CINCO ANOS DE CAPITALIZAÇÃO BOLSISTA
EM ANÁLISE

As 10 empresas de maior capitalização vistas por J. F. Palma Ferreira, jornalista do EXPRESSO, responsável pela rubrica O Seu Dinheiro

©Artigo especial para o Suplemento 1000 Maiores 1999 do Expresso

Quem procura compreender a evolução dos segmentos mais activos da economia portuguesa analisando as maiores capitalizações bolsistas, constata pelo menos três realidades inegáveis: que o desenvolvimento das empresas nacionais mais pujantes é indissociável do processo de privatizações; que a banca tem vindo a perder protagonismo face às empresas de telecomunicações e às designadas «utilities»; e que a pequena dimensão, no contexto europeu, da Bolsa de Valores de Lisboa (BVL) começa a fazer-se sentir negativamente junto das suas empresas cotadas, limitando-as nos planos da liquidez e da potencialidade de atracção de investidores estrangeiros, o que é bastante evidente depois da última grande crise internacional nos mercados de capitais. Mas agora que o processo de privatizações está praticamente concluído - faltando apenas as operações da dispersão da «holding» do sector do gás e petróleo, a Galp, SGPS e um conjunto diverso de empresas cuja agenda ainda não foi completamente definida, como é o caso da TAP, além de outras situações em que a colocação no mercado permanece uma incógnita, como a da Caixa Geral de Depósitos -, no horizonte do ano 2000 apenas há certeza sobre as ameaças com que serão confrontadas as 10 empresas com maior capitalização.

A emergência do sector das telecomunicações

Entre essas ameaças encontra-se a disputa pela hegemonia da Portugal Telecom (PT), liderada pelo novo operador do Grupo Sonae para a rede fixa de telecomunicações, a Novis, além do consórcio E3G.

Na banca, tudo indica que o processo de consolidação apenas está a começar, esperando-se novas e grandes fusões até ao final de 2000 - com a expectativa de saber como é que os grupos bancários portugueses vão «digerir» esse crescimento.

Nas «utilities», e em particular no sector eléctrico, a EDP será confrontada com o aumento da concorrência, num mercado cuja abertura ainda não foi verdadeiramente sentido através da produção de operadores privados internos, nem sequer da oferta de energia eléctrica estrangeira. Isto é, as mudanças que virão a ser sentidas no próximo ano pelas 10 empresas com maior capitalização serão porventura mais radicais que todas as que ocorreram durante os últimos cinco anos.

E a verdade é que as alterações operadas ao longo dos últimos cinco anos nas 10 empresas com maior capitalização bolsista também já foram bastante grandes. Recorda-se que, no final de 1995, o Banco Português do Atlântico (BPA) detinha o maior valor de mercado entre as empresas cotadas na Bolsa de Valores de Lisboa, com 232 milhões de contos. Ora, em Julho de 1999, o BPA caiu para o décimo lugar do mesmo «ranking», com 355 milhões de contos.

Em contrapartida, a PT, que em Dezembro de 1995 se remetia à quinta maior capitalização, com 146 milhões de contos, em Julho de 1999 consolidou inequivocamente a liderança dos valores cotados, ascendendo a 1507 milhões de contos, mais do que todas as 10 maiores empresas apresentaram no final de 1995.

Aliás, o crescimento evidenciado pela PT durante os primeiros sete meses de 1999 demonstra não só que o sector das telecomunicações ultrapassou em importância qualquer área da actividade económica portuguesa, mas também que a estratégia de internacionalização da PT não lhe infligiu quebras tão consideráveis como as registadas na capitalização de outras empresas, desde os sectores das «utilities» até à própria banca, passando pela distribuição.

É que apesar dos mercados de capitais se encontrarem em conjuntura recessiva durante o primeiro semestre de 1999, muitas das empresas cotadas na BVL foram duplamente penalizadas pela exposição às opções de internacionalização que foram tomando, particularmente os grupos que investiram nas economias emergentes ou em fase de desenvolvimento da América Latina e do sudoeste asiático.

Mas, mesmo em pleno rescaldo de uma forte aposta de investimento no mercado brasileiro, a PT foi a única empresa, entre as que integraram as 10 mais cotadas do final de 1998, que não sofreu quebras de capitalização em Julho de 1999. Todas as restantes caíram. Pior: a Modelo Continente e a Cimpor saíram do grupo das 10 maiores. Em contrapartida, entraram neste grupo uma «utility», a Brisa, e um banco, o Pinto & Sotto Mayor - em resultado de consolidar as participações do grupo Champalimaud na banca.

Enquanto a PT cresceu 394 milhões de contos durante os sete primeiros meses de 1999, a capitalização das restantes sete maiores empresas cotadas na BVL (excluídas as referidas duas empresas que saíram do «ranking») baixou, no mesmo período, 634 milhões de contos.

Assim, toda a estrutura da liderança dos valores cotados na BVL sofreu uma alteração radical de 1995 a 1999. Há cinco anos a banca controlava o «ranking» das capitalizações, com os bancos Português do Atlântico, Comercial Português e Espírito Santo nos três primeiros lugares. A distribuição, com a Modelo Continente, surgia em quarto lugar, e a PT ocupava a quinta posição, seguindo-se uma empresa do sector da banca, duas empresas da distribuição, uma do papel e, finalmente, um banco.

Em 1999, os bancos concentram-se no fim da tabela, apesar de o BCP ter subido à segunda posição. O peso das «utilities» - a EDP e a Brisa - aumentou e a distribuição tornou-se qualitativamente selectiva, sendo reduzida à presença da Jerónimo Martins. Privatizações amadurecidas

A segunda metade da década de 90 já permite efectuar um balanço sobre o efeito das privatizações no desenvolvimento do mercado de capitais - as primeiras operações, limitadas a 49% do capital, ocorreram em 1989 e envolveram a cervejeira Unicer, o Banco Totta & Açores e as seguradoras Tranquilidade e Aliança Seguradora.

A este respeito, a directora do Gabinete de Estudos da BVL, Irene de Carvalho, no estudo «Impacte das privatizações no mercado de capitais 1996 - 1º semestre de 1999» refere que, «desde o início do processo, as privatizações já renderam ao Tesouro cerca de 3000 milhões de contos, dos quais 68,7% no período compreendido entre o início de 1996 e os finais de Junho de 1999». E sublinha que, «no mercado bolsista, o impacte das privatizações só foi significativamente relevante a partir de 1995».

A responsável pelos estudos da BVL explica que a praça de Lisboa só se transformou num verdadeiro mercado de acções em 1997, pois o segmento accionista representava em 1996 uma quota de transacções totais em bolsa de apenas 32,5%. Foi a partir desse ano que os papéis representativos do capital de empresas aumentaram as respectivas transacções para 61,1% do valor total movimentado no mercado, «disparando» para 87% em 1998 e para 90,9% no primeiro semestre de 1999.

Entre Janeiro de 1996 e o final de Junho de 1999, a BVL efectuou 17 sessões especiais relativas a OPV de privatizações, que movimentaram um volume global de 991,5 milhões de contos. Mas foi em 1997 que se concentraram os valores mais elevados, embora em 1996 se tenha realizado o maior números de operações, concretamente sete OPV, que movimentaram 32,8 milhões de acções, no valor de 98,5 milhões de contos.

As operações mais importantes de 1996 foram precisamente as segundas fases de privatização da PT e da Cimpor, que inauguraram o controverso sistema dos pré-registos, durante o qual os potenciais interessados revelavam as quantidades que pretendiam comprar, que se convertiam automaticamente em ordens de compra se essas intenções não fossem anuladas até à data de início do registo. Também ocorreram em 1996 a terceira fase da privatização do Banco Totta & Açores e a segunda fase do Banco de Fomento Exterior, que decorreu por concurso público e rendeu 135,98 milhões de contos. No total de 1996, entre as OPV, as vendas directas e o concurso público do BFE, foram alienadas 140,2 milhões de acções que renderam 419,5 milhões de contos.

O ano de 1997, com cinco OPV, permitiu a negociação de 128,9 milhões de acções no valor de 397,9 milhões de contos. As operações mais espectaculares, na verdadeira acepção do termo, foram as da Brisa, em que a procura excedeu 128 vezes a oferta, e da EDP, em que a procura superou 36 vezes a oferta. Juntamente com a operação da PT, estas três privatizações representaram 99,3% dos valores das OPV e vendas directas de privatizações realizadas em 1997 (cabendo 45,6% dos valores apenas à EDP).

O ano seguinte ainda foi mais espectacular em matéria de interesse da procura. Assim, em 1998, a procura de acções da Cimpor excedeu mais de 160 vezes a respectiva oferta. Ao todo, em 1998 foram realizadas quatro OPV, em que foram movimentados 439,6 milhões de contos. As vendas directas (da Cimpor, EDP e da Brisa) renderam mais 247,2 milhões de contos. Finalmente, a terceira fase da EDP totalizou 404,2 milhões de contos.

O primeiro semestre de 1999 marcou o declínio do último período de pujança dos mercados de capitais, com quedas registadas nos índices de acções de quase todas as bolsas. Mesmo assim, a única OPV realizada - a terceira fase de privatização da Brisa - registou uma procura 58 vezes superior à oferta. Entre a venda directa e a OPV a esta fase da Brisa o rendimento foi de 92,7 milhões de contos.

O balanço do período compreendido entre 1996 e Junho de 1999 no que se relaciona com a capitalização bolsista das acções admitidas no Mercado de Cotações Oficiais (MCO) revela um aumento de 1100 milhões de contos só em 1996; de 3400 milhões de contos em 1997; e em 1998 de 3500 milhões de contos. Estes valores ultrapassam as capitalizações registadas entre o início das privatizações, em 1989, e o final de 1995, que no seu conjunto não ultrapassaram 1600 milhões de contos. O peso das empresas privatizadas no total da capitalização bolsista das acções do MCO ultrapassou os 50% desde 1997.


© J.F.Palma Ferreira, artigo para o Suplemento 1000 Maiores de 1999, do jornal Expresso. Reprodução proíbida.

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