos Estados Unidos divulgado em Março passado. No meio de muitos números, revelava-se este facto preocupante - os investidores estrangeiros retiraram ao longo de 2002 mais de 213 mil milhões (bilhões) de dólares de activos dos EUA. Esta "fuga" de capitais é sintoma da grande fragilidade actual da economia americana, que depende da captação de capital de todo o mundo como de pão para a boca. O investimento directo estrangeiro nos EUA "caiu" 100 mil milhões (bilhões) de dólares em relação a 2001 e a posse de acções americanas por estrangeiros 123 mil milhões (bilhões) em relação ao ano anterior.

Assistimos ao progressivo desinteresse pelo mercado financeiro americano por parte dos investidores estrangeiros que procuram, desde então, aplicações com taxas de juro ou de rendimento mais elevadas noutras moedas, noutras opções financeiras e noutras paragens

O rebentar da "bolha" bolsista em 2000 e a estratégia sucessiva de cortes nas taxas de juro de referência pela Reserva Federal norte-americana (FED) - só em 2001 procedeu a 11 cortes, baixando de 6,5% para 1,75% - conduziram ao progressivo desinteresse pelo mercado financeiro americano por parte dos investidores estrangeiros que procuram, desde então, aplicações com taxas de juro ou de rendimento mais elevadas noutras moedas, noutras opções financeiras e noutras paragens (ver quadros).

Em Novembro de 2002, o FED acabou por fazer mais um corte e situar a taxa de referência nos 1,25%, mas no primeiro trimestre de 2003 resistiu às pressões para continuar no "modelo japonês" de embaratecer o dinheiro até ao limite (próximo de zero) na esperança (sempre infundada) de que investidores e famílias voltem ao clima optimista de investimento empresarial e pessoal. Não só a taxa de juro dos fundos federais - que funcionam como taxa interbancária de referência - tem baixado abruptamente desde 2000, como também a "prime rate" a 3 anos (taxa que é aplicada aos melhores clientes bancários) caiu de 9,5% em Janeiro de 2001 para 4,25% este mês.

Com o aproximar da reunião do FED a 6 de Maio (2003), as pressões voltam a sentir-se na lógica do dinheiro barato à japonesa. Os "lobistas" argumentam que a taxa de juro tem de ser manipulada politicamente até às eleições presidenciais norte-americanas de Novembro de 2004 e até que as bolsas batam no fundo e possam mudar de sinal.

Contudo, a economia nem sempre está alinhada pelos desejos políticos. Os Estados Unidos acumulam um conjunto de problemas estruturais que se têm avolumado com a actual Administração. A dívida pública do país chegou aos 6,5 biliões (trilhões, na designação anglo-saxónica e brasileira) de dólares este mês, depois de ter fechado com 6,2 biliões (trilhões) em 2002. Em 15 anos, esta dívida quase triplicou desde o "mini-crash" de 1987 e foi "financiada" pela "bolha" da Nova Economia e pela atracção da valorização da nota verde.

Uma fase que terminou

O problema actual é que esses mecanismos deixaram de funcionar - as bolsas provavelmente só regressarão a um optimismo moderado em 2005 e mesmo a guerra rápida do Iraque não quebrou o euro, pelo contrário este continuou a valorizar-se face ao dólar (de 1,064 dólares em 18/3 para 1,087 no princípio desta penúltima semana de Abril de 2003).

A única forma de cobrir o "buraco" federal é voltar a uma política activa de captação de capitais estrangeiros. E esta, na ausência da especulação bolsista, terá de vir de um aumento das taxas de juro e de rendimento ("yelds") que sejam atractivas para o investidor e aforrador.

Acresce que o orçamento federal mudou de sinal, passou de um superavit na era Clinton para défices crónicos com a Administração Bush que poderão implicar numa década um défice acumulado de 4,2 biliões (trilhões), segundo a Goldman Sachs, que salienta, no seu último relatório de Março, que a única forma de cobrir este "buraco" é voltar a uma política activa de captação de capitais estrangeiros. E esta, na ausência da especulação bolsista, terá de vir de um aumento das taxas de juro e de rendimento ("yelds") que sejam atractivas para o investidor e aforrador.

A Goldman Sachs estima um aumento de 30 pontos de base nas taxas de juro de referência e de 40 pontos base, por exemplo, nas obrigações a 10 anos. Um estudo do The Brookings Institution vai mais longe - fala de 100 a 200 pontos base de aumento em virtude da dinâmica de défice da Administração Bush.

Finalmente, o relatório de Março de 2003 do IFO- Instituto de Pesquisa Económica alemão (CES ifo - volume 2, no 1) refere explicitamente que a fase de queda das taxas de juro de curto prazo nos Estados Unidos, Canadá e Austrália deverá ter terminado, e que se irá assistir lentamente a uma inversão de marcha nos próximos seis meses. O mesmo vatícinio é sugerido para as taxas de juro de longo prazo no casos dos mesmos três países. O efeito "dominó" desta viragem alterará significativamente o ambiente económico.

Quadros

Queda das Taxas de Juro (%) a 1 semana
nos principais países OCDE
 País Janeiro 2001  Abril 2002  Abril 2003 
 EUA6,671,781,28
 Japão20,030,02
 Europa4,673,292,58
 Reino Unido 5,753,753,50
  Fonte: www.thefinancials.com

Obrigações EUA - subida do "yeld"
 PeríodoTaxa de rendimento (yeld, %) 
 200221/03/2003
 2 anos1,571,66
 5 anos2,732,95
 10 anos3,823,98
 30 anos4,784,89
  Fonte: http://bonds.yahoo.com;
  http://money.cnn.com/markets/bondcenter/

 A queda da Prime Rate do FED 
(3 anos)
  Mês/AnoTaxa (%)
  Janeiro 20008,5
  Janeiro 20019,5
  Dezembro 20015
  Abril 20024,75
  Abril 20034,25
   Fonte: www.thefinancials.com
Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal