A VISÃO - UMA MARCA REGISTRADA CALIFORNIANA

Jorge Nascimento Rodrigues na descoberta da ilha da fantasia (1993)

A visão é, seguramente, uma marca registrada californiana. De facto, a Califórnia foi primeiro uma "visão", antes mesmo de ser um local no mapa político. Significava "ilha de fantasia", quando pela primeira vez Garcia de Montalvo escreveu o nome em romance, no ano de 1510. Depois, nos últimos duzentos anos, em definitivo, passou a mitologia, como destino final da corrida para o "far-west".

O "american dream" não pôde passar, nunca, sem a componente da visão californiana: desde a corrida ao ouro no séc. XIX e do lançamento dos "jeans" por Levi Strauss ao berço da indústria aeroespacial norte-americana criada por pilotos da I Grande Guerra, filhos da Califórnia do Sul, à Meca do cinema em Hollywood, à inspiração, entre outros, de Mark Twain, Jack London, ou John Steinbeck, ou aos afamados "Chardonnay" e "Pinot Noir" das Vinhas (da Ira?) de Napa e Sonoma.

Os recortes mais recentes do "Californian Way" têm como cenário a Bay Area. De facto, olhando em volta, do cimo dos "peitos da virgem índia" - as famosas colinas de Twin Peaks, no dialecto índio - avista-se toda uma vasta região em torno de S. Francisco que tem estado em foco desde o final dos anos 50. Foi o berço da geração "beat" de Ginsberg e Kerouac, e, mais tarde, na outra margem, em Oakland, nasceria o partido Pantera Negra.

Por outro lado, desde os confrontos de rua de 1978 que o movimento "gay" se afirmou com o colorido do arco-íris das suas bandeiras nas sacadas das janelas de S. Francisco, mas a fama planetária da Bay Area veio com o facto de ter sido o epicentro do "Choque do Futuro". O nome de guerra deste "terramoto" tecnológico e social é Silicon Valley, ao longo da Estrada Nacional 101.

Silicon não quer ser Detroit

Tudo começou, afinal, ainda nos 40 anos, com a visão de dois engenheiros que numa garagem das traseiras, em Palo Alto, fundariam a Hewlett-Packard. Mais tarde, Walt Disney "arriscou" comprar-lhes algumas das "gerigonças" e, nos anos 50, a universidade de Stanford lançaria as pedras de um parque industrial limítrofe, dentro da filosofia de criar "um túnel entre o laboratório e a garagem ou a fábrica".

A fórmula de pioneirismo de excelência funcionou e fez escola no mundo. Mas a "biologia" das actividades económicas impôs as suas leis: o tecido empresarial da "terceira vaga" atingiu a maturidade, assistindo-se, hoje, a um novo "terramoto", a que já se chama "a revolução dos 3 P - entretenimento pessoal, informação pessoal e comunicação pessoal". O primeiro filho californiano desta nova "quarta vaga" chama-se "Newton", vai ser lançado pela Apple, e é um PDA, acrónimo em inglês para "assistente pessoal digital". Fala-se, em suma, de ter "uma macrovisão", como espaço de cruzamento empresarial das fronteiras de actividades até hoje relativamente "segmentadas" em mercados próprios - computação, electrónica de consumo, comunicações, educação, cinema, vídeo e televisão.

É esta nova corrida que, subterraneamente, se desenvolve no Vale, assunto a que voltaremos com mais detalhe. Os californianos não querem, decididamente, que "Silicon se transforme numa Detroit", num cemitério de "chips", e acompanham, à distância, com algum nervosismo, o desenrolar do processo de falência dos Wang Lab e a agonia da "Route 128", perto de Boston, no Massachusetts. Contudo, a Bay Area não se resume ao Silicon. Nas zonas tradicionais da vinha, por seu lado, assiste-se à invasão dos "office parks" e das zonas de habitação para quadros. Só em Napa, em torno do aeroporto, há já 10 novos parques.

O charme do principal activo

Mas, a Bay Area não é só Inovação Tecnológica. Para muita gente, o seu principal "activo" de excelência é o "empenhamento com satisfação do cliente". Encontramo-lo por todo o lado no "terciário" - nas lapelas dos empregados da Musicland, das lojas de vendas de "jeans" ou de "ténis" na famosa Market Street de San Francisco, ou em sítios mais sofisticados como os armazéns Nordstrom, ou nos hotéis de Walnut Creek, onde uma placa com "a lei de ouro do sorriso" inspirou qualquer um.

Mas esse "activo" comanda, também, a indústria; a Apple fala do seu recente AQM, uma versão do TQM, e a Pacific Gas & Electric aprofunda a sua "métrica de conhecimento do cliente «real»". A Bay Area continua a ser, de facto, um laboratório da cultura pró-cliente.

Também em torno do charme desse activo, S. Francisco criou uma nova visão: ser a Genebra do Arco do Pacífico, potenciando não só o turismo de negócios e convenções mundiais, como tornando-se "uma voz activa no xadrez mundial e em particular neste Arco", nos desejos da sua Câmara de Comércio. A cidade não é propriamente uma debutante, pois já em 1945 viu nascer as Nações Unidas.

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