A grande oportunidade

Jorge Nascimento Rodrigues com Walid Mougayar (walid@netcom.ca)

Versão ampliada do artigo publicado no Expresso/Economia

Wallid Mougayar Walid Mougayar é um veterano da Hewlett-Packard no Canadá, de onde saíu para dirigir um negócio de consultoria e formação na área do mundo digital, sendo presidente da CYBERManagement (www.cyberm.com), sediada em Toronto. Com base na sua experiência no terreno, desenhou uma metodologia em quatro passos para a implantação de um negócio na Internet: avaliação e compreensão do fenómeno; formulação da estratégia; implementação tecnológica; gestão do novo negócio.

Fruto deste conhecimento escreveu, em Dezembro passado, Opening Digital Markets (Compra do Livro), que rapidamente atingiu as listas de «best-sellers» e já vai na sua segunda edição, acabada de publicar pela McGraw-Hill. Walid subiu, então, ao estrelato dos gurus da economia digital.

Segundo os casos que tem acompanhado, algumas áreas de actividade são mais "sensíveis" às oportunidades da Net: novas abordagens de marketing, de vendas e de canais de distribuição; processos de vendas, administrativos e gerais; estratégias de fidelização de clientes; processos de geração de produtos; criação de conteúdos puramente digitais e sua manipulação com o objectivo de adicionar valor; processos de compras e de fabrico; relações com parceiros; gestão da cadeia de fornecedores.

Walid publicou, também, este ano um "dicionário" para gestores sobre esta nova área: The Business Internet and Intranets: A Manager's Guide to Key Terms and Concepts, editado na Harvard Business School Press.

O seu ponto de vista pode ser acusado de uma visão "americana" das coisas, sempre pronta a desancar sobre as miopias europeias. Mas vale a pena atentar nos argumentos deste recém catapultado guru canadiano da economia digital. O euro pode estar a cegar-nos para outras corridas, mais decisivas, do futuro.

Depois de Webonomics, ou de Net Gain (Compra do Livro), duas bíblias de referência do ano passado, convém ao leitor colocar-se em dia e digerir o que Walid tem a dizer para que o seu negócio "salte" já para a Internet e a Word Wide Web.

Numa entrevista exclusiva, concedida a partir de Toronto, no dia em que fazia 39 anos, Walid Mougayar desfaz mais algumas dúvidas.


Walid em directo

 

"O euro está a distrair a Europa da corrida digital"

Será que estamos a sofrer com uma «overdose» de novas tecnologias sucessivas em todas estas novas áreas da Internet, das intranets e do multimedia, que a gestão das empresas não consegue sequer acompanhar, quanto mais digerir?

WALID MOUGAYAR -- «Overdose» é a meu ver pouco para caracterizar a situação. Trata-se mais de uma autêntica indigestão! Vivemos uma verdadeira "anarquia digital" hoje em dia, devido à multiplicidade de soluções tecnológicas e à avalancha de mensagens que nos são despejadas pelos vendedores, mas que, no fim, não se relacionam nem interoperam entre si de uma maneira lógica. Mas, isto é uma situação "normal", a meu ver, dado que a Internet é uma concha de tecnologias "emergentes", muitas das quais ainda terão de amadurecer. Dito isto, o que os responsáveis de empresa podem fazer face a esta confusão temporária é construir um "painel de gestão", onde se vão colocando as diferentes peças à medida que vão surgindo.

Mas, de um ponto de vista pragmático, deveremos estar sempre "colados" à próxima solução tecnológica mais vanguardista, ou não?

W.M. - Acho que se pode assumir que já há tecnologia suficiente e começar a implementar, desde já, o que pretendemos neste novo mundo da Net e da Web. Na realidade, e não sou só eu que o digo, já há tecnologia que chegue e diversas opções que nos permitem arrancar com qualquer projecto, sem estar sempre nesse atentismo paralisante. Esperar pela solução ideal é errado - só servirá para desgastar a sua vantagem competitiva num mundo onde três meses podem representar uma diferença abissal! A formação dos executivos das empresas é uma questão chave para superar estas confusões e para melhor "digerir" o fluxo da tecnologia.

EDI não enche as medidas

Tem-se falado ultimamente de transacções digitais em crescendo e muita gente recorda que já há quem use a transferência electrónica de dados, o EDI, no acrónimo em inglês. Outros inclusive argumentam que junto da imensa maioria há que começar pelo EDI, antes de tudo o mais. Mas neste seu recente «best-seller», você insiste que não se confundam alhos com bugalhos e não se prendam as pessoas ao EDI. Porquê?

W.M. - A meu ver, o futuro da comércio electrónico está nas mãos da Net e não noutro sítio. No passado estava, de facto, no uso do EDI. Cada vez mais, o EDI se está a tornar numa pequena parcela do conjunto global de uma estratégia de comércio electrónico. Não enche as medidas. Se não é assim - vamos supôr que é o seu caso -, então você está ainda muito para trás, na corrida! Há diferenças básicas entre as duas coisas. O novo comércio electrónico é espontâneo, interactivo, muito mais generalizável, mais barato de arrancar, e inclui a criação de um verdadeiro mercado digital aberto, onde os compradores se encontram com os vendedores, sem a necessidade de estabelecer uma relação prévia. O EDI, como sabe, não permite nada disto.

Você fala inclusive de um "EDI Internet". O que é que isso significa concretamente?

W.M. - Essa mistura deriva do facto de eu não dizer que o EDI deva morrer. Há um papel a desempenhar pelo EDI, mas no formato Internet.

Porque é que, também, considera errado restringir o comércio electrónico a um trivial mercado de vendedores e compradores?

W.M. - Comprar e vender nesse novo mercado aberto foram as primeiras funções realizadas pelo comércio na Net. Agora, temos de ir mais longe, ainda que explorar toda essa gama do novo processo de compra e venda poderá entretê-lo proveitosamente durante muito tempo. Veja bem, quando juntamos os passos a dar no campo das compras e das vendas, chegamos a uns vinte completamente diferentes que poderão beneficiar com a Internet! Por isso, a questão estratégica é saber: que parte, que parcelas desse processo você vai fazer migrar para a Net? Como vê, tem aí muito com que se entreter.

Mas, o que é que deverá vir a seguir a esse primeiro passo?

W.M. - O comércio electrónico, a meu ver, inclui muito mais. Por exemplo: a criação de valor puramente digital num processo de produção que crie produtos e serviços de informação de alto valor acrescentado para revenda ou com o objectivo de ganhar vantagem competitiva usando a Net. Outro caso é o surgimento de novo tipo de intermediários totalmente alojados na Net, ou seja organizações que nos fornecem novos serviços de valor puramente digital, que se inserem entre os vendedores e os consumidores, e que cortejam estes com novas formas. Outro caso ainda é a criação de mercados puramente digitais, que envolvem várias formas, entre elas as tão faladas "comunidades", desde as comerciais, às bolsas virtuais, aos hipermercados virtuais, às organizações virtuais, às comunidades electrónicas verticais, e muito mais que ainda nem sonhamos.

As três desvantagens europeias

Mudando de assunto, uma afirmação sua muito polémica tem a ver com a Europa e a actual fase do euro. Aliás, algo parecido já foi dito, meio a rir, por Nicholas Negroponte: nós andamos entretidos à volta de uma moeda única física, enquanto que emergem nas nossas barbas novas unidades monetárias puramente digitais com a ambição de serem o padrão mundial daqui a alguns anos. Você pensa, de facto, que a agenda do euro poderá ter um impacto negativo no arranque, a sério, do comércio electrónico na Europa? Será que essa paixão pelo euro poderá produzir uma cegueira tal que o mercado digital se transformará para nós numa oportunidade perdida?

W.M. - Eu direi que a Europa sofre de três desvantagens, que terá de superar. Primeiro, de facto, toda esta euforia pela unificação em torno do euro poderá ser uma distração em relação à agenda estratégica do comércio electrónico e da própria moeda digital do futuro. Depois, a Europa não dispôs -e não dispõe - do mesmo fluxo de capital semente que as empresas e os negócios emergentes na Net e na Web dispuseram nos Estados Unidos nos últimos anos. Finalmente, os europeus, em geral, tendem primeiro a fazer grandes análises sobre o impacto social e cultural, algo que os americanos, sem dúvida, não fazem tão profundamente, o que leva a Europa a atrasar sempre a implementação de possibilidades inovadoras oferecidas pelas novas tecnologias. Os europeus têm de dar um salto de fé em relação ao futuro. De contrário, os Estados Unidos continuarão a dominar a Net e a Web.

Este ano de 1998 significará algo especial na agenda de afirmação do comércio electrónico? Ainda recentemente, Vinton Cerf e outros disseram que 98 é um ponto de inflexão, concorda?

W.M. - Penso que vamos na direcção certa. Se é ou não "o" ano, não me parece decisivo. Sem dúvida que atingimos um ponto de não retorno. A marcha para os mercados digitais é imparável- todos os dias surge um novo negócio na Net a ameaçar alguma coisa na economia tradicional. A questão de fundo é esta: será que você tem uma estratégia pró-activa de superar o seu próprio negócio tradicional, ou será que a Net o vai liquidar na próxima vez?


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