A hora dos territórios

Observatório sobre duas visões distintas - da Europa
e dos Estados Unidos

A reformulação da "Agenda" de Lisboa abriu uma janela de oportunidade para o desenvolvimento das metrópoles europeias baseadas na economia do conhecimento. Nos Estados Unidos há uma nova revolução urbana e demográfica relatada pelo bestseller «Boomtown USA».

Uma Reportagem de Jorge Nascimento Rodrigues na Conferência sobre Prospectiva dos Territórios na Europa, realizada em Lille, França, em Setembro de 2005, e uma entrevista com o autor norte-americano de «Boomtown USA». Versões reduzidas foram publicadas no semanário português Expresso, no Caderno de Economia, secção de Gestão & Tecnologia. Uma entrevista completa com Jack Schultz será publicada na obra «Mestres da Gestão» (2ª edição) a publicar pela Editora Centro Atlântico no ultimo trimestre de 2005.

I - O Que se passa na Europa?
Reportagem em Lille, Setembro 2005

As áreas metropolitanas, territórios por excelência da organização do tecido económico e de criação de massa crítica em competências e interacção social, são actores da globalização tão importantes como os Estados-Nação. São, também, a principal "ferramenta" para a transformação da Europa numa economia do conhecimento até 2010, o objectivo da designada Agenda de Lisboa, aprovada em Março de 2000 aquando da presidência portuguesa da União Europeia.

Sob este lema, 400 especialistas em desenvolvimento local e regional, sobretudo do mundo francófono, reuniram-se durante dois dias em Lille, no Norte de França, discutindo a estratégia e os resultados de casos de estudo de "territórios do conhecimento", no âmbito da 2ª Universidade de Verão da Prospectiva Territorial na Europa, organizada pelo DATAR (uma agência francesa para a gestão do território e da acção regional).

A abertura recente da Agenda de Lisboa a "uma territorialização das suas prioridades e mecanismos", defendida por Maria João Rodrigues, a portuguesa que preside ao grupo europeu de aconselhamento para as Ciências Sociais e Humanidades junto da Comissão Europeia, arrancou uma salva de palmas. Apresentada em Lille como a "Madame do Processo de Lisboa" (em virtude do seu envolvimento em 2000 na Agenda), a ex-ministra sublinhou "o papel decisivo do nível local e regional e do envolvimento da sociedade civil para o desenvolvimento de uma economia do conhecimento".

Esta perspectiva das regiões metropolitanas sentirem as "costas quentes" pelo provável apoio dos Fundos Estruturais foi reforçada por Guy Durand, da Direcção da Política Regional da Comissão Europeia, que chamou à atenção para a janela de oportunidade que se abre.

Uma guerra aguda

A "guerra" pelo posicionamento nos territórios do conhecimento da Europa é muito aguda. Isoladas na primeira divisão estão duas cidades globais - Londres e Paris -, seguidas por 16 áreas metropolitanas consideradas "motores europeus" (em que se situam Madrid e Barcelona, na Península Ibérica), por uma terceira divisão de metrópoles de grande crescimento (como Helsínquia, Dublin, Atenas e Oslo) e por uma quarta coroa com "potencial", em que se encontra Lisboa, na companhia por exemplo de Bilbau, Valência ou mesmo Lille, segundo a cartografia geo-económica de 76 espaços metropolitanos da União Europeia gerada pelo European Spatial Planning Observation Network (ESPON).

Ver aqui a Cartografia metropolitana da UE

Não admira, por isso, que todas as regiões metropolitanas, das mais pequenas às maiores, lancem projectos que lhes permitam subir de divisão. Um dos casos que foi muito debatido num dos "workshops" temáticos foi o de Madrid, que pretende até 2015 ser a "Ponte Atlântica" baseada no conhecimento (ver caixa).

Uma cidade que "surpreendeu", nos últimos anos, foi Haia, na Holanda, que conseguiu "criar uma diferenciação internacional, algo inesperada, em torno de uma especialização jurídica global", segundo referiu Joost Van Iersel, presidente da Fundação dos Amigos da Metrópole em Delta da Holanda (conhecida por Randstad).

Voluntarismo duvidoso

A França é um dos países onde o tema da afirmação dos territórios metropolitanos baseados na economia do conhecimento está na ordem do dia política e tem provocado o lançamento de "medidas voluntaristas". O governo do hexágono criou propositadamente um Observatório dos Territórios e tem desenvolvido uma política de fomento de "pólos de competitividade" através da cooperação metropolitana. Estes pólos foram classificados em três categorias - mundiais, de vocação mundial e nacionais, ao todo 67, a que o DATAR atribuiu um selo.

Consultar aqui a Rede de Pólos de competitividade de França

Esta visão foi considerada por alguns especialistas como "excessivamente planificadora". "É praticamente impossível postular o que vai ser um pólo de competitividade no futuro. Eles, em regra, emergem espontaneamente pela iniciativa dos actores. O que é importante é que as autoridades oficiais apoiem o que emerge, e não o façam de um modo artificial, idilicamente planeado", afirmou Daniel Kaplan, presidente da Fundação Internet Nova Geração.

«É praticamente impossível postular o que vai ser um pólo de competitividade no futuro. Eles, em regra, emergem espontaneamente pela iniciativa dos actores. O que é importante é que as autoridades oficiais apoiem o que emerge, e não o façam de um modo artificial, idilicamente planeado.»

Também a ideia hoje muito em voga da diferenciação através de uma estratégia de criação de "cidades e regiões criativas" defendida pelo norte-americano Richard Florida recebeu encómios - nomeadamente pelo caso do "Distrito da Criatividade" da região de Flandres na Bélgica (Flanders District of Creativity) - e críticas apaixonadas sobre "o afunilamento que provoca essa ultraespecialização nas indústrias culturais e do turismo", como referiu Ludovic Halbert, da Universidade de Paris 1.

O urbanista norte-americano Joel Kotkin acusou, ainda recentemente, essas estratégias de gerarem a deslocalização dos "clusters" industriais e tecnológicos para a periferia suburbana e a fuga da classe média, criando metrópoles a duas velocidades - a dos condomínios de uma elite e a outra de miséria e marginalidade no centro urbano.

Vantagem dos vizinhos

Uma das estratégias mais elogiadas foi a da criação de novos espaços de economia do conhecimento baseados em "distritos transfronteiriços".

Vários casos foram discutidos, situados na Europa Central e do Norte:

- «Distrito europeu do conhecimento» de Nord-Pas de Calais/Bélgica, agregando a metrópole de Lille (em França) e quatro cidades da Valónia e da Flandres belga, nomeadamente Bruges. Funciona uma Conferência Permanente Intercomunal Transfronteiriça (CoPIT). A logística é um dos pontos fortes.

- «Região do Conhecimento» de Oresund, agrupando a região metropolitana de Copenhaga (na Dinamarca) e de Lund e Malmo, no sul da Suécia. Informação na Web. O "Medicon Valley", na área da saúde, biotecnologia e farmacêutica, é ponto forte.

- «Euroregião» SarrLorLux, abrangendo o quadrilátero das regiões limítrofes da Lorraine francesa, do Luxemburgo e do Sarre e Renânia-Palatinado alemães, abrangendo as áreas metropolitanas de Luxemburgo, Metz, Saarbrucken e Trier. Os transportes e as telecomunicações são as áreas de eleição. Informação na Web.

- «Biovaley», um corredor trinacional entre Basel, na Suíça, Friburgo e Karksruhe, na Alemanha, Mulhouse, Colmar e Estrasburgo, em França. Especializado nas áreas da farmacêutica e biotecnologia, com âncoras como Novartis, Roche e Aventis. Informação na Web.

Madrid 2015: "Puente Atlántico"

A capital espanhola está entre as 16 áreas metropolitanas consideradas "motores europeus", mas quer subir à primeira divisão, passar a "cidade global", como são Londres e Paris. Para tal, tinha de encontrar a sua especificidade geo-estratégica e diferenciar-se de cidades da mesma divisão com ambições globais como Amsterdão ou Bruxelas, e distanciar-se significativamente de Barcelona. O exercício de prospectiva "Madrid 2015" dirigido por Emilio Fontela, reitor da Faculdade de Ciências Económicas da Universidade Antonio de Nebrija, permitiu "descobrir" a vocação global - ser a ponte atlântica entre a Europa e o mundo de língua e cultura castelhana.

O trabalho, realizado ao longo de um ano para a "Consejeria" de Economia e Inovação Tecnológica da Comunidade Autónoma de Madrid (CAM), foi um dos casos de estudo discutidos nesta Conferência em Lille. Um dos cenários desenhado pela equipa de Fontela aponta para Madrid "Cosmoregião", com diversas ambições: ser a capital do Sul do continente, transformar-se na praça financeira dos países de língua castelhana, consolidar a posição de polo logístico e estratégico do investimento directo estrangeiro no Sul da Europa e na ligação com a América Latina. Paralelamente, Madrid quer afirmar-se como uma "região científica" europeia, forte na convergência tecnológica (das áreas de nanotecnologia, biotecnologia, informação e ciências cognitivas) e na atracção de talentos do mundo de língua castelhana, inclusive fazer regressar a diáspora espanhola qualificada a trabalhar ou estudar nos Estados Unidos.

Com esta dinâmica, a CAM espera aumentar a sua própria população, atingindo os 6,9 milhões de habitantes daqui a dez anos - quase um milhão a mais que hoje. Nesta lógica de atracção, Emilio Fontela ironizou: "As crises na América Latina são uma fonte inesgotável de talento para nós - veja-se o que aconteceu com a imigração de argentinos para Madrid aquando da crise naquele país".

Fontes:
- www.nebrija.com/prospectiva-madrid-2014/index.htm
- www.nebrija.com/prospectiva-madrid-2014/documentos-prospectiva/sintesis.pdf

II - O Que se passa nos EUA?
Review do "bestseller" Boomtown USA em Setembro de 2005

A América dos Pequeninos

A emergência das cidades rurais norte-americanas como pólos de empreendedorismo e de fixação da "classe criativa".

Sítio da obra | Blogue de Jack Schultz

Há uma América dos "pequeninos" economicamente emergente que renasce num novo espaço de urbanização do século XXI. São nomes de comunidades rurais que o leitor nunca ouviu falar, onde empreendedores lançam novos negócios, incluindo de alta tecnologia, e os projectam globalmente, colocando essas antigas localidades de "moços de aldeia" (classificação depreciativa) no mapa mundo. Em contraste, cidades outrora emblemáticas do empreendedorismo e da fixação do que Richard Florida designou por "classe criativa", como São Francisco, perdem terreno. Esta constatação foi feita por Jack Schultz, um especialista em desenvolvimento imobiliário, que acabou de publicar Boomtown USA, um livro sobre o que o autor designa de "agurban", a nova tendência de urbanização.

Os louros da demografia e do emprego são óbvios: "Entre 2001 e 2004, 1/3 do emprego criado nos EUA surgiu em 397 agro-urbes. As 100 melhores aumentaram o emprego em 32% e a população em 28% entre 1990 e 2000 - a média nacional é de apenas 14% e 13% respectivamente, uma diferença apreciável", afirma-nos Jack Schultz, ele próprio um empreendedor que ajudou a renascer a sua pequena cidade natal, Effingham, no Illinois, de pouco mais de 3000 famílias. Jack sublinha que, apesar de serem apenas 2% das cidades rurais dos EUA, estas comunidades "arrastam consigo uma nova onda optimista e protagonizam a terceira revolução das migrações, uma vez mais impulsionada pela tecnologia".

«A pequenez deixou de contar. A questão da massa crítica urbana já não é tão importante como há 20 anos atrás.»

Esta terceira vaga foi provocada pela revolução da banda larga, do sem-fios e dos transportes rápidos (taxis-aéreos e ligações aéreas regionais de baixo custo nos EUA e combóio de alta velocidade na Europa). Depois da vaga de migração das aldeias para as cidades com a revolução industrial, depois da fuga das cidades para os subúrbios com a revolução do automóvel e do telefone, assiste-se, agora, a uma nova viragem: os empreendedores e quadros qualificados fogem das áreas metropolitanas e dos subúrbios para "procurarem qualidade de vida nas comunidades rurais, e acabarem com o estresse e a comutação diária", diz Schultz, num português correcto, derivado de sete anos como fazendeiro no Mato Grosso do Sul, no Brasil, nos anos 1980. "A pequenez deixou de contar. A questão da massa crítica urbana já não é tão importante como há 20 anos atrás", conclui Jack. Também, as multinacionais estão a descobrir esta tendência e os media de impacto mundial fazem eco - ainda recentemente a Business Week publicou um relatório intitulado "Rescrevendo o Livro de Normas de Localização".

A nota negativa dada por Schultz aos espaços urbanos e suburbanos de "clusters" que estiveram em alta no final do século XX recebeu um novo aliado. Um estudo, agora divulgado, pela revista Entrepreneurship & Regional Development (Julho 2005), editada pela Routledge, revelava que "os centros tecnológicos metropolitanos dos EUA tiveram uma performance muito fraca durante o período pós-crash. Estas regiões - tal como as de indústria tradicional, em épocas anteriores - são muito vulneráveis aos ciclos económicos".

Segundo os professores Ross Gittell e Jeffrey Sohl, autores do estudo, "os ciclos são particularmente pronunciados se as economias metropolitanas não forem suficientemente diversificadas e os custos do trabalho não forem moderados nas épocas de crise". "O capital de risco ainda por cima pode exagerar e não moderar os ciclos económicos regionais, como é visível entre os anos 1990 e a recessão de 2001", concluem os dois professores na Whittemore School of Business and Economics da Universidade de New Hampshire.

Fonte: Artigo Technology Centres During the Economic Downturn: what have we learned?, Ross Gittell e Jeffrey Sohl, Entrepreneurship & Regional Development, Volume 17, number 4, July 2005. Assinaturas "on-line".

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