Tendências a seguir no ano 2000

Com o começo da contagem decrescente para o século XXI e o novo milénio, o próximo ano vai ser um período de transição em que se poderão confirmar ou liquidar algumas das modas e modelos de negócio nascidos nos últimos cinco anos com a emergência da economia digital

Um especialista canadiano em tendências nos mercados digitais responde
a Jorge Nascimento Rodrigues sobre o que está em alta e se recomenda.
Uma entrevista com Walid Mougayar, um ex-quadro da HP que se dedicou
à consultoria na área digital e que se projectou na galeria de gurus a partir
do lançamento da sua obra «Opening Digital Markets» no final de 1997.
Walid dirige a CyberManagement e é um colaborador regular da nova revista Business 2.0

Walid Mougayar do outro lado do «email» a partir de Toronto

Uma versão mais reduzida foi publicada no Expresso, caderno de Economia, de 24/12/99

 Recensão da anterior obra de Mougayar («Opening Digital Markets») 
As 20 Tendências em alta

OUTRAS FONTES SOBRE TENDÊNCIAS EM ALTA
Estudo da ATKearney sobre tendências nas compras
Estudo da Price Waterhouse Coopers sobre as tendências do e-business
«Hype and Hope», artigo da revista Business 2.0 de Novembro 99
 «The Next 1000 years», artigo da revista Business 2.0 de Dezembro de 99 

Com a abertura da contagem decrescente para o novo milénio e o próximo século a partir de 1 de Janeiro, a análise das tendências na economia digital vai ter um ano quente. O período de transição até 2001 poderá servir de barómetro do que vai ficar em alta e do que vai morrer e não passou de efémero nas modas e modelos de negócio na Web.

A Janela na Web esteve com um dos mais reputados especialistas da actualidade na área dos mercados digitais, Walid Mougayar - autor da obra de referência «Opening Digital Markets» editada pela McGraw-Hill-, e fez uma «ronda» pelos assuntos que poderão estar em «alta» no futuro próximo.


Apesar de todos os exageros dos «media» e do marketing em torno das compras na Web pelos consumidores, qual é que vai ser o motor real do comércio electrónico nos próximos anos? As compras de Natal para o sapatinho são mesmo o grande maná?

WALID MOUGAYAR - Não. Certamente que o comércio electrónico vai continuar a crescer nas duas frentes: no consumo (o que designamos na gíria de «b to c») e entre empresas («b to b»). No consumo, veremos uma consolidação dos jogadores iniciais em grandes marcas. Esta é também uma área em que empresas da «velha» economia que actuem bem têm hipóteses de se tornarem grandes jogadores. Quanto ao mercado entre empresas, ainda estamos no adro. A próxima grande tendência é o desenvolvimento e o crescimento de mercados electrónicos que se tornarão o ponto de encontro entre os compradores e os fornecedores. Para cada sector haverá uns 5 a 7 mercados destes em emergência. A sua dimensão é umas 10 vezes superior ao mercado de consumo.

Será de esperar que o modelo de mercado na Web baseado nos leilões, nas ofertas e licitações e na negociação em tempo real se estenderá a todos os sectores?

W.M. - Os leilões e as negociações dinâmicas são apenas duas das funcionalidades. Há outros modelos, como as permutas, o cruzamento da oferta e da procura, os catálogos integrados para as compras das empresas, leilões ao invés, negociações, pedido de preços e outros modelos ainda nem inventados, talvez. Eu recomendo vivamente que vejam um modelo muito inovador, o da PartMiner - ela criou na Web um mercado electrónico para componentes industriais. O seu valor acrescentado é rastrear todas as transações e satisfazer uma encomenda quando o mercado falha. Isto significa que quando um comprador não consegue encontrar o fornecedor, o www.partminer.com encontra-o.

Será de esperar que esse modelos dinâmicos cheguem ao mercado de trabalho? Estaremos em breve a leiloar o nosso tempo de trabalho e as nossas competências?

W.M. - Absolutamente! Não só a esse nível, mas a nível da massa cinzenta. Mercados do capital intelectual surgirão e permitirão aos profissionais leiloar ou vender o seu conhecimento e saber a empregadores à procura. Há já um conjunto de empresas na Web dentro dessa linha, como a www.guru.com.

Os tradicionais grupos bancários vão ter sucesso no contra-ataque às novas instituições financeiras nascidas na Web?

W.M. - Vão sofrer bastante. Alguns estão já a fazer parcerias com os novos jogadores. Parece-me que é fulcral para a banca saber dirigir estas parcerias e extrair valor delas.

O dinheiro digital está morto? Qual vai continuar a ser o principal meio de pagamento na Web?

W.M. - Ainda vamos esperar um par de décadas para ver a emergência de um novo sistema de pagamento que se torne universal. O dinheiro digital da forma como foi concebido há uns anos atrás não conseguiu, de facto, descolar. Por uma razão simples: os cartões de crédito funcionam bem na Web. E continuarão a dominar.

Será que o NASDAQ vai ultrapassar o New York Stock Exchange? O virtual vai destronar a famosa Wall Street?

W.M. - O NASDAQ representa, na verdade, a nova economia e o novo modelo de crescimento. Já hoje se sabe que as empresas cotadas no NASDAQ crescem muito mais rápido do que as cotadas no NYSE. Por isso, eventualmente, não ficarei muito surpreendido se isso que pergunta acontecer.

O paradigma de quanto maior prejuízo maior valor de mercado - como se diz por piada - vai continuar na Web? Amazon.com e Jeff Bezos, considerado agora o «Homem do Ano» pela Time, vão continuar a ser os modelos?

W.M. - Julgo que sim. Esse é o modelo da Web. O valor é projectado no futuro, é baseado no potencial. Outros indicadores são mais importantes do que os lucros no curto prazo. Por exemplo: receitas; crescimento delas; número de clientes «on line»; número de transações; número de parcerias; volume de vendas que influência numa cadeia de valor.

Ninguém vai escapar à nova linguagam XML? O HTML vai passar à história?

W.M. - Não há, a meu ver, forma de escapar ao XML - a Extensible Markup Language, cujos defensores argumentam com a sua maior versatilidade na publicação da informação na Web e «compatibilidade» com qualquer tipo de aparelho digital que aceda à Web. O XML é, por exemplo, já usado pela Dell no seu «site». A Microsoft, por seu lado, está a incorporar essas funcionalidades no seu «browser» e já há muitos «sites» de comércio electrónico entre empresas que dependem do XML.

O que é que vai ser mais rentável para os anunciantes - colocar publicidade nos portais ou usar o marketing directo através do correio electrónico bem direccionado?

W.M. - É difícil prognosticar. São dois modelos possíveis de obter receitas nos mercados de consumo. Mas o marketing directo está, sem dúvida, mais focalizado, e por essa razão poderá ser mais lucrativo. Alguns estudos apontam no sentido de que as taxas de resposta no marketing por «email» rondam os 5 a 15%, enquanto que o efeito dos «banners» só atrai 0,5 a 2% no máximo dos visitantes.

O que é que vai imperar: um acesso permanente à Web pago ou a Internet de borla?

W.M. - Vai haver um sistema por níveis. A tendência é para o acesso gratuito, mas na realidade não é de borla. O que acontece é que é subsidiado por outros negócios. No entanto, o regime gratuito só será para serviços básicos. Pelo contrário, se quiser serviço de alta velocidade tem de o pagar. Por isso, o que vai acontecer são duas velocidades: os pobres terão acesso a um serviço básico e gratuito, e os ricos pagarão por um mais avançado.

Qual é o segredo para triunfar na economia da Web?

W.M. - Inovar, inovar, inovar. Oferecer um serviço que não poderia ser feito no mundo físico. E continuamente reinventá-lo e mudá-lo. Modelos mais recentes tornaram rapidamente obsoletos modelos de negócio na Web que haviam nascido há menos de dois anos!

A vaga de empreendedorismo vai ser eclipsada pelo apetite de aquisições por parte dos tubarões?

W.M. - Eu creio que o empreendedorismo é mais poderoso. As aquisições, por vezes, liquidam o empreendedorismo, ainda que não seja essa a intenção. Há tanto talento, e mesmo capital, fora da lista tradicional das 1000 ou 2000 empresas globais, que nada poderá parar essa vaga. Os próprios investidores e capitalistas de risco estão a despejar cada vez mais dinheiro em boas e novas ideias.

O que é preferível para os tubarões da «velha» economia: criar rapidamente uma nova empresa autónoma para lidar com as novas realidades ou, pelo contrário, revolucionar por dentro, como defende Gary Hamel a contracorrente (na revista Harvard Business Review, de Setembro/Outubro 99, no artigo 'Bringing Silicon Valley Inside'), falando de optar por «spin ups» em vez de «spin outs»?

W.M. - Eu sou adepto de «spin offs». Uma grande empresa é uma grande empresa, mesmo se tiveram um grupo para a Internet lá dentro. Não é o mesmo que ter uma empresa nova, ágil, pequena e cheia de gás a explorar as novas oportunidades.

O MP3 é o futuro da indústria da música?

W.M. - É difícil combater uma ideia que bateu na hora certa. É definitivamente parte do futuro da música.

A WebTV também chegou no momento certo?

W.M. - Começou com alguma lentidão, devido a diferentes formatos e a guerras. Não é ainda um «standard». Tem que ser ainda mais simplificada, a meu ver.

20 TENDÊNCIAS A SEGUIR
  • Para cada sector económico há 5 a 7 novos mercados electrónicos inter-empresas a nascer - este tipo de mercados são 10 vezes mais do que o dirigido aos consumidores finais.
    Número a reter: o b to b (comércio electrónico inter-empresas) rondará os 1,3 triliões de dólares em 2003, enquanto que o b to c (comércio electrónico de consumo) andará pelos 108 biliões.


  • Não só os leilões na Web vão estar na moda - permutas, catálogos inteligentes de apoio a compras, cruzamento em tempo real de necessidades, negociação nas mais variadas formas.


  • O leilão do meu tempo de trabalho e das minhas competências vai emergir - veja o caso mais original em www.gurus.com.


  • A banca vai ser forçada a entrar em parcerias electrónicas com as jovens empresas financeiras nascidas na Web.


  • Cartão de crédito vai continuar a dominar os meios de pagamento na Web - o dinheiro digital não descolou.
    No entanto: o peso do cartão de crédito nestes pagamentos vai baixar de 90% actuais para 80% em 2003.


  • O NASDAQ poderá ultrapassar o NYSE, mas fique atento ao International Securities Exchange que vai arrancar em Março de 2000.


  • A linguagem XML (Extensible Markup Language) vai impôr-se na publicação na Web em relação à tradicional HTML.


  • Os lucros vão continuar a esperar - são precisos novos critérios para avaliar a rentabilidade da empresa na Web.


  • O marketing directo via email pode vir a ser mais lucrativo do que a publicidade na Web - a relação de eficácia chega a ser de 10 para 1.
    Números a reter: as respostas a partir de direct email rondam entre 5 a 15% do universo, enquanto que no caso dos célebres «banners» não ultrapassam a faixa entre 0,5 e 2%.


  • Os novos modelos de negócio nascidos na Web estão a ser obsoletizados rapidamente - o que era moda há 2 ou 3 anos já não é mais.
    A dança das modas: os portais substituíram a febre dos pioneiros directórios e das máquinas de procura, agora os «vortais» estão a eclipsar os portais.


  • Acesso à Net rápido e bons conteúdos terão de ser pagos.


  • Vaga de empreendedorismo não vai parar.


  • Criar uma empresa nova e autónoma para o negócio da Web é o melhor caminho para os grupos e empresas da velha economia.


  • Os PCs (computadores pessoais) vão ficar submergidos por uma galáxia digital de outros objectos numa relação de 1 para 10. A mobilidade - o «m» - vai tornar-se a palavra chave da moda.


  • O «standard» MP3 (de compressão de música) é imparável na Web.


  • A WebTV ainda tem um longo caminho para andar.


  • Máquinas vão ter capacidade de aprender.


  • Atacar um nicho global vale mais do que querer estar em todas.


  • A fidelização dos clientes pode começar a render mais do que a conquista febril de quota de mercado a todo o preço.


  • Computadores com emoções continuam no reino da ficção (pesadelo?).
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