A saída de Bill Gates significa o quê?

As respostas de Wendy Rohm a Jorge Nascimento Rodrigues em New York

 Artigo de Wendy sobre a saída de Gates | Comentário ao livro The Microsoft File 

Versão mais reduzida publicada no Expresso em 29/01/2000

Wendy Goldman Rohm Uma das espinhas literárias atravessadas na garganta da Microsoft é o «best-seller» de há dois anos (1998) desvendando os pormenores do que então foi considerado de «práticas monopolistas ilegais» da líder do software. Pormenores da vida íntima da empresa, como as célebres trocas de «email» sobre como dar a volta a concorrentes ou aliados, vieram para a praça pública e o que dantes era dito entre-dentes passou a ser referido abertamente.

The Microsoft File, de que falámos aquando do seu lançamento (a apresentação pode ser lida aqui na Janela na Web, catapultou para a ribalta a escritora Wendy Goldman Rohm, que, agora, com a saída de Bill Gates da liderança formal da empresa, voltou a ser procurada pelos «media». O influente The New York Times prepara uma extensiva peça sobre Rohm que é aguardada com alguma expectativa.

Entretanto, a autora foi acrescentando «on line» novos capítulos ao livro no «site» da Fatbrain.com (paradoxalmente propriedade de Paul Allen, o co-fundador da Microsoft nos idos anos 70) e poderá vir a publicar uma edição actualizada.

Wendy Rohm publicou mais recentemente um outro livro com a empresa de Gates em pano de fundo, intitulado Under the Radar: How Red Hat Changed the Software Business and Took Microsoft By Surprise, e está actualmente a escrever um livro sobre Rupert Murdoch, intitulado The Giant in the Bushes que será publicado no próximo ano.

Os primeiros sinais no reino da Microsoft

Continuam a fazer-se apostas sobre as razões que levaram aos 44 anos o fundador da Microsoft a passar, desde 13 de Janeiro, para detrás do palco, procurando salvar a face e restaurar a sua áurea lendária do mais bem sucedido jovem empreendedor do «hi-tech» do século XX.

Para Wendy Rohm, num artigo - «Saving the Face: The Recasting of Bill Gates» (ler aqui) - que publicou logo após o anúncio desta decisão estratégica, o primeiro sinal do recuo pode ter sido o desfecho recente do litígio com a empresa Caldera que o gigante do software resolveu com uma «reparação» de 275 milhões de dólares. Neste processo, que subiria a julgamento a 1 de Fevereiro, a Microsoft era acusada de ter matado a concorrência no mercado do DOS.

A divulgação agora dos «Finding of Facts», muito duros e incisivos, do juiz Jackson, encarregado no célebre caso federal «anti-trust» contra a Microsoft, e as conjecturas que se fazem sobre o futuro da empresa, levaram já ao desenho de cenários que chegam a falar de um mosaico de múltiplas Microsoft, de que a recente autonomização da Expedia.com seria mais um «sinal», segundo a Business Week de 31 de Janeiro de 2000 (no comentário de Steve Hamm intitulado «Multiple Microsofts may be better than one»). Os analistas vaticinam mesmo que o mercado de capitais ficará eufórico com este corte da morcela e que cada parte de per si ainda será mais lucrativa!

 O comentário de Steve Hamm na Business Week 

A opinião pública começa a aperceber-se de que não se trata de tentar bater a Microsoft na secretaria do Tribunal, mas que há «matéria de facto que mostra a nu as práticas de 'trust' da Microsoft», diz-nos Wendy Rohm. «O que está errado não é ser monopólio. A própria lei anti-trust americana não o considera ilegal se for alcançado por via de uma competência superior e de práticas de negócio legítimas. O que é ilegal é querer mantê-lo ou estendê-lo através de práticas predatórias e anti-concorrência», acrescenta. Segundo ela, Steve Ballmer, que, agora, surge na primeira linha, parece ter um comportamento mais «razoável» e diz-se que «muitas vezes repreendeu Gates em privado».

O fim de uma Era predatória

Nestas declarações, Wendy Rohm fez votos para que este recuo estratégico signifique o «fim da Era predatória da Microsoft». «O que não é o mesmo do que o fim da Era Microsoft, dado o enorme poder de monopólio que ainda detém», sublinhou logo de seguida. Ela acha a resignação de Gates «um facto extremamente positivo para a empresa», mas mete um «se»: «se ele deixar, de facto, Ballmer dirigir o 'show' e se a Microsoft proceder a uma série de grandes mudanças nos próximos meses».

O efeito global de tudo isto é simples para Wendy Rohm: «Se a Microsoft for forçada a parar com as suas práticas ilegais e ter de competir com lealdade a nível mundial, certamente que a inovação e as opções de escolha do mercado vão disparar. Empresas que dantes não entravam em novos mercados por terem medo do pé da Microsoft, vão fazê-lo - e só temos todos a ganhar com isso».

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