O renascimento de um distrito industrial histórico

O Vale do Ave (Minho) renasce da crise visto pela Ardina na Web
de volta ao Portugal que Mexe

Jorge Nascimento Rodrigues na Pousada de Santa Marinha (com Guimarães ao fundo),
numa mesa redonda organizada pela Associação dos Municípios do Vale do Ave
e pela Agência para o Investimento no Norte de Portugal

Protagonistas institucionais:
Universidade do Minho | Amave | Lameirinho | Simoldes | Kyaia | APICCAPS
Câmara Municipal de Guimarães

Casos anteriores do Portugal que Mexe
 A nova Aposta do Norte | Braga | Aveiro | As metanacionais portuguesas 
Novo fôlego no sector dos moldes (Marinha Grande)

IDEIAS CENTRAIS A RETER
  • O Vale do Ave é um dos distritos industriais históricos do país com homogeneidade geográfico-económica que pode apostar na sua individualidade no quadro do Noroeste Peninsular
  • O caso do Ave mostra a renovação possível de especializações históricas, como os têxteis (sucesso no sector dos têxteis-lar) e o calçado (um 'cluster' porteriano completo que sofreu uma mudança profunda nos últimos 20 anos)
  • O Vale do Ave está a potênciar o papel do pólo em Guimarães da Universidade do Minho, criando condições para novas especializações em competências, como os polímeros e a computação gráfica
  • Os polímeros podem ser uma nova especialização do tecido industrial do Ave com base no cruzamento de sectores históricos, como os têxteis e o calçado, com os plásticos com vista ao 'cluster' do automóvel português e galego
  • Bandeiras negras, salários em atraso, desindustrialização, «bólides» de luxo e o estigma «das saídas precoces da escola por parte da população jovem local» (eufemismo, nos estudos dos sociólogos e estrategas, para trabalho infantil) eram a imagem de marca de vários distritos industriais históricos do nosso País, e em particular no Norte duriense e minhoto no período de crise de finais dos anos 80 e princípios dos anos 90 do século passado.

    O Vale do Ave reclama, agora, que essa época está, no essêncial, encerrada, apesar de acontecimentos episódicos e dos contrastes sociais acentuados que se mantém.

    O Ave quer afirmar-se como um distrito industrial renovado com uma individualidade própria no Noroeste Peninsular, capaz de se distinguir no xadrez complexo desta euroregião atlântica, enquadrada pela pressão da Galiza, a norte, e pela atracção da Área Metropolitana do Porto, a sul.

    O DISTRITO INDUSTRIAL DO AVE NUM MINUTO
  • Meio milhão de habitantes
  • 8 munícipios (Trofa, V.N. Famalicão, Santo Tirso, Vizela, Guimarães, Fafe, Póvoa de Lanhoso e Vieira do Minho)
  • 2º Plano Estratégico (2001-2007): 450 milhões de contos de investimentos, sobretudo acessibilidades e ambiente, 47% em parceria com privados e 53% pela Administração Central e municípios
  • Imagem de distrito industrial
  • Especializações históricas renovadas: têxteis-lar e calçado
  • Especializações emergentes: polímeros e computação gráfica, com base no Pólo de Guimarães da Universidade do Minho
  • Oportunidades de «cruzamentos» entre sectores industriais com vista ao fornecimento do «cluster» automóvel
  • Criação de um Parque Tecnológico (Tech Park) nas Caldas das Taipas (15km de Guimarães e de Braga)
  • «Deparavámos com uma imagem de região de crise a todos os níveis, de degradação, com uma indústria envelhecida e com um ambiente socialmente penalizado», refere António Magalhães, presidente da Associação dos Municípios do Vale do Ave (AMAVE), e também presidente da Câmara Municipal de Guimarães. «Era imperioso reagir ao clima de desindustrialização e mudar radicalmente a imagem», salienta, explicando o passo então dado de arrancar com um Plano Estratégico para o Desenvolvimento do Vale do Ave, cuja primeira fase decorreu entre 1994 e 1999. Um dos «ex-libris» deste primeiro plano centrou-se no terreno ambiental, com o lançamento e consolidação de um Sistema Integrado de Despoluição do Vale do Ave, a que estão ligadas hoje mais de 300 empresas.

    Evitar a fragmentação

    Da carteira de projectos para o século XXI, listados no 2º Plano Estratégico, entretanto elaborado com o horizonte de 2007, contam-se, agora, a implantação de um Parque de Ciência e Tecnologia - já baptizado de Tech Park - com 90 hectares nas Caldas das Taipas (e com um investimento global previsto de 2,5 milhões de contos em infraestruturas), a meio caminho entre Braga e Guimarães, e o reconhecimento (provável em Dezembro) do centro histórico de Guimarães - a cidade-berço de Afonso Henriques e da Nação portuguesa - como património histórico da Humanidade pela UNESCO.

    Ao Tech Park poderá vir a estar associada a localização de um centro tecnológico ligado ao projecto de atracção da Pininfarina para o Norte de Portugal, o que colocaria o Vale do Ave, definitivamente, no mapa do «cluster» ibérico e mundial da indústria automóvel.

    O que está em jogo, no plano estratégico, é «dar coesão a um distrito industrial típico, evitando a fragmentação, articulando a nossa especialização com outros 'clusters' do Noroeste Peninsular e do país, e potenciando, de um ponto de vista científico e tecnológico, o pólo em Guimarães da Universidade do Minho», sublinha, por seu lado, Martins Soares, administrador-delegado da AMAVE e organizador desta mesa redonda, que juntou, também, duas empresas que podem simbolizar, a título de exemplo, a renovação do tecido histórico industrial do Vale.

    O calçado é, segundo alguns analistas, um dos sectores que sofreu uma modificação mais profunda nos últimos vinte anos e que contribuíu, significativamente, para o renascimento do Vale do Ave. «Somos hoje um pólo consistente, fortemente exportador, que se modernizou tecnologicamente, e relativamente completo em termos de 'cluster', no sentido dado por Michael Porter, pois vamos desde as máquinas, à embalagem, ao fabrico até ao estilismo próprio», afirma Fortunato Frederico, presidente da APICCAPS (Associação Portuguesa das Indústrias de Calçado, Componentes e Artigos de Pele e seus Sucedâneos) e da Confederação Europeia do Calçado, que criou, em 1984, na localidade de Penselo, a Kyaia - uma fábrica de calçado - que hoje factura mais de 3 milhões de contos e exporta 90% do seu fabrico. Fortunato, ainda recorda, a rir, os tempos em que lia o livrinho vermelho e, mais recentemente, as muitas experiências de deslocalização para fora de portas. O seu mais recente alvo estratégico é o Vietname.

    O presidente da APICCAPS lamenta a falta de quadros técnicos intermédios (aquilo a que Peter Drucker chamava os tecnólogos do terreno) para uma indústria que é cada vez mais «tecnológica» e de valor acrescentado. A trilogia informática, qualidade e estilismo é a chave da competitividade desta indústria renovada e Fortunato Frederico espera que o sector do calçado possa desenvolver «um maior relacionamento com a Universidade do Minho».

    O outro sector de marca do Ave é o têxtil e vestuário, que passou por muita turbulência. «Essa fase obrigou algumas empresas e grupos a uma nova abordagem estratégica e ao desenvolvimento de uma nova mentalidade empresarial», refere, por seu lado, Sandra Guimarães, responsável pelo departamento de marketing da Lameirinho, criada nos anos 60, e que hoje é uma referência mundial nos têxteis-lar, em particular nos Estados Unidos. Com mais de 16 milhões de vendas anuais e exportando 85% da produção, esta empresa é um dos exemplos de uma nova focalização num sub-sector que se afirmou como «um complemento essêncial da decoração e que tem tido um enorme êxito na exportação», conclui.

    Novas especializações

    A parceria com a Universidade do Minho, outro dos pilares do Plano Estratégico da AMAVE, começa a dar os seus primeiros frutos. Um grupo como a Simoldes (historicamente nascida nos moldes, como o próprio nome indica, em Oliveira de Azeméis) está a olhar com extrema atenção para uma nova especialização em competências emergente no Ave, a partir do Departamento de Engenharia de Polímeros do Pólo de Guimarães daquela Universidade. O grupo português multinacional tem uma forte divisão de plásticos e olha os polímeros (uma designação vulgarmente utilizada para os plásticos, que os usam intensivamente) como uma oportunidade nomeadamente para o desenvolvimento do «cluster» português das componentes de automóvel.

    O pioneirismo daquele núcleo universitário é elogiado por Manuel Alegria, director da Simoldes Plásticos, que preside à direcção do Pólo de Inovação em Engenharia de Polímeros (PIEP), entretanto criado com a Universidade em Guimarães, e que envolve como sócios a Câmara da cidade, a Associação Empresarial de Portugal, a Associação Portuguesa das Indústrias de Plásticos e mais de duas dezenas de empresas do sector. O projecto de implantação deste pólo no «campus» universitário de Azurém implica um investimento de mais de 3 milhões de contos e disporá de uma zona de processamento industrial, de laboratórios e de um centro de CAD/CAE. «O Departamento de Polímeros é a entidade de maior saber na Península Ibérica nesta área, já reconhecido pela própria Galiza e por Espanha. O próprio cruzamento deste saber com sectores históricos do Ave, como os têxteis e o calçado, é outra oportunidade. No automóvel mais de 50% das componentes são hoje plásticos e novos materiais, inclusive derivados do têxtil e até do calçado», sublinha Manuel Alegria.

    A relevância mundial do Departamento de Polímeros universitário vai levar à organização em Junho do próximo ano de uma Conferência Internacional, chama a atenção António Cunha, director desse departamento, que sublinha, ainda, «outra mais valia do pólo de Guimarães - a computação gráfica». Trata-se de outra competência muito importante para a indústria, e nomeadamente para o sector automóvel. António Cunha refere a criação na Universidade do Minho do Centro de Computação Gráfica em parceria com um similar - o ZGDV - em Darmstadt, na Alemanha, que é referência europeia, e o pioneirismo na área da realidade virtual e aumentada.

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