Ler a história (económica) com os óculos
dos ciclos longos ajuda

Esta primeira metade do século XXI é um momento histórico singular - várias mudanças de ciclos estão a ocorrer em conjunto. As oportunidades são únicas para as duas gerações que a vão viver plenamente. Revela estudo
de Tessaleno Devezas, um investigador luso-brasileiro radicado
na Universidade da Beira Interior, na Covilhã (Portugal), premiado
com a Medalha Kondratiev de 2004.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, Julho 2004

Este artigo foi baseado num "paper" escrito por Tessaleno Devezas e George Modelski
na revista Technological Forecasting and Social Change, intitulado «Power law behaviour
and world system evolution: a millenial learning process» (2004).

Artigo de Tessaleno Devezas
O ocaso da actual super-potência (o fim de ciclo de hiper-poder dos EUA?)

Na vida de um ser humano - com a vida média actual - é possível assistir ao nascimento e ocaso de um ciclo longo tecno-económico, baptizado por Schumpeter de "onda de Kondratiev", em homenagem ao russo que verificou um padrão de dinâmica económica com uma regularidade de 50 a 60 anos. E, também, viver momentos decisivos num ciclo geo-político e geo-económico, em regra de mais de cem anos, em que se assiste à emergência, afirmação, consolidação e queda de poderes hegemónicos no mundo.

Um momento único

Um estudo recente, co-liderado por um investigador a trabalhar em Portugal, revela que as gerações em pleno período de vida activa na primeira metade do século XXI vão viver a "co-evolução" (como chamam os cientistas) de três transições - a mudança de onda tecno-económica (a tal de Kondratiev), uma viragem no ciclo geo-político e inclusive, também, a provável mudança num ciclo muito mais longo que alguns designam de afirmação da "opinião mundial". É, por isso, um momento único.

"Reler" a história com os óculos de vários tipos de ciclos de longa duração é fundamental para compreender o passado, e sobretudo para entender no presente os "detalhes" que podem provocar mudanças imprevisíveis, ganhando um quadro de oportunidades sobre o futuro que sendo sempre contingente pode ser vivido explorando as suas janelas de oportunidade ou não.

Entender estes ciclos históricos pode ajudar a tomar decisões públicas e privadas relevantes. "Reler" a história com os óculos de vários tipos de ciclos de longa duração é fundamental para compreender o passado, e sobretudo para entender no presente os "detalhes" que podem provocar mudanças imprevisíveis, ganhando um quadro de oportunidades sobre o futuro que sendo sempre contingente pode ser vivido explorando as suas janelas de oportunidade ou não.

A esta postura alguns chamam de "prospectiva" de longo prazo. Esse é o ponto de partida e a paixão da investigação de Tessaleno Devezas, um doutorado luso-brasileiro radicado na Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã, em Portugal, que ganhou a Medalha Kondratiev de 2004, pelos trabalhos desenvolvidos entre 1997 e 2003 neste tema.

Mudança geracional

Juntamente com George Modelski, um conceituado professor de ciência política na Universidade de Washington (no Estado norte-americano do mesmo nome, na costa do Pacífico), Devezas acaba de publicar na revista da especialidade Technological Forecasting and Social Change os resultados dessa investigação sobre os ciclos históricos.

Nesse artigo - denso para o comum dos leitores -, os dois investigadores avaliam a dinâmica histórica como um processo "evolucionário" baseado na aprendizagem colectiva transmitida pelas mudanças geracionais (tecnicamente de 30 em 30 anos) e descobriram oito tipos de ciclos, com durações muito diferenciadas. O modelo de Devezas e Moldelski não é um exercício de historicismo diletante, mas baseia-se num modelo físico-matemático e em princípios da teoria da evolução, usando algoritmos, o que lhe permite apresentar robustez científica. Estes ciclos, diz-nos Devezas, "aninham-se uns nos outros" e "evoluem em conjunto", sendo caracterizados por "um sistema complexo adaptativo muito longe do equilíbrio".

Em linguagem menos hermética, podemos compreender o alcance de alguns destes ciclos, observando alguns exemplos.

Os ciclos históricos longos
  • Onda de Kondratieff - 60 anos, duas mudanças geracionais, emergência, pico e ocaso de uma vaga tecno-económica
  • Ciclo geo-político - 120 anos, quatro mudanças geracionais, ascensão e queda de super-potências
  • Ciclo de democratização global - 250 anos
  • Ciclo de opinião pública mundial - 500 anos
  • Ciclo de formação do sistema mundial - 1000 ano
  • A onda de Kondratiev (onda K) atravessa uma mudança geracional, abarcando o pleno do activo de duas gerações humanas. A geração que nasceu durante a 1ª Guerra Mundial e a Revolução Russa assistiu ao declínio de uma onda K que se afundou com a Grande Depressão e a 2ª Guerra Mundial e ao nascimento e consolidação de um novo ciclo marcado no seu pico histórico pela revolução da computação e os choques petrolíferos. Um "detalhe" que foi uma pequena noticia muito académica - a demonstração em 1947 do efeito do transístor - modificaria, depois, radicalmente, a vida dessa geração de início de século, bem como da seguinte nascida no pós-2ª Guerra (a chamada geração "baby boom"), que teve o privilégio de usufruir plenamente da oportunidade profissional e de negócios criada pelo novo ciclo.

    Por outro lado, a geração nascida depois dos choques petrolíferos e da massificação da computação nos anos 70 do século XX está a viver um novo período doloroso de transição de ciclo, mas, juntamente, com os seus filhos, terá a oportunidade histórica de usufruir plenamente de um período ascendente de um novo ciclo K. Tanto quanto é observável, o novo ciclo K explorará plenamente o impacto da revolução da genómica humana (a sequênciação dos cromossomas humanos está concluída, segundo a revista Nature), da criação da Internet interplanetária (em que o fundador da Net, Vinton Cerf, está envolvido), da mudança de energia dominante (com a exaustão do papel do petróleo, segundo os cenários da respeitável Shell) e da afirmação de uma sociedade que premiará ainda mais os detentores do conhecimento.

    Finalmente, olhando mais à distância, para o que Devezas e Modelski chamam de "ciclo da opinião mundial" (mais de cinco séculos de permeio), poderemos entender melhor o papel do livro impresso (a 1ª Bíblia de Gutenberg em 1455) na massificação da literacia ao longo de todo um ciclo. É provável que a Web comercial (desde1994/95) venha a desempenhar um papel de alavanca de um novo ciclo de formação da "opinião mundial", centrado, agora, na massificação da interacção em tempo real.

    O ocaso dos EUA
    Também, no plano geo-político e geo-económico, um ciclo longo de mais de um século poderá estar a caminho do seu ocaso. Tessaleno Devezas aponta o declínio do ciclo dominado pelos Estados Unidos e a emergência da China, como primeira potência económica em 2040 (segundo os estudos da Goldman Sachs), que se poderá "aliar ao Japão", diz provocadoramente o investigador da UBI.
    A confirmar-se esta tendência é toda uma viragem do coração da história geo-política, pelo menos dos últimos 600 anos - do Atlântico e das potências marítimas que o usaram como alavanca para a hegemonia mundial, para outro lado do Planeta. Recorde-se a sucessão desde 1415-1434 das superpotências hegemónicas: primeiro os portugueses com as Descobertas, que puseram fim ao papel geo-estratégico do Mediterrâneo, depois os holandeses (que acabaram por fazer um "take over" sobre a Inglaterra, por razões de sucessão dinástica, com Guilherme de Orange em 1688), seguidos de duas vagas de domínio britânico, e a clara ascensão desde 1890 dos EUA, que consolidaram a sua hegemonia no século XX ao liderarem a derrota do eixo nazi-nipónico e depois com a implosão do rival soviético no final dos anos 80 do século XX.
    Pelo caminho, em mais de quatro séculos, entre 1578 (capitulação portuguesa em Alcácer Quibir) e 1989 ficaram cinco "challengers" candidatos à hegemonia mundial: Espanha (a sua ambição de nova super-potência marítima durou apenas 10 anos, com a derrota em 1588 da Invencível Armada), França (com duas tentativas: Luís XIV no século XVIII e Napoleão Bonaparte no século XIX), Alemanha (Hitler) e União Soviética (desde o Pacto Germano-Soviético até à implosão com a ascensão de Gorbachov e a queda do Muro de Berlim).
    Devezas chama a atenção, também, para o fenómeno do terrorismo internacional - como corrente geo-política - que nasceu em 1972 (nos Jogos Olímpicos de Munique) e se desenvolveu ao longo do último ciclo K, banalizando-se os sequestros de avião e os atentados suicidas como arma política. "Consolidou-se o conceito e teorização da guerra assimétrica e o terror da Guerra Fria foi sendo substituído pela paúra - termo brasileiro para o medo colectivo - do terror dos atentados terroristas", frisa Devezas, que vai lançar a discussão sobre este novo protagonista num "workshop" a organizar sob os auspícios da NATO no próximo ano na Covilhã (na Web em www.natoarw-kw.ubi.pt). Para Devezas o fenómeno terrorista vai ser um "dado estrutural" da fase ascendente do novo ciclo K.


    UMA VISÃO MODERNA DA ECONOMIA E DO SISTEMA GLOBAL

    Por Tessaleno Devezas,
    UBI, Portugal, Faculdade de Engenharia
    E-mail: tessalen@demnet.ubi.pt

    Parte I
    A essência da nova visão: a economia evolucionária

    Economistas e cientistas sociais sempre tenderam (e ainda tendem) a imaginar a economia global como um sistema à procura do equilíbrio. Mas ao longo do século XX, notadamente após a crise do petróleo e da acentuada recessão dos anos 80, e com os progressos da(s) ciência(s) da complexidade e teoria geral dos sistemas, a ideia da economia como um sistema complexo adaptativo "far-from-equilibrium" (muito distante do equilíbrio) consolidou-se como uma escola do pensamento económico.

    A ideia de uma economia evolucionária, com todos os elementos darwinianos da variação-seleção-retenção, seguindo o algoritmo universal g-t-r (generate-test-regenerate), foi aos poucos ganhando corpo à medida que os sinais de uma economia distante do equilíbrio foram tornando-se cada vez mais evidentes. Esta economia evolucionária conheceu sua génesis já no início do século com a escola dos economistas holandeses (Van Gelderen, De Wolff) que primeiro observaram a existência de ciclos longos na economia mundial. Uma discussão sustentada sobre este tema, entretanto, surgiu apenas após os trabalhos nos anos 1920-1930 de Kondratieff, que nos anos 1940-1950 foram modelados e explicados por Schumpeter. Erroneamente adoptou-se o nome de ciclos de Kondratieff (proposto por Schumpeter) para o fenómeno, mas já o próprio Kondratieff referiu que não se tratavam de ciclos (que implicam uma periodicidade exacta), mas sim de um padrão repetitivo com alguma regularidade.

    Modelos diversos surgiram para explicar o fenómeno, entre os quais devem destacar-se os trabalhos de Mensch (ondas de inovações de base em fase com ondas de Kondratieff) nos anos 70, Marchetti (sociedade como um sistema colectivo de aprendizagem e parâmetros físicos para medir com exactidão a periodicidade das ondas de Kondratieff) e Forrester (simulação do sistema mundial) nos anos 80, e Brian Berry (determinação dos atractores caóticos do sistema económico global) nos anos 90.

    Embora divergindo em muitos aspectos ligados à causalidade e regularidade do fenómeno, toda a teoria emergente desta análise convergia para a hipótese de um sistema económico global 'dirigido' pelas inovações de base (innovation-driven) que surgiam em surtos periódicos de 50-60 anos, coincidindo em geral com os períodos de depressão das chamadas ondas de Kondratieff. Tais inovações, tal como as mutações da evolução natural, são selectivamente retidas pelo sistema sócio-económico nesta fase de depressão e finalmente consolidadas na fase seguinte (ascendente) do ciclo, ou seja, em sua fase de prosperidade.

    A sociedade global comporta-se como um sistema adaptativo agregado de aprendizagem, aprendendo a lidar com um 'cluster' de inovações de base durante uma geração e consolidando-o na próxima geração, gerando então um padrão repetitivo de 50-60 anos (2 gerações).

    Em 2001 publiquei um artigo (The Biological Determinants of Long-Wave Bahvior in Socieconomic Growth and Development - que ganhou o prémio da Elsevier - "Best Paper Prize 2001") em que fazia um resumo crítico dos modelos então existentes para a explicação dos ciclos, chamando a atenção para o facto de que nenhum destes modelos explicava 'de facto' a causalidade dos ciclos e muito menos o "por quê" da regularidade de cerca de meio século. Propus, então, o modelo da "Aprendizagem-Geracional" (generation-learning model), demonstrando que a sociedade global comporta-se como um sistema adaptativo agregado de aprendizagem, aprendendo a lidar com um 'cluster' de inovações de base durante uma geração e consolidando-o na próxima geração, gerando então um padrão repetitivo de 50-60 anos (2 gerações).

    A primeira geração é dos inovadores (knowledge innovators) e a segunda é a dos consolidadores (knowledge consolidators). Este sistema colectivo de aprendizagem, demonstrado matematicamente, é controlado por dois "determinantes biológicos" - uma taxa de aprendizagem colectiva, na primeira geração, para aprender a lidar com a nova Tecnoesfera (new cluster of basis innovations), e na geração seguinte para aprender a consolidá-las, e um ritmo geracional (reprodutivo e também ligado ao tempo de amadurecimento dos seres humanos). Importante no modelo (e o que causou maior impacto), é a demonstração de que o produto desta taxa de aprendizagem (cerca de 0,13 a 0,16 a.a.) pelo ritmo das gerações (25-30 anos) deve ser mantido na faixa entre 3 e 4, que é o chamado "edge-of-chaos". Se for superior, o sistema entre em colapso (crescimento muito rápido), e se for inferior (crescimento muito lento) destina o sistema ao desvanecimento ou a um equilíbrio paralisador.

    Em um artigo seguinte publicado em 2002 (Nonlinear Dynamics of Technoeconomic Systems: An Informational Interpretation), elaborei um modelo cibernético baseado em teoria da informação, que permite melhor entender a causalidade dos ciclos como uma sucessão 'esgotamento-reposição' da quantidade necessária de informação para fazer funcionar um sistema social (visto como uma colectividade de agentes em um processo de aprendizagem). Este mesmo modelo permite ainda distinguir quatro fases diferentes dentro de cada ciclo, ligadas à produção de entropia do sistema durante o seu processo evolucionário.

    Outro importante aspecto ligado aos ciclos de Kondratieff diz respeito à sua estreita correlação com aspectos geo-económicos e conflitos bélicos. Já muitos autores debruçaram-se sobre o tema (inclusive o próprio Kondratieff!!!), devendo-se destacar entre estes a volumosa obra de Joshua Goldstein (desde 1988 com Long Cycles: Prosperity and War in the Modern Age até o seu recente -2004- The Real Price of War: How you Pay for the War on Terror) e George Modelski (1996 - Leading Sectors and World Powers). Modelski desenvolveu a ideia de um ciclo hegemónico compreendendo cerca de dois ciclos K (dois K correspondendo a um ciclo longo), em que é observada a transição da liderança do poder mundial, que desde o século XI (iniciando-se na China com a dinastia Song) tem-se deslocado para oeste, tendo passado pelo Império Otomano, Papado e Repúblicas Italianas, Europa Ibérica (particularmente Portugal), Europa Central (Holanda), Reino Unido e, desde os dois últimos K, os EUA (cuja liderança iniciou-se nos primeiros anos do séc. XX).

    Os teóricos dos ciclos K costumam referir-se a estes ciclos apenas desde a Revolução Industrial, como se estes fossem um simples produto do sistema de produção capitalista (esta visão tem origem no próprio Kondratieff e foi aprofundada por Schumpeter). Desta forma teriam existido apenas 4 ciclos K até aqui, e agora estaríamos no limiar de um start-up do 5º K. Mas segundo a nova visão do sistema sócio-económico global, agora aprofundada pelo recente modelo de Devezas-Modelski (2003 - Millennial Learning Process), estes ciclos não têm nada a ver com o sistema de produção capitalista, mas são uma manifestação mais profunda dos mecanismos evolucionários actuando no sistema social global, tendo por base o ritmo geracional e a dinâmica de aprendizagem.

    Estes mecanismos em seu conjunto produzem uma cascata de ciclos (múltiplos do ritmo básico de duas gerações ou um Kondratieff) que têm vindo a forjar o processo histórico da civilização, ou segundo estes autores, o World System. Assim, com relação especificamente aos ciclos K, estaríamos agora na transição do 18º para o 19º ciclo K. Com relação então ao que seriam os dois primeiros ciclos desde a Revolução Industrial, foram liderados pelo Reino Unido, período em que se consolidou a Pax Britannica, e os dois ciclos mais recentes foram liderados pelos USA, período em que se consolidou a Pax Americana. Goldstein aponta ainda os diferentes tipos de conflitos bélicos que são verificados nos períodos de expansão (mais numerosas e intensas, envolvendo disputas hegemónicas e por recursos) e nos períodos de depressão (menos numerosas, em geral relacionadas com conflitos não resolvidos).

    Parte II
    O contexto actual

    Vamos então analisar o presente ciclo destacando os seus principais aspectos ligados às inovações que estão na sua base e aos seus aspectos geo-políticos. Ambos foram determinantes para a génesis da economia moderna, ou como tem sido chamada a Nova Economia.

    Algumas das instabilidades que ora observamos (na economia global e na geo-política) são claros sinais de um período de transição e não são de forma alguma sinais de uma permanente recessão - é uma situação muito distinta da dos anos 80 e 90, em que toda a sinalética económica era negativa por todo o globo.

    Localizando-nos no tempo e no espaço sócio-económico, podemos afirmar que estamos na fase de transição (essencialmente no 'trough') entre o final da 'downwave' do 4º K e o início do 'upwave' do 5º K (usando o referencial da Revolução Industrial). Particularmente penso que já há muitos sinais (crescimento do volume do comércio mundial, retomada do crescimento nos USA, crescimento brutal da China, juros estão subindo nos USA desde 2003, e já agora começam a subir também na Europa, subidas no preço do petróleo devido ao crescimento do consumo nos USA e China são apenas alguns) de que já foi dado o 'start-up'.

    Algumas das instabilidades que ora observamos (na economia global e na geo-política) são claros sinais de um período de transição e não são de forma alguma sinais de uma permanente recessão - é uma situação muito distinta da dos anos 80 e 90, em que toda a sinalética económica era negativa por todo o globo.

    Veja-se a plêiade de novas empresas ligadas aos computadores pessoais, Internet, manipulação genética, telemóveis, comunicações, surgidas do nada, e que, diferentemente dos ciclos anteriores, surgem já como potências globalizadas.

    O que assistimos desde o pico do 4ºK (entre 1970-1975, alguns autores até o colocam antes em 1968), ou seja, nas últimas três décadas (1 geração!) correspondentes a todo o "downwave" do 4º K, foi:

    A - no domínio das inovações tecnológicas de base tivemos a génesis de todo o actual sistema de informação-comunicações, que formam a essência da nova Tecnoesfera (invenção do PC, dos softwares e protocolos de comunicação, dos satélites de comunicação [geo-estacionários], dos e-mails, da Internet, da World Wide Web, dos telemóveis, etc., etc...). Acresce-se ainda a utilização dos veículos espaciais reutilizáveis, a construção da Estação Espacial Internacional, o desenvolvimento dos Maglevs, etc... Desnecessário mencionar o enorme impulso de toda a tecnologia biomédica com os "breaktroughs" relativos à genética, e ainda a intensa sinergia entre estas tecnologias com o enorme crescimento da capacidade computacional e de comunicações. Junto com tudo isto surgiram novos domínios científicos com a Teoria do Caos, Ciências da Complexidade, Bioinformática, Engenharia Genética, Computação Genética, Economia Evolucionária, Darwinismo Universal, etc... Observou-se concretamente a génesis de uma completamente nova Tecnoesfera a ser aprendida por uma geração de inovadores, e consequentemente a génesis de uma Nova Economia (que inclui o NASDAQ e o próprio conceito de Novas Tecnologias). Veja-se a plêiade de novas empresas ligadas aos computadores pessoais, Internet, manipulação genética, telemóveis, comunicações, surgidas do nada, e que, diferentemente dos ciclos anteriores, surgem já como potências globalizadas;

    B - como em todas as ondas anteriores, junto com este "cluster" de inovações tecnológicas aparecem também inovações de carácter político ou social, em geral com um impacto ainda mais intenso e duradouro sobre a sociedade em geral do que as próprias inovações tecnológicas. Assim, associada à nova Tecnoesfera anteriormente descrita, verificaram-se algumas reestruturações que vieram a forjar uma nova ordem mundial. Sinalizando o crepúsculo da "global-order" anterior tivemos a desintegração da União Soviética, a Queda do Muro de Berlim, fim da Guerra-Fria, a transição para o capitalismo na China, o fim do milagre económico japonês. Sinalizando a aurora de uma nova ordem temos: uma nova forma de conduzir conflitos bélicos (Gulf War and Balkans War, com transmissão ao vivo pela CNN,...), a preocupação crescente com o Eco-sistema e com a Globalização, o surgimento da Nova Economia, etc.;

    C - mas para além do contexto mencionado nos dois itens anteriores, existem ainda dois factos fundamentais que não foram até agora devidamente considerados na sua estreita correlação com os ciclos K, mas que a meu ver são os mais importantes no que concerne à formação da nova ordem global - são estes factos que estão na base da minha contribuição que pretendo lançar à discussão na NATO Advanced Research Workshop de Fevereiro de 2005 na UBI.
    Tais factos são:

      1 - a visão do terrorismo internacional como uma das inovações surgidas nesta última fase de declínio do 4º K. Veja-se que ele nasce no 5 de Setembro de 1972, Jogos Olímpicos de Munique, quando os oito terroristas palestinos irrompem pela Vila Olímpica, matam dois atletas israelitas e tomam mais 9 como reféns, e acabam por provocar a morte de 15 pessoas. Seguiu-se a isto uma crescente força política dos terroristas, banalizou-se o sequestro de aviões e atentados suicidas. Em 1983 com o assassinato do presidente egípcio Anwar-el-Sadat nasce a Jihad Islâmica. Consolida-se o conceito e teorização da guerra assimétrica e o terror da Guerra Fria foi sendo (e agora consolida-se depois do 11 de Setembro) substituída pela paúra (termo brasileiro) do terror dos atentados terroristas. O espaço de tempo entre 1972 e 1983 é importantíssimo na matemática do 4ºK pois corresponde exactamente ao período entre o pico e a primeira recessão, pouco antes do mundo desandar ladeira abaixo na depressão económica;

      2 - poucos estão enxergando (com excepção talvez de Immanuel Wallerstein) a perda da hegemonia por parte dos USA, ou seja, o fim da Pax Americana. Este declínio pode ser observado em quatro capítulos, desde a derrota no Vietname, passando pelas revoluções de 1968, na queda do muro de Berlim em 1989 e nos ataques terroristas de Setembro de 2001. Cada um destes capítulos constituem um somatório de eventos que culminam em uma superpotência solitária sem poder de facto, vulnerável nas suas entranhas, e um líder mundial que ninguém respeita - veja-se o episódio recente de ausência de apoio da ONU e da oposição da vasta maioria das nações do globo à intervenção no Iraque. Fazendo-se as contas, o ciclo hegemónico dos USA, se iniciado por volta de 1890, deve terminar por volta de 2020-2030. A questão então não é SE a Pax Americana está desvanecendo-se, mas SE os USA ou o poder político internacional (ONU??) poderão encontrar um caminho para uma transição suave e indolor para si próprio e o resto do mundo.

    Covilhã, 12 de Junho de 2004

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