Capital de Risco na Viragem

Uma investigação de Jorge Nascimento Rodrigues à situação em Portugal em 1999

Uma ronda por oito capitais de risco e vários empreendedores que a ele recorreram para uma primeira tomada de pulso ao sector que dá sinais de uma reviravolta. Para trás parece ter ficado definitivamente a época da fama de 'hospital de empresas' e de instrumento político para 'saneamentos financeiros'

Directório de contactos sobre Capital de Risco
Capital de Risco: Mitos & Factos | O surgimento dos casamenteiros
O que dizem os nossos jovens 'business angels'
Jovem português premiado em Berkeley cria empresa com capital de risco Estatísticas de referência portuguesas (1998-1999)

Dê-nos o seu feedback Se é um empreendedor e recorreu ao capital de risco, ou um 'business angel', ou trabalha numa capital de risco, envie-nos os seus comentários. Se não o é, mas quer comentar - faça-o à mesma.

A concretizarem-se as expectativas de entradas de capital de risco nos projectos que estarão em discussão até final do ano, este sector poderá atingir 20 milhões de contos de aplicações este ano, o que mais do que duplica em relação à soma do ano passado.

Este crescimento é sintoma de uma viragem no panorama do que, entre nós, se convencionou chamar de capital de risco, e que nos países anglo-saxónicos se designa por 'venture capital', um nome que, é pena, não ter tido a sorte de uma tradução mais feliz, lamentam alguns dos responsáveis das capitais de risco privadas.

Para este clima de mudança contribuiu uma reformulação radical da estratégia das capitais de risco ligadas ao Estado, bem como a «agressividade» dos bancos privados que se decidiram por um «ataque» à área, que, nalguns casos, data de há poucos meses.

Em paralelo, surgiram os primeiros privados interessados em servir de ponte entre os financeiros e os empreendedores ('Os casamenteiros') e despontam à superfície os primeiros 'business angels', investidores privados que andam à «caça» de bons projectos para investir dinheiro e conhecimento ('O que dizem os jovens business angels').

O interesse tem subido de tom a ponto de já ter provocado, pelo menos, a realização de duas teses de mestrado, uma da autoria de Sónia Bentes e outra de Francisco Banha, cujas conclusões pudemos consultar.

Sónia Bentes ainda recentemente apresentou em co-autoria um «paper» ao 29º Seminário Europeu das Pequenas Empresas que decorreu em Portugal este ano de 1999, que se baseiou na sua tese de mestrado realizada em 1997 no ISCTE. O artigo, intitulado 'Rebirth of the Portuguese venture capital industry' foi premiado como o melhor artigo científico apresentado neste evento organizado pela efmd, a European Foundation for Management Development.

Francisco Banha adaptou a sua tese defendida em 1998 no ISEG para publicação em livro, intitulado Capital de Risco - O Impacto da Fiscalidade.

Entrada com o pé esquerdo

O ambiente nem sempre foi este. «O capital de risco, aliás, entrou com o pé esquerdo nos anos 80 em Portugal», refere-nos Carlos Rodrigues, o fundador do jovem Banco de Investimentos Global (BIG).

Foi a época em que o sector sofreu de três doenças: ou servia de ferramenta política, ou era apenas um canal de escoamento de liquidez financeira para aproveitamento de benefícios fiscais, ou limitava-se a servir de financiamento bancário encapotado sem trazer qualquer valor acrescentado às empresas contempladas.

Essa época está definitivamente encerrada. «A fase de hospital de empresas e de mecanismo de saneamento financeiro passou», afirmam, em concordância, Rui Soares, líder da IPE Capital e também actual presidente da Associação Portuguesa de Capital de Risco (APCRI), e José Carrilho, presidente da PME Investimentos, ex-SULPEDIP, duas instituições ligadas à intervenção do Estado.

Contudo, os números ainda levarão algum tempo a reflectir o crescimento do mercado privado de capitais de risco. A maior fatia no financiamento era, ainda, em 1998 assegurada pelos investidores públicos, que detinham 23%, em contraste flagrante com o que se passa, por exemplo, no Reino Unido, onde este tipo de investidores é responsável apenas por 7% dos fundos aplicados. Neste país, a dianteira é tomada pelos Fundos de Pensões e pela Banca e entidades como os investidores académicos (ligados às universidades) e os seguros têm um grande dinamismo nesta área.

 Veja as estatísticas de referência 

Anomalias lusas
  • O capital de risco em MBO e MBI é 10 vezes (!) inferior em Portugal em relação à Europa, em termos de distribuição percentual
  • A fatia percentual que cabe na Europa ao investimento em 'start-up' e 'early stage' é quase o dobro da portuguesa
  • Os investidores públicos dominam a oferta de capital de risco em Portugal, enquanto que na Europa estão em quinto lugar na tabela
  • O regime fiscal aplicável ao sector é desvantajoso, mesmo em relação ao vizinho espanhol
  • Pouco mais de ½ dos fundos disponíveis são efectivamente aplicados em projectos e continua a haver uma contradição entre a «boa vontade» das capitais de risco e a desconfiança crítica de muitos candidatos
  • Tendências em alta
  • As aplicações em 1999 (estimativa de 20 milhões de contos) serão provavelmente o dobro das de 1998 (9,5 milhões)
  • As capitais de risco de origem pública reformularam radicalmente a sua estratégia e a maioria dos bancos privados já se lançou «agressivamente» neste novo mercado
  • Nascem os primeiros «casamenteiros» profissionais
  • Surgem, ainda na semi-clandestinidade, os primeiros 'business angels'
  • A Bolsa nacional poderá replicar o caso Para Rede, a primeira empresa da nova economia a ser cotada com sucesso, e as primeiras empresas portuguesas em nichos de expressão mundial poderão cotar-se no NASDAQ ou noutros mercados europeus a partir de 2000
  • Alguns ventos têm soprado a favor da maior atenção a este tipo de aplicação de capitais. Na ressaca da fase final das privatizações, é «natural que os investidores começem a olhar com outros olhos para formas não tradicionais de investir», refere Mário Bolota, director coordenador da área na BIG, que adianta que «agora se começa a procurar valor e este está em novas oportunidades e em novo tipo de empresas».

    Na ressaca bolsista

    Pode ser mesmo que se crie uma «moda» e que a Bolsa portuguesa se mostre definitivamente «mais sensível a conceitos como o da Para Rede, que se revelaram um êxito», adianta João Salvado, presidente do Conselho de Administração do Totta & Sotto Mayor Capital. O rumor de que a PT Multimedia poderá ser o próximo caso na Bolsa portuguesa acarretaria um mecanismo de réplica para outros casos de empresas da nova economia.

    Aliás, é para este vasto novo tecido empresarial que a maioria das capitais de risco está agora a virar os olhos. Algumas delas pretendem mesmo focalizar-se nesta área que tanto abrange as novas tecnologias ou a economia digital, como a saúde/medicina, a energia, o ambiente, os media e o entretenimento, o franchising, os novos negócios do turismo e novos conceitos do imobiliário e as marcas de consumo com potencial de crescimento. Há um copo enorme para encher, já que, em 1998, as novas áreas apenas mobilizaram 10% do capital de risco aplicado.

    A AITEC já afirmou explicitamente o seu interesse em apoiar empreendedores entre 25 e 45 anos mais ligados à economia digital e conhece-se o seu palmarés neste campo (de que a mais recente venda da IP Global à Sonae é exemplo). O BPI-Private Equity procura «coleccionar» casos emblemáticos no novo tecido empresarial com destaque para a sua participação na Easyphone/Altitude Software, na Para Rede, na Intersis ou na Boxer Shorts, refere-nos Pedro Pinheiro. A PME Capital (ex-NORPEDIP) pretende «privilegiar as chamadas novas empresas de base tecnológica com elevado potencial de crescimento e equipas de promotores empreendedores», sublinha Miguel Henriques, responsável da instituição. Finalmente, a IPE Capital estuda a concretização de um Fundo de risco denominado Capital Tecnologia, onde pensa envolver grandes grupos portugueses e instituições da área das tecnologias da informação como o Netie (Núcleo Empresarial para as Tecnologias de Informação e Electrónica). Esta capital de risco envolveu-se recentemente com a BIG no projecto encabeçado pela Teleweb.

    Anomalias a vencer

    O caminho, contudo, tem ainda alguns escolhos. Os capitalistas de risco acusam unanimemente o regime fiscal. «O poder ao emendar a mão em relação à fase inicial, colocou as sociedades de capital de risco em desvantagem total em relação às sociedades de gestão de participações sociais», afirma Francisco Banha, fazendo eco dessa opinião na sua tese de mestrado que se centrou precisamente neste problema. «Até em Espanha, uma lei de Janeiro deste ano colocou em vigor uma taxa aplicável às sociedades de capital de risco que fica a anos luz da nossa - 1% em Espanha contra 37,4% entre nós», refere Banha em Capital de Risco-Tempos de Mudança, o livro que tem no prelo.

    Mas «falta também um mercado dinâmico de fusões e aquisições que possa favorecer o interesse pelas empresas de alto potencial», adverte Carlos Rodrigues, da BIG. «A evolução dos mercados de capitais para estas empresas de alto potencial nos próximos três anos é fulcral», conclui Pedro Ferreira Pinto, responsável pela área no Banco Mello de Investimentos.

    Contudo, há quem ache que o empresariado português não está maduro para o capital de risco. «Muitos querem capital para queimar e não aceitam a partilha de capital social e o apoio na gestão», reclama José Carrilho, da PME Investimentos. Ao que Justino Lucas, o líder da D'Assenta, considerada a número um em qualidade de fabrico de camisas de marca, responde, apelando aos seus colegas: «Não se justifica o receio dos empresários. Eles têm medo que os homens do capital de risco venham estragar as empresas. Mas isso não faz sentido». Justino Lucas deu-se bem com os 100 mil contos injectados pela PME Investimentos e pela ES Capital e programa vir a atingir a meta do milhão de facturação nos próximos anos. O dinheiro veio folgar-lhe as costas mas ele continua «a fazer uma gestão apertada do dinheiro», para quem não se esquece dos juros de mais de 40% que a dada altura teve de pagar à banca.

    O pêlo do cão

    Ora é o modelo tradicional português de financiamento das empresas que é inaceitável para quem queira agarrar as janelas de oportunidade no tempo certo. «Há um limite para crescer na base do pêlo do cão, quer através do financiamento bancário como do reinvestimento das mais valias», sublinha-nos Carlos Quintas, o líder da Easyphone/Altitude Software, que se transformou num 'case study' ao atrair, primeiro, capitais de risco americanos, e mais recentemente holandeses. No sector do 'hi-tech' onde ela está, o modelo português não funciona: «A falta de capital de risco leva a que boas empresas até com produtos promissores se desfocalizem e tendam a tornar-se empresas de serviço sem qualquer hipótese depois na internacionalização no seu nicho».

    A Easyphone será provavelmente a primeira empresa portuguesa a cotar-se no próximo ano no tão falado NASDAQ norte-americano, onde fazem fortunas as 'estrelas' da Web e da Internet hoje em dia. «Mas, nem todas as empresas podem seguir este modelo», adianta Carlos Quintas. Para outras, cujo objectivo é o mercado local ou a internacionalização de proximidade (na Península Ibérica) ou na base da língua (Brasil e Moçambique, por exemplo), o capital de risco português oferece-se com entusiasmo. Os próprios desinvestimentos posteriores dessas capitais de risco poderão ser feitos na Bolsa portuguesa.

    Para algumas pequenas empresas este será, aliás, o único chapéu. «As capitais de risco estrangeiras que por aí andam só vão investir em empresas maduras e que estejam numa fase de pré-ida à Bolsa americana ou candidatas a MBO e MBI», refere Pedro Piçarra, 33 anos, fundador da Biotecnol (como o próprio nome indica no sector da biotecnologia), que está a fechar um financiamento com entidades portuguesas. Uma capital de risco como a 3i PLC inglesa só procura projectos em que invista no mínimo 1,5 milhões de contos, olhando para o topo do segmento.

    O problema ao recorrer-se ao capital de risco português, comenta João Carreira, 31 anos, líder da Critical Software, em Coimbra, «não é a soma de dinheiro, mas a falta de capacidade para serem parceiros de gestão adequados em negócios deste tipo em que o que se discute não é ter 90% de um negócio paroquial, mas 10% de um negócio global, onde é preciso perceber as tendências e 'nuances'».

    O mercado de capitais europeu é, também, uma hipótese a estudar, de acordo com o sector de actividade, aguardando-se o desenvolvimento dos 'Novos Mercados'.

    Outra saída pode ser uma venda interessante a um dos grandes jogadores do sector em causa. Parece estar, nesse caso, a Intersis, dirigida por José Amaral de Freitas, 41 anos, que colocou a empresa num nicho internacional de alta tecnologia com apoio de capitais de risco nacionais. «A ida ao NASDAQ ou aos Novos Mercados Europeus ainda nos daria um compasso de espera de uns 2 a 4 anos, e isso nestas áreas é uma eternidade», conclui, com ironia.

    10 'dicas' para o candidato (que é você)
  • Elabore o 'dossier' o mais completo possível
  • Mas...resuma o essencial numa folha de A4 (é esta que vai ser lida atentamente)
  • Avalie o investimento que precisa a 5 anos... e multiplique por 2 ou 3 (é um factor de correcção atendendo aos imprevistos)
  • Saiba escolher a instituição de capital de risco que mais se adequa ao seu sector e à fase em que está o seu negócio
  • Regra de ouro: é preferível um investidor que traga menos dinheiro mas mais valor acrescentado
  • Aplique os 4 «m» (em inglês): 'magic'(explique com entusiasmo a ideia); management (convença que tem uma equipa); 'market' (clarifique a quota de mercado que quer atingir); 'money' (defina um bom retorno e empenhe-se financeiramente)
  • Elabore um acordo para-social ganhador para ambas as partes
  • Se for preciso use a figura das acções preferenciais ou privilegiadas, com vantagens em relação às acções ordinárias
  • Quando obtiver o dinheiro continue e fazer uma gestão apertada - não esbanje
  • Não tenha receio dos capitalistas de risco - eles não querem estragar-lhe o negócio, querem é ganhar com ele
  • Fontes:
    José Amaral de Freitas (Intersis), Justino Lucas (D'Assenta) e Francisco Banha (Gesventure)

    Referências:

  • APCRI - na Web em www.apcri.pt
  • Manual de Capital de Risco, editado pela revista Ideias & Negócios - na Web em www.ideiasenegocios.pt
  • Gesventure - na Web em www.gesventure.pt
  • Venture Capital Resource Library - na Web em www.vfinance.com
  • Página Anterior
    Canal Temático
    Topo da Página
    Página Principal