«Bush é bom para o ouro!»

diz Graham Birch, analista da Merrill Lynch Investment Managers

TOME NOTA
A manter-se a política da Administração norte-americana, o mercado das "commodities" de metais e minerais continuará em ebulição face à volatilidade da sua política externa e ao dólar fraco. Esta instabilidade geo-política recebe, também, uma ajuda preciosa da geo-economia - o "factor China" é uma tendência de médio e longo prazo que afecta o mundo da mineração. Por isso, as empresas ligadas a estes sectores baseados em recursos naturais estratégicos serão óptimas oportunidades de investimento, afirma Graham Birch, um geólogo inglês, considerado o "guru" da Merrill Lynch para os Fundos baseados no ouro, petróleo, gás, ferro e energias alternativas.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, Novembro 2004

Entrevista integral com Graham Birch
Sítio na Web da Divisão liderada por Graham

PREVISÕES
  • Ouro a 450 dólares a onça no final do ano; 500 dólares em final de 2005
  • China vai importar 400 toneladas de ouro proximamente, com o disparo da procura interna
  • Preço do barril de crude não poderá descer muito. Oferta não tem flexibilidade
  • Agitação bolsista altista e de "takeovers" de empresas de média dimensão no sector das petrolíferas. Oportunidades de aquisições na Rússia e Canadá
  • Custo da produção de energia por vias alternativas começa a ser competitivo
  • Novas tecnologias, como as pilhas de combustível e os supercondutores, poderão ter impacto nas energias alternativas
  • A maioria dos minerais e metais vão continuar a ver os seus preços escalar - particularmente o ouro que poderá chegar aos 500 dólares a onça no final do próximo ano, reforçando o seu papel cíclico de "último recurso". O que é uma boa notícia para o mercado desta "commodity" e para as empresas de mineração que verão o interesse dos investidores redobrar. «Bush é bom para o ouro. A continuar a sua política, teremos um dólar fraco e um mundo instável. O que aumentará o interesse pelo ouro como activo de refúgio», afirmou-nos Graham Birch, um doutorado em geologia que gere, a partir de Londres, 7 mil milhões de Fundos de Investimento em Recursos Naturais da Merrill Lynch Investment Managers, uma unidade independente de gestão de activos da Merrill Lynch.

    «A dinâmica histórica tem sido o aumento de um dólar por semana no preço do ouro, nos últimos dois anos. Esta tendência poderá significar a onça a 450 dólares no final deste anos», precisa. Além da instabilidade geo-política, há um novo factor estrutural, frisa o nosso interlocutor: «Não vamos conseguir extrair ouro suficiente das minas face à procura crescente. A oferta de ouro continua a diminuir, com novos cortes na África do Sul já este ano. O factor China entra aqui em força. Os analistas prevêem que a procura cresça, em poucos anos, das 200 toneladas actuais - praticamente satisfeita pela produção chinesa interna - para as 600, com o crescimento do poder de compra naquele país. Isto vai significar um aumento significativo da importação. Pouca gente se dá conta deste facto».

    O factor China

    A China é, aliás, o tema central de toda esta agitação nos mercados de "commodities" de metais e minerais, sublinha a análise deste grupo de Recursos Naturais da Merrill Lynch. O "Império do Meio" já foi responsável, este ano, pela organização de duas grandes visitas ao terreno por parte da equipa de Birch.

    A janela de oportunidades naquele país emergente está em plena ebulição. «Estamos a seguir com muita atenção a estratégia global da China. Ela está a tentar evitar seguir o mesmo caminho dos Estados Unidos no capítulo da dependência energética nas importações. As alianças estratégicas da China com o Brasil, Venezuela e Irão, no campo do petróleo, são um exemplo. Ela tem liquidez suficiente para se pôr a comprar activos estratégicos», sublinha o geólogo inglês. Um dos exemplos é a iniciativa da China Minmetals em adquirir a Noranda canadiana.

    «Estamos a seguir com muita atenção a estratégia global da China. Ela está a tentar evitar seguir o mesmo caminho dos Estados Unidos no capítulo da dependência energética nas importações. As alianças estratégicas da China com o Brasil, Venezuela e Irão, no campo do petróleo, são um exemplo. Ela tem liquidez suficiente para se pôr a comprar activos estratégicos»

    Em virtude do enorme desequilíbrio de mercado criado pelo factor China e pela maturidade de muitos campos petrolíferos, Birch espera que o preço do barril de petróleo se mantenha alto. «Não há flexibilidade pelo lado da oferta nem das petrolíferas. O preço não poderá, por isso, baixar muito». O que vai agitar enormemente o mundo das petrolíferas e as suas valorizações bolsistas. A Merrill Lynch adianta que poderemos assistir a uma movimento de "takeovers" em direcção ao mercado das médias petrolíferas, incluindo oportunidades na Rússia - "apesar do enorme risco" - e no Canadá.

    O mesmo impacto poderá suceder no mercado do urânio. «A China poderá desenvolver mais energia nuclear. O urânio tinha excedentes, quando ocorreu o desmantelamento das armas nucleares. Mas, agora, há escassez», refere-nos. Alguns analistas prevêem que o preço "spot" possa disparar dos actuais 20,25 dólares a libra para 30 em Agosto do próximo ano.

    Alternativas competitivas

    Outro factor de optimismo para o portefolio de Fundos da Merrill Lynch é a mudança na área das energias "alternativas". «Penso que estas energias começam a ser competitivas no actual ambiente de custos. Tem havido, também, uma inversão na atitude dos investidores em relação a estas novas energias, no sentido positivo», sublinha.

    Segundo um estudo da Cambridge Energy Research Associates, está a ocorrer uma convergência de custos entre várias tecnologias alternativas de produção de energia e a própria energia solar tem declinado bastante. A Merrill Lynch não se atém, apenas, ao universo da produção de energias renováveis. Na sua actividade incluiu, também, a monitorização das tecnologias com impacto nestas áreas. «Algumas delas estão à beira de se tornarem comercialmente viáveis, como acontece com as pilhas de combustível e a tecnologia de supercondutores para as infra-estruturas de rede de energia», conclui Graham Birch.

    FOTO RÁPIDA
    GRAHAM BIRCH, aos 44 anos, é considerado o "menino de ouro" da Merrill Lynch. Doutorado em geologia na Royal School of Mines inglesa, Birch gere, a partir de Londres, mais de 7 mil milhões de euros em Fundos designados "Recursos Naturais", cuja performance tem sido classificada pelo Citywire Funds Insider com o "rating" triplo A. A equipa que lidera conta com 4 geólogos e tem por filosofia «não estar sentada atrás das secretárias, mas calcorrear as minas pelo mundo fora, se for preciso ir a 2 quilómetros e meio ao fundo da terra". "O que é uma vantagem competitiva - avaliamos os activos observando-os e conversamos informalmente sobre o diz que disse sobre o sector», comenta Birch. O segredo da sua avaliação resume-se em três atitudes: alerta total sobre as novas descobertas no sector da mineração; avaliação de risco sem pressupostos ideológicos; análise sempre a longo prazo.
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