O triunfo dos lobos solitários

Um grupo de países pequenos e médios espalhados pelo mundo conseguiram destacar-se no final do século XX como as mais bem sucedidas "transições" para a economia do conhecimento que irá dominar o século actual. Em comum, poderá estar uma postura de "lobo solitário", cultivador da sua identidade, mas pragmático, cosmopolita e aberto à globalização.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, na Conferência do Capital Intelectual dos Territórios em Paris, Junho de 2005

O título pode parecer bizarro aos leitores. Mas foi a metáfora escolhida por um economista do Banco Mundial (BM) para explicar a razão da Finlândia ser número um no "grau de preparação para a economia do conhecimento" - um indicador construído pelo Instituto daquele Banco. Segundo a ferramenta desenvolvida pelo programa "Conhecimento para o Desenvolvimento" do BM - e disponível em www.worldbank.org/kam - aquele país escandinavo surge como o quase modelo perfeito nas 14 variáveis estudadas ligadas ao conceito de economia do conhecimento.

A explicação é paradoxal: "A Finlândia faz lembrar um lobo solitário. No plano cultural, conseguiu, num dos extremos da Europa, conciliar as culturas do Ocidente e da Ásia. Desenvolveu um pragmatismo excepcional e um sentido comunitário muito forte, o que lhe permitiu um grau de identidade assinalável e um consenso para a estratégia definida quando se abriu a janela de oportunidade", explicou Jean-Eric Aubert na primeira Conferência Internacional sobre Capital Intelectual das Comunidades na Economia do Conhecimento, organizada por Ahmed Bounfour e Leif Edvinsson com o apoio do Banco Mundial, que decorreu esta semana em Paris.

O mundo é plano

Esta metáfora do "lobo solitário", roubada à antropologia, foi, depois, estendida pelo economista do BM à ideia de "espírito de ilha aberta", que teria impulsionado os ingleses na Revolução Industrial e na primeira vaga de Globalização capitalista, os japoneses nos anos 1970 e 1980 e, de seguida, outros países pequenos e médios espalhados pelo mundo, como a Coreia do Sul, Taiwan, Singapura, Irlanda e Finlândia, que apresentam, hoje, um grau de preparação elevado para a economia do conhecimento. Leif Edvinsson, o inspirador da corrente do "capital intelectual dos territórios", agregaria que o ponto forte destes "lobos solitários" é o seu "capital relacional", a sua capacidade geo-estratégica "de actuar na zona da penumbra, de descobrir, no globo, os vizinhos certos, estejam eles onde estiverem, já que o mundo hoje é plano". Jay Chatzkel, autor norte-americano ligado às revistas da especialidade neste tema, e um apaixonado de Portugal, diria, na Conferência que "os portugueses de Quinhentos foram os primeiros a perceber esta postura estratégica".

No entanto, cultivar esta liderança não é fácil. Depois de uma década do fenómeno finlandês, as vulnerabilidades começam a vir à tona. A investigadora Pirjo Stahle, da Universidade de Lappeenranta, na fronteira com a Rússia, interrogar-se-ia sobre a dependência extrema da "performance" finlandesa em relação à Nokia (21% das exportações, 35% da investigação, cerca de 3% do PIB), "um caso único no mundo". Os coreanos do sul, por isso, ressaltam a sua maior base de apoio num leque de multinacionais e a sua aposta muito forte em "novos indicadores da economia do conhecimento", ligados ao capital relacional - a sua rede de diáspora mundial de quadros e empreendedores de alto nível, o desenvolvimento do governo electrónico, a massificação da banda larga e do sem fios. "Taipé, argumentou Se-Hwa Wu, reitor do Colégio de Comércio da Universidade Nacional Chengchi, é a cidade mais 'móvel' do mundo. Cafés e bibliotecas são hoje o maior ponto de encontro mundial sem fios".

O segredo nórdico

A OCDE trouxe a esta Conferência o debate sobre o segredo nórdico em matéria de economia do conhecimento. Numa abordagem diferente da do BM, com um leque de indicadores mais estreito, os estudos desta organização internacional têm salientado a liderança de três países - Suécia, Dinamarca e Finlândia. Para além do esforço na componente de maquinaria e equipamentos da formação bruta de capital fixo (FBCF), estes países deram um salto muito assinalável no investimento em conhecimento entre 1995 e 2001, em particular nas vertentes da investigação & desenvolvimento pelas empresas e no aproveitamento da revolução da informação. O seu esforço neste capítulo foi o triplo ou o quadruplo do realizado em maquinaria e equipamento, ao contrário do que sucedeu em Portugal, o país da OCDE estudado onde a dinâmica foi mais acentuadamente a inversa, segundo o estudo apresentado por Mosahid Khan, economista daquela organização.

Numa análise mais fina, utilizando a ferramenta do Banco Mundial para uma comparação entre Portugal e a Finlândia (http://info.worldbank.org/etools/kam2005/weighted/scorecard_std_modes.asp), verificamos que os pontos mais fracos do nosso país se situam a nível das patentes e da iliteracia na população acima dos 15 anos.

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