Entrevista com Muhammad Yunus, fundador
e presidente do Grameen Bank

Microcrédito para 100 milhões de famílias em 2005

Texto e fotos: Alexandre Coutinho

Mais do que um banqueiro, Muhammad Yunus (hoje, com 60 anos) continua a ser o professor universitário de Economia que, um dia, trocou as salas de aula pelas aldeias do Bangladesh, emprestando dinheiro aos pobres sem exigir quaisquer garantias, apenas na base da confiança.

Recensão do livro «Banker to the Poor»

Muhammad Yunus

Defende que a dívida dos países do Terceiro Mundo não deveria ser perdoada sem contrapartidas. Propõe a criação de um fundo de microcrédito?

MUHAMMAD YUNUS - Há muitas pessoas a apelar ao perdão da dívida, mas isso não me entusiasma nada, principalmente, se for feito sem condições. Defendo um perdão com condições. Significa que o dinheiro tem de ser pago ao próprio país, através da criação de um fundo colocado à disposição das organizações de microcrédito e em benefício do seu povo. Estas deixarão de recorrer a dádivas ou a empréstimos externos.

O problema é que esses países não têm meios para pagar essa dívida?

M.Y. - Não é preciso pagar tudo de uma vez. O pagamento deve ser faseado e à medida das possibilidades de cada país.

Isto para não falar na corrupção...

M.Y. - É claro. Por isso sou contra o perdão incondicional. O facto de um país credor prescindir de receber a dívida não significa que o dinheiro possa ser gasto de qualquer maneira. Um representante na direcção do fundo teria por missão vigiar a correcta aplicação do dinheiro. É a garantia que esse dinheiro chegará às pessoas e não ficará nas mãos do Governo.

Como lhe ocorreu a ideia de emprestar dinheiro às pessoas?

M.Y. - Eu não tinha qualquer intenção de conceder empréstimos, foram as circunstâncias que me levaram a isso. Estava a leccionar Economia, na Universidade de Chittagong, nos anos que se seguiram à independência do Bangladesh e havia muitas dificuldades. O país, em vez de progredir, estava a definhar e, em 1974, enfrentámos um terrível período de fome. Via pessoas a morrer à fome e estava frustrado, sem saber o que fazer para ajudar. Afinal, todas as grandes teorias de desenvolvimento económico que eu ensinava não contribuiam para nós.
Era precuiso olhar para o mundo como um ser abstracto, mas como se de uma pessoa se tratasse e tentar ser útil. Nem que fosse para uma só pessoa. Fui à aldeia mais próxima do "campus" universitário visitar os pobres e... foi assim que tudo começou. Vi como as pessoas sofriam, como estavam dependentes dos usurários que lhes emprestavam dinheiro, quase sempre montantes muito pequenos. Porque não fazer uma lista destas pessoas e tentar ajudá-las? Com a colaboração de alguns alunos, fizemos uma lista de 42 pessoas e chegámos à conclusão que o total de dinheiro necessário era de 27 dólares! Meu Deus! Andamos nós a falar de milhões e milhões de dólares para investir e desenvolver a economia do país e há pessoas que, apenas, precisam de um dólar.

Quando fez essa lista, foi à procura de pessoas que já tinham alguma habilidade ou vocação para trabalhar?

M.Y. - Não me preocupei com isso. O objectivo era saber quem estava dependente dos usurários. Todos os que tinham dívidas estavam na minha lista e, à data, não sabia o que ia fazer com essa lista.
Quando vi o total fiquei chocado e o meu primeiro impulso, foi o de agarrar no dinheiro e dá-lo às pessoas. Não imagina como uma quantia tão pequena provocou tanta excitação e deixou tanta gente feliz. Então, porque não ir mais longe e emprestar mais dinheiro às pessoas? E isso levou-me ao banco, que recusou emprestar dinheiro a pobres sob o pretexto de que eles o gastariam todo em bens de primeira necessidade e seriam incapazes de reembolsá-lo. Além disso, não tinham garantias reais e as quantias eram tão insignificantes que o negócio não tinha interesse.
Após seis meses de negociações, concordaram finalmente em emprestar-lhes dinheiro, mas tendo-me a mim como fiador. E funcionou! As pessoas pagavam regularmente os seus reembolsos e isso entusiasmou-me e encorajou-me a estender estes empréstimos a outras aldeias. Ao fim de algum tempo, pensei em criar um banco independente e propus a ideia ao Governo. Só obtive a autorização para criar o Grameen Bank dois anos depois, em 1983. Hoje, trabalhamos em 40 mil aldeias (de um total de 68 mil existentes no Bangladesh), temos 12 mil funcionários, emprestámos 2,4 milhões de dólares e 94% dos nossos clientes são mulheres. E o banco pertence-lhes...

Como é que funciona essa estrutura de capital?

M.Y. - Não queremos ganhar dinheiro, não é esse o nosso objectivo. Existe um plano de poupanças que atribui uma acção por cada dois dólares. Por isso, os nossos 2,4 milhões de clientes são os donos do banco.

No entanto, o banco tem de dar lucro para financiar a sua própria expansão e diversificar as suas actividades?

M.Y. - É claro. Não é grande, é um lucro marginal (300 mil contos), depois de pagarmos todos os custos e que reinvestimos.

Quais são as vossas fontes de financiamento?

M.Y. - Contraímos empréstimos junto de outros bancos e emitimos obrigações.

Mas recebem, também, donativos de instituições estrangeiras? Da Grameen Foundation?

M.Y. - Começámos em 1976, sem qualquer dinheiro exterior. Saiu tudo do meu bolso. Depois, tornei-me fiador e os bancos emprestavam o dinheiro. Mais tarde, fomos um projecto apoiado pelo Banco Central do Bangladesh. Só em 1988, é que recebemos pela primeira vez dinheiro de fora, por insistência dos doadores. Mas em 1995, decidimos que deixaríamos de aceitar mais dinheiro. A Grameen Foundation não tem nada a ver conosco, são apenas amigos do Grameen Bank e apoiam a criação de instituições semelhantes noutros países. Não metem dinheiro no banco.

Agora são totalmente independentes?

M.Y. - Totalmente.

Para dar lucro, o Grameen Bank tem de cobrar juros às pessoas. Quais são as vossas taxas de juro, relativamente às de outros bancos comerciais?

M.Y. - No Bangladesh, a taxa média ronda os 15%. No Grameen Bank, cobramos duas taxas: 20%, nos empréstimos a um ano e 8%, nos empréstimos à habitação, o que dará uma média próxima dos 15%, praticamente idêntica à dos restantes bancos comerciais.

Como reage às críticas dos que o acusam de cobrar juros demasiado altos, que as pessoas mal podem pagar?

M.Y. - Alguns, também dizem que cobramos juros muito baixos... Na verdade, nós não precisamos de ser uma organização muito popular...

E qual é o tipo de crédito mais procurado?

M.Y. - O crédito para actividades produtivas, nomeadamente, a criação de gado bovino (vacas leiteiras), o cultivo do arroz e a exploração de aviários de galinhas. É para onde vai a maior parte do nosso dinheiro, cerca de 80%. São actividades tradicionais e muito seguras, com as quais se pode fazer dinheiro de imediato.

Mas também financiam a construção de habitações?

M.Y. - Sim. Concedemos mais de meio milhão de empréstimos, num total superior a três milhões de dólares.

Como enfrentaram as catástrofes naturais que assolam o Bangladesh, nomeadamente, as cheias de 1998? Dispõem de algumas reservas especiais para fazer face as estas situações?

M.Y. - Em situações de desastre, fazemos um re-escalonamento das dívidas e concedemos novos empréstimos que permitam às pessoas recomeçar a sua vida e reconstruir as suas casas.

Não existem seguros de colheitas ou quaisquer outros que possam contribuir para minimizar as consequências?

M.Y. - Não temos nenhuma companhia de seguros, porque é muito difícil de avaliar a natureza do "desastre" (há muitas manipulações). Mas temos um plano de seguro de saúde, para o qual as famílias pagam 2,5 dólares anuais e beneficiam de assistência médica de qualidade a baixos custos e um seguro de vida, que garante algum dinheiro à família em caso de falecimento do titular do empréstimo.

Tem receio de que o Grameen Bank possa chegar a um ponto crítico de crescimento?

M.Y. - É possível. Estamos preocupados mas, também, confrontados com o dilema de optar por uma maior expansão ou de não fazer o necessário para utilizar toda a nossa capacidade. Tentamos resolvê-lo através da criação de diversas organizações autónomas, dotadas das suas próprias administrações. O Grameen Bank alcançou a sua dimensão óptima? Houve quem dissesse isso quando tínhamos dez balcões. Hoje, temos 1200 e continuamos a expandir a rede, sempre atentos aos sinais. De qualquer forma, já abrandámos o nosso crescimento. Por duas razões: temos 2,4 milhões de famílias de titulares de empréstimos e o nosso desejo é de vê-los ultrapassar o limiar da pobreza. Um terço, já o conseguiu e outro terço está quase e os restantes estão no bom caminho. Vamos concentrarmo-nos nestas pessoas, em vez de nos expandirmos cada vez mais. A outra razão, é que já há outras organizações que concedem microcrédito e ainda há lugar para mais.

Quantos anos são necessários para uma família que beneficia do microcrédito ultrapassar o limiar da pobreza?

M.Y. - Os nossos dados apontam para um período entre cinco e 15 anos. Queremos reduzir este tempo para um máximo de dez anos e depois, progressivamente, para oito ou sete anos. Temos de olhar, também, para as questões de saúde. As pessoas doentes não podem trabalhar...

Isso significa que o crédito não é tudo. As pessoas também precisam de programas de saúde, de ensino, de formação?

M.Y. - Mil e uma coisas. O crédito é, apenas, uma parte mas é a peça-chave que representa o ponto de partida para as restantes.

O trabalho infantil é um dos maiores problemas do Bangladesh. Constitui, para si, mais um factor de preocupação?

M.Y. - Para mim, não vem como um facto desligado. É mais uma consequência da pobreza. Nenhum pai gosta de mandar os seus filhos trabalhar quando deveriam estar na escola. Só porque o seu rendimento não chega para sustentar a família. Quando assim, os filhos são "oferecidos" a outras famílias para quem trabalham numa situação de quase escravatura, a troco de alimentos, muitas vezes, restos... Os que procuram retirar as crianças das fábricas só estão a atacar os sintomas e não a doença.

Lançou um desafio a nível mundial, de fazer chegar o microcrédito a 100 milhões de famílias no ano 2005. É um objectivo realista?

M.Y. - É realizável! Em 1976, quando dei 27 dólares a 42 pessoas, se tivesse feito uma conferência de Imprensa nessa tarde para anunciar que, daqui a 24 anos, estaria a conceder 2400 milhões de dólares (500 milhões de contos) você saía da sala a chamar-me maluco. Mas essa é a realidade presente. Na época, a palavra microcrédito nem sequer existia. Não é difícil passar, de 20 para 100 milhões de famílias. Vamos tentar o nosso melhor e mesmo que não seja possível chegar aos 100 milhões, chegaremos a 50 ou a 60 milhões.

Depois do crédito, o Grameen Bank vai virar-se para as telecomunicações e as tecnologias da informação?

M.Y. - As tecnologias da informação vão mudar o mundo.Tudo o que pensarmos e dissermos, hoje, tornar-se-á inválido, muito rapidamente. A distância deixou de constituir problema, o contacto é estabelecido de pessoa para pessoa e os intermediários deixam de existir. É a nova economia:B2B, C2C, C2P ("consumer to producer"), sem burocracias. Então, que razões tenho para ser pobre? Todas essas "telephone ladies" com quem pode conversar, amanhã, serão "Internet ladies" e vão vender-lhe serviços. Muitas delas, nunca tinham visto um telefone ou electricidade. Por isso, se olharmos para a tecnologia com outros olhor e para as necessidades das pessoas pobres, verificamos que ela pode mudar-lhes a vida num par de anos.

Por isso, propôs a criação de um Centro Internacional para as Tecnologias da Informação?

M.Y. - Quero juntar os designers de tecnologia e estou certo que ficarão entusiasmados se forem desafiados. Só precisam de uma oportunidade. São pessoas com menos de 35 anos que ganham milhões e não sabem onde aplicar o dinheiro. Por isso estão desejosos de ajudar, de fazer qualquer coisa. São muito criativos e eu quero fazer uma verdadeira "lâmpada de Aladino": um terminal que não custará mais de cinco dólares (1000$00), comandado por voz, com ecrã táctil e tradutor simultâneo. Já é possível!

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