Nasce mercado virtual da microfinança

Jacques Attali, o polémico ex-presidente do BERD (Banco Europeu para
a Reconstrução e Desenvolvimento), fala de PlaNet Finance, um portal na Web que pretende ser a central mundial de financiamento de todas as instituições de atribuição de microcréditos aos pobres

Jorge Nascimento Rodrigues com Jacques Attali do outro lado da linha

Versão reduzida publicada no semanário Expresso

 Página pessoal de Attali | Attali em Directo convida Portugal 

Não se sai do círculo da pobreza com esmolas ou subsídios de emergência quando a situação fica mais trágica. O mecanismo em situações dramáticas é sempre o mesmo círculo vicioso - começa por umas declarações piedosas sobre os 1,3 biliões de seres que vivem com menos de 1 dólar (duas moedas de cem escudos) por dia e que serão 3 biliões em 2040, se nada for feito de "estrutural", e passa depois à anulação das dívidas dos países mais pobres, ao lançamento de programas de ataque à fome extrema e à mobilização de todas as instituições de caridade.

Mas, passado algum tempo, desmobilizadas as televisões globais, tudo volta ao ponto de partida.

"Empreendedorismo em pequena escala é a única saída para a miséria, particularmente no 'Sul'", afirmou- nos Jacques Attali, o fundador da PlaNet Finance, uma plataforma na Web que pretende "federar" todo o movimento mundial de instituições financeiras dirigidas à atribuição de microcréditos.

Criada em 1998, ela entra, agora, na sua fase de expansão. "Desde que começei a reflectir sobre as instituições internacionais saídas de Bretton Woods e sobre tudo o que implica o excesso de burocracia, verifiquei que pouco se faz contra a grande pobreza, apesar dos esforços excepcionais do novo presidente do Banco Mundial", prossegue.

O peixe e o pescador

A famosa alegoria do peixe e do pescador foi "reescrita", agora, por este polémico político e consultor, hoje com 57 anos, que foi conselheiro do Presidente Mitterand durante uma década (de que resultou a trilogia de memórias, Verbatin, editada pela Fayard) e fundador e ex-presidente do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), a quem muitos cognominaram de um dos príncipes da elite dos "socialistas do champagne" franceses.

Diz-nos Attali: "Costuma dizer-se que mais importante que dar o peixe - a esmola - é ensinar a pescar. Mas eu acrescentaria o seguinte: e dar o crédito para comprar a cana de pesca, sem a qual não se pesca".

Recusando o novo epíteto de "Robin Hood da finança internacional", esta argelino de nascimento e engenheiro de minas de formação, afirma que "criar microempreendedores com base em pequenos créditos é a melhor forma de sair do 'subdesenvolvimento'. A generalização do salariato - criando mais e mais assalariados de empresas - não é a solução para essas vastas massas de pobreza no 'Sul', em volta das megapolis, ou mesmo no 'Norte', nas áreas de pobreza na própria Europa Ocidental ou do Leste. O que é preciso é ajudar o desenvolvimento de iniciativa agrícola ou de pequenos negócios artesanais".

Finança rentável

50 dólares (dez contos), por vezes, fazem a diferença para se arrancar com um pequeno negócio no meio de uma megapolis do Terceiro Mundo de 15 ou 20 milhões de habitantes ou nas regiões rurais circundantes. Mas o raciocínio também se pode aplicar em regiões periféricas ou nos subúrbios e "ghettos" das metrópoles europeias com uma verba mais adequada. O caso mais célebre deste novo paradigma é o Grameen Bank, do Bangladesh, criado nos anos 80 pelo pioneiro Muhammad Yunus, que também está no conselho de administração do PlaNet Finance. Attali cita, no caso da Europa, a experiência, a partir de Varsóvia, da Associação para o Direito à Iniciativa Económica, liderada por Maria Novak.

E o mais irónico, é que o crédito mal parado é baixíssimo. "As taxas de reembolso no Grameen Bank são da ordem dos 98%. Gente pobre tem dignidade e palavra de honra", comenta Attali, que acha, por isso, que chegou o momento de "massificar a ideia, de profissionalizar as instituições que se dedicam à microfinança, de as ancorar na economia formal, de lhes dar uma rede mundial, de desenvolver o marketing, de convencer os fundos do 'Norte' com preocupações éticas a investir neste novo segmento do negócio financeiro".

PlaNet Finance apareceu na Web em 1998 precisamente como uma espécie de portal para aproveitar esta janela de oportunidade e colocou como meta levar o movimento mundial a passar dos actuais 7 mil milhões de dólares (1400 milhões de contos) de microcréditos a 15 milhões de pobres para os 20 mil milhões de dólares (quatro mil milhões de dólares) a 100 milhões de pobres em 2010.

Attali acha mesmo que se trata "de um investimento rentável, seguro e ético - o único a combinar estas três qualidades" e que o momento de esfriamento dos mercados de capitais só pode favorecer a viragem de atenção de muitos Fundos para esta aplicação. PlaNet Finance estuda para os investidores institucionais "ferramentas" como Fundos de Investimento Ético, Contas Poupança Ética e de Solidariedade.

E conseguiu convencer já vários parceiros estratégicos, como a Arthur Anderson, a CAP Gemini, a Oracle e a Dexia Asset Management, ligada à Banque Internationale de Luxembourg (que tem um Fundo Ético com a Axa para microcréditos). Através do "site", as instituições financeiras de microfinanciamento podem fazer pedidos "just in time" e vê-los analisados por peritos que estão "on line".

A PlaNet Finance, depois, oferece co-financiamento e garantias bancárias a essas instituições, para empréstimos que, em média, rondam os 10 mil euros (dois mil contos), mas que, em breve, poderão chegar ao milhão de euros (200 mil contos) por operação de financiamento aos tais "bancos dos pobres". Numa segunda fase, Attali prevê avançar directamente com linhas de crédito e mesmo tomar posições de capital nas instituições de microfinanciamento, que devem rondar hoje as 7 a 8 mil entidades.

Mas a atribuição de financiamentos rege-se por uma "Carta de Ética" e pelo controlo de um Comité de Supervisão, onde pontificam nomes como Boutros Boutros-Gali, Shimon Peres, Michel Rocard, o super-gestor Pehr Gyllenhammar e representantes da poderosa casa financeira Lazard Frères & Co, e Nova Iorque. A Carta de Ética exige que só se trabalhe com instituições que respeitam os direitos humanos e que não financiem, na sombra, actividades de escravatura e trabalho infantil, nomeadamente.

Um portal completo

Mas o "site" não se limita a "ouvir" pedidos. Pretende ser uma base de gestão de conhecimento para todos os profissionais deste emergente segmento financeiro.

Em PlaNet Finance pode encontrar-se uma série de funcionalidades, incluindo uma biblioteca virtual (PlaNet Library, onde se poderá consultar um Atlas de mais de duas mil instituições e um glossário), uma Universidade à distância com 17 programas de formação "on-line" em três línguas previstos para 2000/2001 (Planet University), um sistema de "rating" de instituições (este ano estão previstas acções no Benin, Ghana, Brasil, Camboja, Marrocos, por exemplo) e de sua acreditação, bem como estudos do "mercado da microfinança" em diversos países (de que os mais recentes estão em curso no Togo, no México, na Argentina e na Índia) e estudos de impacto da acção das instituições de microfinança na sociedade.

Convite a Portugal
Jacques AttaliO mundo de língua portuguesa é uma das áreas de interesse estratégico da Planet Finance, que tem em constituição uma delegação no Brasil, país onde começou por apoiar um projecto estudantil junto das favelas do Rio de Janeiro - o SOS Favelas. Attali deixa o convite a entidades portuguesas para se ligarem à sua rede que já mobiliza mais de 200 quadros na França, Polónia, Benin e Estados Unidos, e em breve na Itália, Brasil, Espanha e Índia.

PlaNet Finance tem já algum elo em Portugal?

JACQUES ATTALI - Ainda não temos nenhuma ligação directa com o seu país, mas estamos totalmente disponíveis, com o apoio de correspondentes locais, para criar um elo da nossa rede. Porque não um PlaNet Portugal, em particular visando o mundo lusófono?

Em relação a esse vasto mundo de falantes da língua portuguesa, veria, por exemplo, interessante projectos em Moçambique ou Timor-Leste?

J.A. - Se se encontrarem mecenas ou bons parceiros em Portugal para entrarem connosco nesses projectos, estamos disponíveis para o fazer de imediato. Ainda recentemente, a nossa organização esteve num seminário sobre microfinanciamento em África, em Junho passado, que decorreu na Cidade da Praia, em Cabo Verde.

A América Latina tem sido um dos vossos eixos de interesse estratégico. Não só o Brasil...

J.A. - Desenvolvemos inclusive um PlaNet Latina, que é um ponto de encontro virtual da comunidade financeira ligada à microfinança nesse vasto continente. Também o nosso projecto de um protótipo de portal de comércio electrónico - o Planet Bazaar - para produtos artesanais arrancou na Bolívia, dirigido a artesãos locais pobres que poderão através da Web comercializar os seus produtos.

O que é que basicamente podem oferecer a quem queira lançar um elo do PlaNet Finance?

J.A. - Através da Planet Systems damos apoio inicial através do fornecimento de equipamento informático, de ligações à Internet, com o apoio de parceiros locais, registo de domínio na Web, e todos os imensos recursos que podem ser encontrados a partir do nosso "site".

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