Prémio Elsevier Science 2001 atribuído a artigo de investigador luso-brasileiro

Leitor, a sua geração «manda» nos ciclos económicos!

Não desperdiçe a oportunidade de meter a colherada na economia
Diz Tessaleno Devezas, mais um optimista sobre o ciclo de Kondratief

A história de como o nosso relógio humano marca o ritmo das célebres "vagas" longas tecno-económicas de 50 a 60 anos de duração, descobertas pelo russo Kondratief no princípio do século passado. A biologia é que comanda diz Tessaleno Devezas, que tem a coragem de "acusar" os economistas "puros" de não serem capazes de olhar a mais de cinco a dez anos e de ignorarem o papel das gerações de empreendedores.

Jorge Nascimento Rodrigues com Tessaleno Devezas em Los Alamos

Publicado na secção Contra Corrente da revista portuguesa Ideias & Negócios
(nº48, Junho 2002)

Sítio na Web de Tessaleno Devezas | Los Alamos National Laboratory
Santa Fe Institute | O Regresso dos Optimistas
Outros Optimistas sobre o ciclo de Kondratief - Harry Dent
Debate sobre o ciclo de Kondratief
(ler contribuições de Chris Freeman e de Cesare Marcheti)

Ao leitor pode parecer estranho chamar à atenção para um artigo científico com um título bizarro escrito por Tessaleno Devezas, um "carioca" (natural de Rio de Janeiro, Brasil) de 55 anos radicado nos últimos anos em Portugal, na Covilhã, onde dirige o Grupo de Estudos de Previsão Tecnológica na Universidade da Beira Interior. «As determinantes biológicas do comportamento na vaga longa do crescimento e desenvolvimento socioeconómico», escrito com James T. Corredine para a revista da especialidade «Technological Forecasting and Social Change», de Setembro de 2001 (volume 68, nº1), foi considerado o melhor artigo do ano passado (2001). Está de parabéns a investigação feita por um nativo de língua e cultura portuguesas.

A conclusão do artigo é polémica: «O comportamento em vaga longa é essencialmente dirigido biologicamente». Em suma, é o relógio humano que "manda" no ciclo económico longo, o que é, seguramente, uma heresia para os economistas puros e duros. E como é que se exerce este "comando"? Através das vagas geracionais de empreendedores "sem sorte" na época em que chegam à vida adulta, a quem se deve o frenesim inovador, e depois aos "com sorte" que consolidam os novos paradigmas. Estas vagas duram em média 25 a 30 anos e ladeiam a curva descendente do ciclo anterior - os "sem sorte" provocam disrupções e mudança do paradigma vigente - e a curva ascendente do ciclo seguinte - em que os "com sorte" cavalgam o "boom" da nova realidade económica.

Olhando à realidade actual, depois da "bolha" da Nova Economia e da liquidação da doença infantil das "dot-com", é de esperar, na próxima década, que uma nova geração, agora chegada à vida activa nesta fase de transição de ciclo longo, venha a consolidar uma economia e uma sociedade baseadas num novo paradigma.

Falando com menos abstracções: a geração "sem sorte" nascida no pós-2ª Guerra Mundial passou pelo Maio de 68 sem chegar ao poder, passou à vida activa durante os "choques" petrolíferos dos anos 70 e foi, por isso, o cadinho de uma geração empreendedora ligada ao computador pessoal e, mais tarde, ao advento da Web. Pelo contrário, a geração "com sorte" nascida nos anos 20 e 30 do século XX, passou à vida activa no pós-guerra e depois da descoberta do efeito do transístor em 1947, o que lhe permitiu consolidar a revolução tecnológica de então e criar novas indústrias e sonhos em torno dos "chips", do espacial, do nuclear, do embrião da Internet e da gestão. Não é por mero efeito literário que se designa esse período de "30 gloriosos (anos)".

Olhando à realidade actual, depois da «bolha» da Nova Economia e da liquidação da doença infantil das "dot-com", é de esperar, na próxima década, que uma nova geração, agora chegada à vida activa nesta fase de transição de ciclo longo, venha a consolidar uma economia e uma sociedade baseadas num novo paradigma. Apesar de ainda não estar claro como vai terminar o actual período de transição - em que muitas nuvens se acumulam -, esta investigação é um grito optimista, de esperança numa nova geração, que poderá liderar a curva ascendente do 5º ciclo de Kondratief - do nome do russo que primeiro observou empiricamente estas vagas longas na economia capitalista desde a Revolução Industrial.

O artigo foi escrito há dois anos atrás e é fruto do trabalho de investigação que Tessaleno Devezas iniciou em 1994 na Covilhã (Portugal). O trajecto do nosso entrevistado é típico do investigador "metanacional" dos dias de hoje. Tessaleno nasceu no Rio de Janeiro (Brasil) no pós-guerra, e cursou física, tendo-se doutorado na Alemanha em 1981 em engenharia de materiais. Foi investigador no Centro Técnico Aeroespacial de São José dos Campos (perto de São Paulo, Brasil) até 1990 e no Instituto Politécnico do Rio de Janeiro até 1992. Veio, depois, para Portugal, onde entrou a leccionar no Departamento de Engenharia Electromecânica da Universidade da Beira Interior (UBI), na cidade de «A Lã e a Neve» de Ferreira de Castro (o autor em 1930 de "A Selva", que fez o trajecto inverso, de Portugal para a Amazónia na primeira década do século passado), e ganhou dupla nacionalidade.

Ultimamente tem estado a viver uma temporada no Los Alamos National Laboratory, no Novo México, nos Estados Unidos, onde se meteu no grupo de investigação sobre sistemas complexos, a nova "moda" emergente que está a influenciar a gestão, a economia e as finanças. Foi a partir de Los Alamos, a Meca das teorias da "complexidade", que Tessaleno Devezas respondeu a esta entrevista. Alguns professores do Grupo de Estudos de Previsão Tecnológica da UBI prosseguem , no nosso país, a investigação neste tema.


Quando começou o seu interesse pelos ciclos ou vagas económicas longas de 50 a 60 anos no capitalismo descobertas por Kondratief?

T.D. - Iniciou-se em 1982, no final do meu trabalho de doutoramento na Alemanha, quando li duas publicações no "Bild der Wissenschaft". Um dos trabalhos era do italiano Cesare Marchetti, que liderava, então, o grupo de investigação sobre o tema no International Institute of Applied Systems Analysis, na Áustria, e outro de Jay Forrester, do Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos. Dois anos depois, fiz um curso de Prospectiva Tecnológica no ITA-CTA, ligado ao aeroespecial, em São José dos Campos, no Brasil, onde trabalhava. O curso foi dado por um professor americano amigo de Marchetti. Mas o meu trabalho de investigação sobre os ciclos longos só começou de facto em Portugal em 1994. Foi, por essa altura, que me tornei membro da então recentemente criada International Kondratief Foundation.

Como a maioria das correntes sobre os ciclos longos se baseiam estritamente nos "clusters" de inovação tecnológica, porque razão procurou sair fora desse campo tradicional de análise e foi procurar explicações em algo aparentemente "exterior" à tecnologia?

T.D. - Todo o meu trabalho está decalcado sobre a evolução tecnológica e sobre a análise do impacto e da difusão das inovações tecnológicas. O que refere como "externo" não deve ser visto como tal. As novas tecnologias têm de ser "apreendidas" pelo ser humano, e esta aprendizagem é logística e leva tempo. Esse tempo de aprendizagem está ligado à nossa condição humana - são os determinantes biológicos, de que falo - que condiciona a forma como as tecnologias são absorvidas, apreendidas e difundidas pela colectividade humana. Deste modo, são estes determinantes biológicos que condicionam o "timing" dos ciclos.

No contexto da teoria do caos, entende-se por determinismo o facto da evolução e do comportamento futuro de um sistema estarem condicionados por um conjunto de leis

Mas as críticas de "determinismo" que se faziam aos ciclos longos baseados nas revoluções tecnológicas, não se podem aplicar, agora, a esse "determinismo" biológico? O nível "metasistémico" em que coloca essa sobredeterminação em relação ao económico não pode ser interpretado de um modo dogmático na análise concreto dos ciclos?

T.D. - É preciso ter cuidado ao falar-se de "determinismo" neste caso. No contexto da teoria do caos, entende-se por determinismo o facto da evolução e do comportamento futuro de um sistema estarem condicionados por um conjunto de leis. Além disso, o que demonstro no meu trabalho - não só na primeira publicação, a que faz referência, mas noutro artigo [«The nonlinear dynamics of socioeconomic systems: an informational interpretation»] que vai ser publicado brevemente na mesma revista [«Technological Forecasting and Social Change»] - é que o sistema socioeconómico não é propriamente caótico, mas apresenta o chamado comportamento de "ciclo-limite". Ou seja, o sistema é "quase-cíclico", condicionado por um conjunto de determinantes e de leis. O que eu demonstro é que os determinantes que dão o ritmo às oscilações são de natureza biológica, consequência dos ritmos existentes na nossa própria estrutura biológica - ritmo geracional, ritmo da aprendizagem, etc..

Um analista americano, Harry Dent, também usou os ciclos geracionais para tirar implicações do ponto de vista da despesa e do investimento nos ciclos longos. No seu artigo adiciona-se a noção de aprendizagem do conhecimento ao longo do ciclo geracional. É uma espécie de "valor acrescentado" sobre o trabalho de Dent?

T.D. - Uso as conclusões de Dent para reforçar a periodicidade de mais ou menos 54 anos, devido ao ritmo da vida humana. Note-se que, ao usar parâmetros como a despesa e o investimento, Dent concluiu que o ritmo destas variáveis coincide com o ritmo dos ciclos longos. Foi Marchetti o primeiro a chamar à atenção para o facto de que ao utilizarem-se outros parâmetros - físicos e não apenas econométricos - se determina a mesma periodicidade para qualquer actividade humana. O que eu chamo à atenção é para o seguinte: seja qual for a actividade que estejamos a medir em função do tempo, encontramos a mesma periodicidade.

Um economista não raciocina em horizontes com mais de 5 a 10 anos. Além disso, os modelos económicos convencionais nunca conseguiram explicar os ciclos. Os grandes "crashes" sempre foram vistos como choques "externos" ou factores exógenos à economia, e aí sempre esteve o erro

O que é que está subjacente a essa coincidência?

T.D. - Creio que só há uma resposta - é a nossa existência como seres humanos, é o facto das nossas actividades serem restringidas pelo ritmo com que aprendemos a fazer as coisas e pelo ritmo com que nos reproduzimos e transmitimos os nossos conhecimentos aos nossos filhos. Ou seja, se existem ritmos - ou ciclos - nas actividades humanas, o "timing" deles está ligado à nossa estrutura biológica.

Como interpreta a dificuldade do National Bureau of Economic Research, dos Estados Unidos, e das correntes dominantes entre os economistas em aceitarem estas investigações? Paul Samuelson, ainda hoje muito escutado, considerou os ciclos longos como "ficção científica"...

T.D. - O problema é que a corrente dominante nunca foi propensa a modelos cíclicos, muito menos a ciclos de longo prazo. Um economista não raciocina em horizontes com mais de 5 a 10 anos. Além disso, os modelos económicos convencionais nunca conseguiram explicar os ciclos. Os grandes "crashes" sempre foram vistos como choques "externos" ou factores exógenos à economia, e aí sempre esteve o erro. A explicação para este fenómeno dos ciclos está surgindo a partir da física e da biologia, através da teoria do caos e dos sistemas complexos. Só os economistas com uma visão desta nova ciência compreendem o que se passa - e ainda são poucos os economistas com interesse neste tema ou mesmo com formação para entendê-lo.

A própria publicação de literatura científica sobre o tema tem escasseado ultimamente... Houve importantes contribuições de Chris Freeman e de um economista português, Francisco Louçã. Mas, aparentemente, o tema perdeu impacto...

T.D. - O pico de publicações sobre o tema dos ciclos longos foi, de facto, em meados dos anos 80. Mas, nos anos 90, voltou a haver publicações importantes, como os trabalhos que referiu, e ainda de Barker, Modis, Modelsky, Prechter e Wallerstein.

Outro aspecto que sublinha no seu artigo é o paradoxo das pessoas que sentem não ter capacidade de influenciar o poder, e que se lançam, por isso, com mais entusiasmo no empreendedorismo. A geração "com menos sorte" é a mais empreendedora?

T.D. - Exactamente. Com o reforço de que é a única ALTERNATIVA [sublinhou com a voz] que lhes resta. Esta ideia foi, aliás, desenvolvida, pela primeira vez, por Schumpeter nos anos 40.

Do ponto de vista prático, é importante saber em que ponto do ciclo longo de Kondratief estamos? Estamos a terminar, com muita turbulência, o 4º ciclo que se iniciou nos anos 40 e teve um pico nos anos 70, ou já estamos no chamado 5º ciclo, com uma curva ascendente, com um horizonte optimista, pela frente?

T.D. - A meu ver, estamos a terminar o período de transição entre os dois ciclos. A crise mais séria já ficou para trás nos anos 90. Os sintomas actuais são de recuperação económica, que já se faz sentir na Europa e nos Estados Unidos, e, em breve - talvez daqui a dois anos - vai chegar ao Japão e a outros países do anel do Pacífico. A China já está em expansão há muito tempo. Pode dizer-se que estamos no início da vaga ascendente do 5º ciclo de Kondratief. Mas a fase de aceleração ascendente só se fará sentir depois de 2005 - ou pouco depois, mas certamente antes de 2010.

Mas qual é o sintoma dessa emergência?

T.D. - É o conjunto de tecnologias de comunicação, liderado pela Internet e pela Nova Economia medida pelo Nasdaq. Note-se que, no início dos anos 90, a Internet tinha muito pouco significado ainda e quase nada se falava no Nasdaq ou sequer em "nova economia". Vou desenvolver este tema num próximo artigo, com dados e informações que acumulei nos últimos quatro anos e que foram o tema de uma tese de mestrado de um aluno meu na UBI, o Humberto Santos, que confirmou o modelo que desenvolvi.

Mas é possível identificar um ponto de viragem?

T.D. - É extremamente difícil identificar um ponto de viragem fazendo a observação à medida que os acontecimentos vão acontecendo. Os quatro ciclos anteriores foram todos analisados à posteriori, o que tornou a tarefa mais fácil. Nos últimos anos, o meu aluno seguiu o crescimento da Internet e analisou os parâmetros de crescimento, entre os quais o crescimento de "hosts", e confirmou a conclusão de que a Net é uma inovação de base, que será a percursora do 5º ciclo longo, como o motor de combustão interna foi do 3º ciclo, a máquina a vapor e os caminhos de ferro do 2º ciclo e a mecanização da indústria do 1ºciclo. Esses parâmetros apontam para uma saturação do crescimento da Net por volta de 2005. O que poderá acontecer quando se chegar ao limite físico da tecnologia actual de desenvolvimento dos circuitos integrados.

Enquanto não dominarmos completamente o novo conhecimento não podemos arrancar com uma nova onda, mas estamos quase lá. Possivelmente, quando se iniciar a utilização em larga escala da Internet 2 e do IP V.6

Uma outra questão prática relevante para quem nos lê é saber se esta ponta final do 4º ciclo já passou por uma crise que o tenha levado a bater no fundo. Para alguns isso deu-se com o "crash" do Nasdaq de 2000 e para outros ainda está para acontecer. O que resulta do seu modelo?

T.D. - Cuidado com essa expressão de "bater no fundo". A Páscoa Negra e o "Outubro Negro" em Abril e Outubro de 1987 foram a precipitação para o fosso, ou seja a fase inicial de aceleração descendente, que, aliás, já se fazia sentir desde o início dos anos 80. O Nasdaq bateu no fundo, de facto, no ano 2000, o que pode ser considerado como um sintoma do fim da crise. Desde então, tem havido um leve movimento ascendente, mas ainda com fortes oscilações. Mas atenção: os índices das bolsas são um falso parâmetro para entendermos os ciclos longos. Segunda a investigação do meu aluno, enquanto não dominarmos completamente o novo conhecimento não podemos arrancar com uma nova onda, mas estamos quase lá. Possivelmente, quando se iniciar a utilização em larga escala da Internet 2 e do IP V.6.

NA MECA DA COMPLEXIDADE
Tessaleno Devezas encontra-se no Novo México, nos Estados Unidos, «a aperfeiçoar o modelo teórico de base que desenvolveu». Está a cooperar com pessoas ligadas ao desenvolvimento de modelos computacionais e de simulação por agentes. Afirma que está «a estudar em profundidade os sistemas complexos», e desenvolve com George Modelski - um dos autores, nesta área, mais conceituados, que publicou em 1996 o best-seller «Leading Sectors and World Powers» (compra do livro) - um modelo que já baptizaram de «algoritmo de aprendizagem evolucionista». «Creio que será um trabalho bastante inovador e que vai ter um bom impacto na comunidade científica», frisou-nos o investigador luso-brasileiro.
Recorde-se que a região de Los Alamos-Santa Fé é hoje uma espécie de Meca para a investigação em sistemas complexos e caóticos, que estão a servir de inspiração a novas correntes na economia (como a dos ciclos longos e a da análise da distribuição da riqueza), no risco financeiro e nos seguros, na gestão da cadeia de fornecedores e na gestão estratégica (nomeadamente a corrente da "improvisação", em que também estão investigadores portugueses, como Miguel Pina e Cunha, da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, e João Vieira da Cunha, actualmente no MIT).
Os melhores teóricos da actualidade das ciências da complexidade, como Stuart Kauffman, John Holland, W.Brian Arthur, John Casti e Murray Gell-Mann encontram-se no Santa Fe Institute e em torno desta ciência da "surpresa" como fonte da mudança stá a criar-se um "cluster" de empresas de alta tecnologia, ao estilo Silicon Valley californiano, já designado por Info Mesa.

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