Web: o inglês será 'vencido' no ano 2000

O mercado das outras línguas é uma boa aposta para conteúdos e interactividade na Internet.
A 'localização' impôr-se-à à actual americanização

Um estudo da Euro-Marketing Associates (www.euromktg.com)
comentado por Jorge Nascimento Rodrigues

Os utilizadores da Web deixarão de ser maioritariamente de língua inglesa no ano 2000. Segundo um estudo recente da Euro-Marketing Associates, uma empresa de estudos de mercado e de promoção de páginas na Web, sedeada em São Francisco, o inglês será suplantado por uma coligação maioritária de outras línguas dentro de dois anos. E em 2002, a coligação poderá ser quase o dobro do mundo de expressão inglesa.

Isto significa que a diversidade linguística se afirmará como matriz essêncial dos conteúdos e da interacção na Internet no próximo século. O português já se encontra entre as dez línguas de origem dos 'navegantes' da Web e poderá reforçar o seu peso nos próximos cinco anos. Manter páginas na língua de Camões tem actualmente um mercado de mais de dois milhões de pessoas e tende a crescer.

O ponto de inflexão

A World Wide Web está ainda inundada de falantes da língua inglesa ou de gente que prefere consultar nessa língua as páginas da sua preferência. Segundo o estudo mais recente da Euro-Marketing Associates, o inglês domina 58 por cento dos actuais 140 milhões de ciber-utilizadores.


Utilizadores da Internet (em milhões)
 Língua de origem   1998(e)   2000(p)   2002(p) 
 Inglês 82  130  250 
 Outras línguas 59  140  400 
 Total 141  270  650 
Fonte: Euro-Marketing, Agosto 1998
Notas: (e) estimativa; (p) projecção

Mas essa hegemonia irá perder-se já no ano 2000, quando as outras línguas mais faladas no mundo passarão a representar em conjunto 52 por cento do público cliente do ciber-espaço (ver quadro acima). De acordo, ainda, com essas projecções, agora tornadas públicas, esse mosaico maioritário atingirá folgadamente os 61 por cento já daqui a quatro anos.

A Net estará então povoada de 650 milhões de almas, das quais apenas 250 milhões se exprimirão regularmente na actual língua franca dos negócios.

O que isto significa é que a 'globalização' está a atingir aceleradamente a Web. O mundo não falante do inglês cresce em peso entre os ciber-utilizadores. Segundo, as sondagens feitas pela Euro-Marketing, esses falantes de outras línguas preferem ler os conteúdos e interagir nas suas línguas nativas. Há uma grande retração pessoal no uso do inglês, excluídos os segmentos mais cosmopolitas e 'estrangeirados'.

Localização versus americanização

Mesmo gente que se exprime fluentemente em inglês na Europa continental, como na Holanda ou nos países escandinavos, «prefere surfar na Net na sua própria língua», explica-nos Bill Dunlap (bill@euromktg.com), director executivo da Euro-Marketing, que vive no sul de França, em Aix-en-Provence, e faz uma perninha regularmente em San Francisco, na Califórnia, onde sedeou a empresa.

Quando saíu da Compaq Computer em 1986, a ideia dele era criar uma empresa que promovesse a 'transferência' da alta tecnologia do Silicon Valley para a Europa. Daí a palavra 'euro' na designação da empresa. «Mas, agora, que a Internet abre portas por todo o mundo, tenho de mudar - confessa-nos Dunlap - o nome da firma, para algo mais 'global'. Já registei o nome de 'Global Reach'».

A consciência deste crescente 'mosaico' de línguas e culturas na Web levou Dunlap a lançar há três anos na página da Euro-Marketing um 'Centro Global de Negócios' - Global Business Center - com hiper-ligações para dezasseis áreas linguísticas no mundo, incluindo a de língua portuguesa.

«Sinceramente, não vejo qualquer americanização do mundo pela Web, refere-nos Dunlap. É certo que é mais fácil hoje aceder às páginas americanas. Mas, gradualmente, essa situação está a inverter-se. Há bons 'sites' locais a aparecer em cada país. A principal razão porque lançei esse Centro Global de Negócios foi para mostrar aos franceses - eu até vivo em Aix-en-Provence, uma outra forma de dizer 'paraíso' aqui na Europa! - que há muitos bons conteúdos em francês».

Já se verificou que muita gente, que entra em páginas redigidas em inglês e pretende depois inquirir sobre produtos e serviços expostos, se retrai quando tem de manter um relacionamento nessa língua por correio electrónico, o que significa perda de oportunidades de penetração no mercado por parte das firmas e marcas proprietárias dessas páginas. A empresa de estudos de mercado, a que nos temos referido, estima, por exemplo, que só 1/3 dos europeus do Continente se dispõe, actualmente, a 'surfar' em inglês na Internet.

As estratégias de 'localização' seguidas pelas próprias multinacionais norte-americanas actuando na Web ou por directórios e motores de pesquisa globais nascidos nos Estados Unidos, permitindo aos visitantes de um dado país ou falantes de uma dada língua 'personalizarem' o acesso à página na sua língua, é o sintoma da compreensão desta abordagem indispensável.

Dois milhões em português

TOP 10
das línguas de acesso

 (% dos utilizadores em 1998) 
 Língua
 Inglês 58,0 
 Espanhol 10,0 
 Japonês 9,0 
 Alemão 5,2 
 Francês 4,1 
 Escandinavas 3,7 
 Chinês 2,9 
 Português 1,5 
 Italiano 1,5 
 Holandês 1,2 
Fonte: Euro-Marketing, Agosto 1998

Segundo a Euro-Marketing, essa evolução abre caminho a uma valorização dos conteúdos locais e à dinamização da interactividade na língua nativa, e revela que são possíveis estratégias de internacionalização de páginas na Web cujo alvo mundial sejam falantes da mesma língua espalhados pelo mundo, o que sucede com estados com fortes diásporas ou cuja língua, por razões históricas da colonização, ficou como expressão oficial em outras partes do Planeta. Podemos referirmo-nos ao caso das línguas portuguesa, espanhola e francesa.

O castelhano afirma-se claramente como a segunda língua mundial na Web (ver quadro), fruto do seu peso na América Latina e dentro dos próprios Estados Unidos, onde 29 milhões o falam correntemente em casa. Este mercado dos hispânicos nos EUA é provavelmente o de maior crescimento, segundo Bill Dunlap.

O português, por seu lado, encontra-se entre as 10 línguas mais lidas na Internet, fruto dos mais de dois milhões de cibernautas que a usam como 'matéria prima' para as páginas em HTML ou para o correio electrónico, o «chat» ou a navegação. Só no Brasil serão um milhão (segundo o IBOPE Interact), com 47 por cento concentrados na região de São Paulo, a que se junta um número próximo no pequeno rectângulo europeu e cerca de 90 mil norte-americanos de ascendência lusa que a usam regularmente na Web (há cerca de 430 mil luso descendentes registados no último Censo norte-americano).

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