Tecnopólos entram na nova vaga

Empreendedorismo, incubação, capital de risco, nova economia
e biotecnologia são as novas palavras chave do discurso estratégico
dos Parques de Ciência e Tecnologia reunidos este ano no país da "Dolly"

Jorge Nascimento Rodrigues em Edimburgo com apoio do Madeira Tecnopólo e da IASP

Artigo publicado em versão mais reduzida no semanário português Expresso

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 Conferência de Lisboa em 2003 | Acordo estratégico IASP-INTEL 

Logotipo IASP Passada a época da atracção das multinacionais e dos "campeões" nacionais da tecnologia, considerados "âncoras" para o sucesso, e da criação como cogumelos das organizações (ditas sem fins lucrativos) de "interface" (entre as universidade e as empresas) para a transferência de tecnologia, os Parques de Ciência e Tecnologia de todo o mundo estão a entrar directamente no negócio da incubação de novas empresas ligadas à investigação científica e às patentes tecnológicas. As palavras mágicas "start-up" de empreendedores ou "spin-off" académico entrou na carteira de prioridades máximas destas entidades, ficou-se a saber na XVIIª Conferência Mundial da Associação Internacional de Parques de Ciência (IASP, no acrónimo em inglês) que se reuniu em Edimburgo, na Escócia.

Também sinal dos tempos, a maioria dos casos de transferência de tecnologia apresentados versaram o tema da biotecnologia, com exemplos de especializações de sucesso de vários tecnopólos na Europa (nomeadamente Escócia) e na América do Norte (Québeque, Universidade de Nova Orleães, Research Triangle Park da Carolina do Norte), ou não fosse Edimburgo um dos epicentros deste novo "terramoto" económico.

Sob o signo da Dolly

Recorde-se que a tímida ovelhinha "Dolly" foi criada no Roslin Institute, a poucos quilómetros da capital escocesa, em Julho de 1996, tendo sido o primeiro mamífero à face da Terra a ser "clonado" a partir de uma célula mamária de um animal adulto. A má língua conta que o nome dela foi inspirado na cantora de música "country" americana Dolly Parton, cujo perfil curvilíneo estava no imaginário do cientista "pai" da ovelhinha, Iam Wilmut. Para os fãs registe-se que a "Dolly" continua de boa saúde e já teve um bébé, a "Bonnie", concebida à velha maneira (natural). A primeira camisola feita com lã da sua primeira tosquia já está no Museu da Ciência em Londres.

Depois do whisky, dos "kilts" (vestuário típico escocês) e dos milhares de clãs humanos e raças de cães, e do simpático "Nessie", o monstro do lago Ness, a Escócia apadrinhou um novo ícone - a "Dolly", considerada, pela comunidade científica, um ponto de viragem na nova biotecnologia. "Entrámos numa nova Era, na Era Bio", reclamou Grahame Bulfield, um cientista em genética animal que é o director do referido Roslin Institute, o mais afamado centro de investigação em genética molecular e pecuária, que, à sua conta, já criou alguns "spin-offs" apoiados pela 3i, a mais importante capital de risco inglesa e europeia. "Abre-se um período muito rico - estamos hoje nas ciências da vida como estava a informática há 53 anos atrás quando apareceu o transístor. Só que, agora, a aceleração temporal ainda vai ser muito maior", referiu, por seu lado, James Roberson, presidente da Fundação do Research Triangle Park americano.

O negócio da Ciência

A plateia de cerca de 200 parques tecnológicos de todo o mundo ouviu e aplaudiu, depois, o discurso "radical" de David Auckland, da Campus Ventures Ltd ligada à Universidade de Manchester, reclamando o "just-in-time na Ciência" e afirmando que a única forma séria de transferir tecnologia a partir dos laboratórios universitários e da investigação académica é "a criação de empresas de base científica por investigadores que vão explorar economicamente um nicho tecnológico". "O resto é conversa", ironizou.

No mesmo sentido, Dinah Adkins, directora da National Business Incubation Association (www.nbia.org) norte-americana, referiu que "o melhor veículo para a comercialização da tecnologia descoberta nos 'campus' é através da formação de 'start ups'". A saída para as Universidades não pode ser outra - mais importante do que o licenciamento das patentes (que geram algum rendimento), é a entrada da academia directamente nas "start ups" baseadas na tecnologia descoberta nos seus "campus". Além disso, sublinha aquela responsável americana, "as 'start ups' são uma âncora fundamental para a fixação do conhecimento e dos cientistas e outros 'cérebros' na região".

Esta constatação não passa sem uma boa dose de controvérsia nos próprios Estados Unidos, pois uma parte do meio académico continua a fechar-se numa redoma de vidro. Mas os números são demolidores. Um estudo do Banco de Boston sobre o MIT revelou que, se fossem contabilizados os rendimentos de todas as "start ups" criadas naquele 'campus' americano, ele seria a 24ª potência económica do mundo! Um primeiro estudo do impacto da incubação nos EUA entre 1993 e 1996 mostra que essas "start ups" incubadas tiveram um crescimento de vendas de 800% e de emprego na ordem dos 400%, e com um custo subsidiado inicial que não ultrapassou os mil dólares (pouco mais de duzentos contos).

Optimismo no risco

Ao discurso das "empresas cientíticas" vem juntar-se o optimismo europeu dos homens do capital de risco que pretendem ser "namorados" activamente pelos parques tecnológicos. Jim Martin, um escocês fundador da ADD Partners, uma empresa de "venture capital" de Londres e Nova Iorque, veio falar de "uma Europa que está a mudar" no campo do financiamento do empreendedorismo e incentivou os responsáveis dos parques a entrarem nesta nova dança do dinheiro para ideias e jovens empresas.

Segundo Martin, o disparo do capital de risco europeu a partir de 1997 já projectou a Europa para a dianteira dos Estados Unidos em número de IPO (ofertas iniciais em bolsa) e empresas listadas em 1998 e o montante de capitalização bolsista já está muito próximo entre os dois blocos.

Mas a par dos capitalistas de risco, um novo protagonista surgiu em cena, trazido a esta Conferência por Ian McDonald, director da Connect Scotland, uma empresa de apoio a empresas de alta tecnologia, e ligada à Escola de Gestão da Universidade de Edimburgo. McDonald apresentou à assistência a figura do "mentor" - uma espécie de "padrinho" do jovem empreendedor, um modelo que é seguido noutros países europeus e inclusive já em Portugal (no Taguspark) e que conta no Reino Unido com dezenas de associações semelhantes ao modelo norte-americano (agrupado no The National Mentoring Partnership). Mas o escocês acrescentou-lhe alguma manipulação genética que produziu um "híbrido" - o "mentor-anjo", ou seja uma mistura de apadrinhamento com a actividade de "business angel", investidores individuais que costumam apostar em ideias e empresas nascentes.

Para os interessados, pode ser consultada uma rede mundial de "mentoring" em www.mentorsforum.co.uk/cOL1/network.htm.

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