Don Tapscott, o guru da economia digital,
fala do neologismo que criou (1996)

Formado em Psicologia e Estatística, Don Tapscott, é o fundador da Alliance for Converging Technologies e da consultora New Paradigm Learning Corporation. Ambas estudam a transição para a segunda era da informação, apelidada por Tapscott de economia digital. Este é, aliás, o título do seu último livro, publicado no princípio deste ano.

Don Tapscott, tem 48 anos, é canadiano e casado com uma portuguesa. Começou a sua actividade profissional como consultor independente e aderiu, em 1986, ao grupo de consultoria canadiano DMR Group, sediado em Toronto. Abandonou-o em 1993, levando consigo o seu colega, sócio e amigo Art Caston, com quem escreveu o best-seller Paradigm Sifth, o livro que lhes garantiu o reconhecimento internacional. Em 1995, publicou Who Knows, um livro dedicado ao problema da privacidade nas auto-estradas da informação, desta vez em co-autoria com Ann Cavoukian, Comissária da Informação e Privacidade do Governo canadiano.

Tapscott é, também, consultor de diversas entidades governamentais e exerce os cargos de vice-presidente do Conselho para a Infra-estrutura da Informação e o cargo de presidente do Comité de Aconselhamento para a Estratégia de Telecomunicações para a província de Ontario, no Canadá.


Este seu último livro The Digital Economy levanta uma questão prévia... Pensa, de facto, que estamos a viver uma revolução tecnológica e social diferente daquela que Alvin Toffler desenhou há duas décadas?

DON TAPSCOTT - Toffler e outros escritores discutiram a emergência de uma sociedade da informação, durante algum tempo. É absolutamente verdade que uma nova sociedade está a substituir a velha ordem capitalista industrial, que, por seu lado, havia substituído a vaga agrária feudal. Historicamente, movemo-nos de uma idade baseada no aço, nos carros e nas estradas, para uma nova era assente no silício, nos computadores e nas redes. No livro "Paradigm Shift", que escrevi com o meu sócio Art Caston, em 1993, procurámos traduzir estas grandiosas ideias em algo mais terra-a-terra e descrever como é que a nova tecnologia está, efectivamente, a mudar as empresas.

Quais são as suas implicações?

D.T. - O que agora estamos a assistir, finalmente, é à ascensão do que chamamos a auto-estrada da informação, que está a mudar as nossas economias e as regras de sucesso nos negócios e de desenvolvimento social em qualquer país. Creio que, até ao aparecimento deste livro, ninguém tinha realmente explicado o que é novo nesta economia.

E uma das características novas dessa economia digital é o que descreve como a convergência de alguns sectores. Quer explicar?

D.T. - Acho que um novo sector está a emergir, precisamente, a partir da convergência dos três "Cês" - da computação (computadores, software, serviços), das comunicações (telefonia, cabos, satélite, sem fios) e do conteúdo (entretenimento, publicações, fornecedores de informação). Este triângulo, definido em sentido restrito, representa actualmente 10 por cento do produto nacional bruto dos Estados Unidos. Em finais de 1996, esta indústria representará cerca de 1 trilião de dólares, assim repartidos: 44% na computação, 28% nas comunicações e outros 28% no conteúdo. Pelo ano 2005, daqui a uma década, terá crescido para uma indústria de 1,47 triliões, um aumento de quase 50%. Então, nessa altura, a computação abrangerá metade do bolo, o conteúdo manter-se-á nos 28% e as comunicações baixarão, relativamente, para 24%.

Esta convergência é o novo denominador comum do tecido económico?

D.T. - Sim. A nova indústria dos media transformou-se na base de todos os sectores. Tal como a energia eléctrica e as estradas deram corpo à infra-estrutura da economia industrial, também a auto-estrada da informação, resultante da convergência, está a tornar-se a base da nova economia. Estes novos media já estão a mudar as artes, a forma como a investigação científica é feita e o modo como o ensino é ministrado. Está no limiar de transformar a empresa tal como a conhecemos, de mudar a forma como fazemos negócios, trabalhamos, nos divertimos, vivemos e, provavelmente, o modo como pensamos.

No seu livro, nunca se refere à ideia de que a nova economia é, sobretudo, uma economia de serviços...

D.T. - A meu ver, o termo economia de serviços implica que a produção industrial deixa de ser importante e que só os serviços é que contam. Enquanto as pessoas tiverem necessidade de satisfazer as suas necessidades básicas (alimentação, vestuário ou habitação) precisamos de produção industrial e de agricultura. A questão é outra: a nova economia e os novos media estão a revolucionar a forma como isso é feito.

Porque afirma que a empresa do futuro não nascerá da reengenharia?

D.T. - Apesar das declarações eloquentes dos teóricos da reengenharia sobre a melhoria do serviço ao cliente, o objectivo real de muitos projectos de reengenharia é moldar os processos e reduzir os custos, principalmente os relativos às pessoas. Obviamente que as empresas precisam de controlar ou reduzir os seus custos. Sem dúvida que os velhos processos da velha economia são um obstáculo à competitividade. Mas, ainda que o "downsizing" seja de louvar em certas situações, não me parece que seja uma estratégia para o futuro. A transformação do modelo da empresa tem de ir para além dessa bomba de neutrões.
O sucesso da nova economia exige que se inventem novos processos de negócio, novos negócios, novas indústrias e novos clientes. No próximo milénio, as empresas têm de ir para além da reengenharia em direcção à transformação da empresa, através das tecnologias da informação. O objectivo não deverá ser apenas o controlo de custos, mas a transformação do serviço ao cliente, da responsabilidade e da inovação.

Dentro desse novo modelo, fala da emergência de um tecido económico molecular. O que é que o diferencia do seu antepassado industrial?

D.T. - A unidade económica principal da economia industrial era a empresa. Uma das suas características era o sistema de comando e de controlo. Esta hierarquia encontra as suas raízes na igreja e nas burocracias militares da era agrária, mas estendeu-se e moldou a firma tal como a conhecemos. O objectivo supremo de cada gestor de topo era fazer crescer a empresa em tamanho, em facturação e em lucros. A unidade de base da nova era digital é o indivíduo, ou a molécula. A hierarquia está a dar lugar às organizações moleculares.

Usa, inclusivamente, a imagem sugestiva de que a empresa do futuro será semelhante a um cristal líquido. Qual é o significado da comparação?

D.T. - Se formos à física vemos que as moléculas, nos sólidos, não têm energia suficiente para se moverem para uma outra parte do sólido. Já nos líquidos é diferente: as moléculas movem-se com facilidade, ainda que tenham forças atractivas entre elas. Certos compostos orgânicos designados por cristais líquidos têm propriedades tanto dos sólidos, como dos líquidos. As moléculas neles contidos formam clusters que podem mover-se e mudar rapidamente, ainda que mantenham um certo grau de estrutura. À medida que as condições se modificaram (como a temperatura,) o estado das moléculas também muda. Penso que esta analogia ajuda a compreender melhor a nova economia. A nova empresa tem uma estrutura molecular, baseada no indivíduo. O trabalhador do saber (a molécula humana) funciona como uma unidade de negócio que se adapta às condições.

Outra das tendências de que fala é a emergência do conceito de vantagem colaborativa, em alternativa ao da vantagem competitiva...

D.T. - A vantagem competitiva é ainda mais importante. Contudo, ela pode ser conseguida frequentemente através da cooperação com os concorrentes. É, por exemplo, o caso da THISCO (The Hotel Industry Switch Company), que é composta pelos maiores grupos hoteleiros do mundo. Eles cooperam para prestar serviços comuns, e têm, por exemplo, um sistema comum de reservas. Isto tem óbvios benefícios para todos eles e para a indústria hoteleira no seu conjunto.

A progressiva liquidação do papel dos intermediários é outra das tendências que aponta em "Digital Economy". Essa gente do "meio" está condenada?

D.T. - As funções e as pessoas que se situam no "meio" vão ter de subir na cadeia de valor, de contrário serão desintermediados. Para a empresa que tem, nos seus circuitos intermédios, agentes, grossistas, distribuidores, retalhistas, brokers ou gestores intermédios, chegou a hora de fazer alguma ginástica estratégica com eles. Eis alguns exemplos. Os músicos e seus produtores não mais necessitarão das empresas de discos, das lojas ou das emissoras, quando a música deles entrar numa base de dados na Net. Os agricultores deixarão de precisar dos grossistas e dos supermercados, quando os consumidores passarem a abastecer-se semanalmente, em casa, do que precisam. Os hotéis prescindirão de agentes de viagens para reservas e marcações, quando isso for feito pelos turistas, que farão as suas próprias marcações.

Essa tendência de "desintermediação" também ocorrerá a nível geo-económico e geo-político?

D.T. - Entendo que o mundo bipolar se tornou multipolar. Os muros estão a cair, literal e figurativamente, em todo o mundo devido, em parte, às tecnologias. À medida que o mundo geo-político se desintegra, criando um ambiente global mais volátil e dinâmico, as muralhas económicas também caem, por sua vez. Este fenómeno está ligado à emergência da nova economia. Como refere Peter Drucker, o conhecimento já não conhece fronteiras. Não há saber doméstico, por um lado, e saber internacional, por outro. Só existe a economia mundial, ainda que a organização opere a nível nacional, regional ou local. Se juntarmos o poder das redes internacionais aos comentários de Drucker, fica claro que estamos a caminhar para um planeta do tamanho da cabeça de um alfinete, por onde hão-de passar mudanças radicais nas estruturas e no poder - e não só no ex-mundo comunista, como já sucedeu.

Em "Digital Economy" salienta a criação de clusters de empresas virtuais ligadas por redes globais e aponta como exemplos. Quer explicar melhor como se estão a reestruturar estes novos negócios?

D.T. - Posso dar um exemplo. Há um mercado enormíssimo de habitação em Tóquio, onde a idade média do operário de construção civil é de 55 anos e onde escasseiam as matérias-primas. Esta oportunidade está a ser aproveitada por clusters de negócios em rede, nascidos na Net. Um está sediado em Calgary e outro em São Francisco. São formados por empresas de produtos florestais e de electrodomésticos, arquitectos e construtores ligados às canalizações e ao aquecimento, à carpintaria e à colocação de telhados e de soalhos. Este último chama-se "The Internetworked Building Group". O cliente nipónico escolhe o plano de soalho, o número de quartos de dormir, de casas-de-banho e outros pormenores da decoração. Passeando-se pela casa virtual no ecrã, ele pode fazer as alterações que quiser. Quando o desenho estiver concluído é possível calcular, em tempo real, o custo do produto final. Esse projecto será posteriormente passado, através da Net, para os outros parceiros do cluster, que passam ao fabrico da estrutura em vários locais, onde existem as competências e as matérias-primas necessárias. Três semanas mais tarde, a casa está num contentor e ruma a Tóquio para a montagem final no local. Sem a Net levaria meses a construir a casa.

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal