Vigo olla ao sur

Vigo mira cara al sur

Vigo olha para o sul

O porto galego sonha a utopia de vir a ser no século XXI a Barcelona
do Atlântico e quer transformar a cidade na capital económica indiscutível
do Noroeste Peninsular, que abrange a denominada euro-região da Galiza (Galicia) e Norte de Portugal, que se estende entre o Cabo Ortegal, a norte,
e o Rio Douro, a sul.
A estratégia de liderança pela desejada Área Metropolitana de Vigo, apesar
da sua massa crítica de 450 mil habitantes ser muito inferior à da Área Metropolitana do Porto (mais de 1 milhão de habitantes), é um elemento essêncial do xadrez geo-económico que tem de ser tido em conta pelos agentes económicos do lado de cá do Rio Minho.

Jorge Nascimento Rodrigues em Vigo numa mesa redonda organizada no Club Financiero Vigo pela Agência para o Investimento no Norte de Portugal

Entidades participantes:
Faculdade de Ciências de Lugo / Univ. de Santiago de Compostela
CEAGA | Consorcio Zona Franca de Vigo

Jogar nas complementaridades | O papel de ponte do Vale do Minho
Estudos da Associação Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular

Para além do postal ilustrado que os minhotos e os portuenses têm da Galiza, derivado da atracção turística das encantadoras Rías Baixas, da conhecida "colonização" portuguesa da zona balnear de Sanxenxo, dos caminhos portugueses de Santiago (de Compostela), do vinho Albariño (não confundir com o minhoto Alvarinho), das ostras e do "bonito" (atum) saboroso, há uma realidade emergente na geo-economia desta fachada atlântica.

Longe de Madrid

«Vigo olla ao Sur», diz-nos em galego Xoán López Facal, um químico da Faculdade de Ciências de Lugo, pertencente à Universidade de Santiago de Compostela. Xoán (João) é um apaixonado pela geo-economia, responsável por diversos estudos económicos sobre a importância do espaço económico transfronteiriço galaico-duriense.

Com 61 anos é um antigo conbatente anti-franquista, amante da música de Zeca Afonso, que hoje luta pela afirmação de um espaço económico supraregional nesta zona da Península Ibérica que permita à Galiza «superar a sua tradicional excentricidade económica e histórica» e afirmar a individualidade da sua língua, cultura e nacionalidade histórica no seio de Espanha.

Olhar para o Sul é a única estratégia ganhadora para a Galiza, e em particular para Vigo, uma cidade a apenas 30 quilómetros da fronteira portuguesa. «Galicia é marginal na economia espanhola e sempre teve más comunicações com Madrid e grande dificuldade de chegar à fronteira com a Europa e com o arco do Mediterrâneo. A importância da Região Norte de Portugal é incomparavelmente maior do que as relações económicas com os vizinhos das Astúrias e de Castela e Leão e a proximidade com Portugal, desde que a União Europeia aboliu as fronteiras, é natural», explica Xoán.

Os meios financeiros querem caminhar na mesma direcção. O imponente Club Financiero de Vigo criado em 1993 por 600 empresários e executivos da região faz valer o peso indiscutível do facto de 130 grupos sedeados na cidade concentrarem 48% da facturação empresarial galega. «Afirmar a liderança da cidade no desenvolvimento da Galiza e do Norte de Portugal» é o seu lema.

A vantagem sobre rodas

Entre as diversas "armas", Vigo dispõe de dois trunfos estruturantes no Noroeste Peninsular: o papel da localização da fábrica da Peugeot/Citroen que dinamiza um "cluster" automóvel responsável por 47% das exportações galegas, e os planos estratégicos da Zona Franca de Vigo, uma herança do final dos anos 40, que hoje encontrou novas vocações.

O "cluster" automóvel desenvolveu-se historicamente em torno da Citroen Hispania (pertencente ao grupo francês PSA) em Vigo desde o final dos anos 50, no início com as históricas furgonetas Citroen. Um sector de componentes para automóvel viria a afirmar-se como fornecedor de qualidade da fábrica e exportando 60%, incluindo hoje em dia a AutoEuropa, em Portugal, como cliente. «Para dar coerência a esta especialização, foi criado o Cluster de Empresas de Automoción de Galicia, que abarca 50 empresas galegas», refere Luis Moreno, director do Cluster, conhecido pela sigla CEAGA, que desenvolve serviços em torno da Investigação & Desenvolvimento, qualidade, formação, cooperação, normas ambientais e que inclusive lançou em conjunto com a Universidade de Vigo um original mestrado em gestão de empresas do sector automóvel, cujo primeiro ano se iniciou em Abril passado (2001).

O "cluster" tem olhado para Sul, procurando, além fronteira, espaços para deslocalização, de que a aglomeração mais significativa, por ora, se situa em Vila Nova de Cerveira, no Vale do Minho. «As próprias empresas portuguesas do sector de conponentes têm uma oportunidade para fornecimentos 'just in time' para a PSA em Vigo», acrescenta.

Nó Logístico

De impacto futuro muito significativo é o projecto estratégico de «consolidação de Vigo como nó central do Eixo Atlântico em termos logísticos», afirma Arturo Conde Aldemira, director do Consórcio Zona Franca de Vigo. Um estudo realizado por uma consultora holandesa apontou ao Porto de Vigo o objectivo de ganhar «uma projecção supraregional, como placa giratória de toda a Euroregião Galiza/Norte de Portugal, e internacional, como interface portuária para a América Latina, nomeadamente Caraíbas e Mercosul», adianta o nosso interlocutor.

O projecto, liderado pelo Consórcio da Zona Franca, implica, nomeadamente, a ampliação da área portuária de Bouzas, na frente marítima de Vigo, o aumento do número de "polígonos industriais" (equivalente aos nossos parques industriais e empresariais) ao longo da auto-estrada vinda de Portugal, e uma enorme Plataforma de Actividades Logísticas a localizar em Salvatierra de Miño/As Neves, junto à fronteira portuguesa perto de Monção. Esta última é um investimento de 15 mil milhões de pesetas abarcando uma área liquída gigantesca de 2,1 milhões de metros quadrados. «As ligações ao porto de Vigo e aos caminhos de ferro e auto-estrada para Madrid e para a fronteira europeia são uma vantagem competitiva que interessará, certamente, aos empresários portugueses do Norte», conclui o responsável do Consórcio.

GALIZA E NORTE DE PORTUGAL
JOGAR NAS COMPLEMENTARIDADES
As disparidades entre os dois lados da fronteira são importantes e têm de ser tomadas em linha de conta nas estratégias dos agentes económicos.

Os dados para a reflexão:
  • Produtividade do Norte de Portugal é 58% da galega
  • Norte de Portugal representa 46% das exportações galegas
  • Saldo comercial favorável à Galiza
  • Empresários galegos são mais sensíveis à geografia de proximidade
  • Forte expansão e deslocalização de grupos galegos para Portugal
  • Galiza "exporta" para Sul recursos humanos qualificados e Norte de Portugal "exporta" para o outro lado mão de obra não qualificada


  • Um primeiro dado que choca o observador português é o desnível de produtividade entre as duas regiões - em média, a produtividade do Norte de Portugal é 58% da galega, apesar do lado português contar com mais 600 mil activos do que o lado galego (baseado no estudo de Xoán López Facal, para dados de 1997). Cada um dos 900 mil trabalhadores galegos produziam em 1997 um VAB de 27.476 euros, enquanto que cada um do 1 milhão e 600 mil trabalhadores do Norte de Portugal só produziam 16.121 euros.

    Apesar dos níveis salariais no Norte de Portugal serem 40% mais baixos (6909 euros de salário em média para a indústria transformadora do Norte de Portugal e 17056 euros para a galega) e de se contar com uma mão de obra mais jovem (a taxa de natalidade na Galiza é metade da da Região Norte de Portugal ), convidando à deslocalização dos grupos galegos, há um problema estrutural de produtividade nas regiões minhota e duriense que os executivos do lado de lá da fronteira têm superado com mão de obra qualificada galega e com muita formação dos trabalhadores portugueses.

    Os empresários galegos, mesmo os das PME, são, também, mais "sensíveis" à vantagem da proximidade geográfica e às potêncialidades logísticas, segundo um inquérito realizado para um estudo conjunto do Centro de Estudos de Gestão e Economia Aplicada do Centro Regional do Porto da Universidade Católica e do Centro de Investigação Económica e Financeira da Fundación Caixa Galicia.

    Este facto traduz-se neste outro número chocante: o Norte de Portugal representa 46% das exportações galegas e o saldo comercial favorável à Galiza vem-se acentuando desde 1996. Exemplos emblemáticos deste "olhar a sul" são citados regularmente: Zara (do grupo Inditex), Megasa, Finsa, Caixa Galicia e Televés, além dos mais de 7 milhões de contos investidos no Vale do Minho português. Do lado português, refira-se a visão de grupos como a Sonae (que adquiriu a Tafisa), a Cimpor (que comprou o Grupo Corporación do Noroeste) e a CGD (que adquiriu o Banco Simeón).

    A própria comutação transfronteiriça é simbólica quanto ao desnível de competências na mobilidade da mão de obra - da Galiza vêm diariamente quadros qualificados para empresas e entidades públicas (como é o caso de médicos e enfermeiros) e do Norte de Portugal migra sazonalmente mão-de-obra não qualificada para a construção civil, o comércio e a hotelaria galegas.

    Contudo, a região Norte portuguesa pode jogar alguns trunfos, que são abertamente reconhecidos pelos vizinhos galegos - a maior propensão à globalização por parte das empresas portuguesas, mesmo das PME, o cosmopolitanismo e grande qualidade dos quadros superiores, e a mais valia do aeroporto de Pedras Rubras (Porto), que já é um íman importante para executivos, empresários e turistas galegos.

    Os galegos afirmam que o único caminho é jogar nas complementaridades e têm procurado fazê-lo. Um dos projectos de parceria mais interessantes poderá ser o de "sincronizar" os "clusters" automóveis dos dois lados da fronteira, em que estão envolvidos o CEAGA e o CEIIA, do lado português.
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