O artista-ciborg Stelarc em carne e osso na janelanaweb.com

Arte na Fronteira da Tecnologia - o humano «ampliado» no século XXI

Jorge Nascimento Rodrigues na pele do Ardina na Web em linha com mais este personagem singular na Austrália em Janeiro de 2001

Versão reduzida publicada no semanário português Expresso

Site de Stelarc
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Galeria de Fotos das performances do artista
Outra gente singular

Nota: As fotos aqui reproduzidas são propriedade de Stelarc. Não podem ser copiadas sem sua autorização expressa (c) 2000/2001 Stelarc

Ideias de choque
  • O corpo humano está obsoleto
  • O corpo humano pode e dever ser «ampliado» com próteses inteligentes
  • Ligado à Web é um novo 'media'
  • A sinergia Homem-Web permite a teleoperação por outros humanos ou formas de vida artificial
  • Foi o falecido Herbert Marshall McLuhan, na sua célebre obra Understanding Media, que afirmou que o artista de vanguarda se «apercebe do desafio cultural e tecnológico umas décadas antes do seu impacto realmente ocorrer».

    Stelarc, um cipriota nascido em Limassol há 54 anos atrás, e que se radicou na Austrália (vivendo hoje na região de Victoria), tem chocado com os seus espectáculos artísticos na fronteira da tecnologia dando imagem, som e cor a um ser humano «ampliado» nas suas funções ou literalmente «conectado» ou «teleoperado» à distância por outros. Ele surpreendeu Lisboa em 1997 no quadro do Festival Atlântico com dois espectáculos, um na Antiga Litografia de Portugal e outro no Centro Cultural de Belém. É indiscutivelmente gente singular.

    O corpo humano está obsoleto - um ciborg é fisiologicamente possível

    Stelarc tem feito essa «extensão» do corpo humano, que considera «obsoleto», desde o final dos anos 60 com os seus primeiros espectáculos multimedia.

    A sua visão da situação actual do corpo humano e da humanidade é muito radical para uma mente conservadora, pelo que o leitor prepare-se, pois a declaração seguinte pode conter frases eventualmente chocantes: «Pode parecer poético quando eu falo do obsoletismo do corpo humano actual, mas a visão que eu tenho não é utopia. Se já se pode fertilizar fora do corpo humano e alimentar um feto fora do útero feminino, então - tecnicamente falando - podemos ter vida sem nascimento. E se até podemos substituir partes do corpo humano que funcionam mal e colocar lá componentes artificiais, então - mais uma vez, tecnicamente falando - não há necessidade de morte. Chegamos a uma situação em que a vida já não é mais condicionada pelo nascimento e pela morte. O corpo não necessita mais de ser 'reparado', pode simplesmente ter partes substituídas», disse-nos neste contacto com a janelanaweb.com.

    Para ele, o corpo humano é uma estrutura evolutiva, cuja arquitectura pode e deve ser «redesenhada» e em que a tecnologia é um «apêndice». «A minha permissa, referiu-nos o artista, é que o corpo humano pode ser encarado como uma arquitectura evolutiva. Tecnologias biocompatíveis e instrumentos que permitam intervenção genética transformam em possibilidade real intervenções não só para propósitos médicos, como para fins cosméticos ou opções de ‘design’».

    Entre as suas próteses mais famosas estão um terçeiro braço e um terçeiro ouvido e experiências com máquinas andantes comandadas por movimentos de braço.

    Veja uma selecção de fotos das «performances» de Stelarc

    O ponto de vista do artista é que a noção de um ser «ciborg» está a transformar-se em algo fisiologicamente possível, sem se tratar de ficção científica. O autor recusa mesmo a moda do «startrekismo» fantasista com fins comerciais.

    «Sou apenas um artista interessado nas implicações estéticas e filosóficas de um corpo com próteses e de construções de tipo ciborg», diz-nos Stelarc, repisando «que não há saídas de negócio para as iniciativas artísticas que desenvolvo». «Nenhum dos meus protótipos foi vendido, nem há nenhum para ser comercializado», prossegue na conversa que teve connosco.

    O corpo ligado à Net - um 'media' de tipo novo

    Com o advento da massificação da Internet e da Web, ele vê a possibilidade de um salto qualitativo no ciberespaço – o da colaboração física à distância e da teleoperação por uma população de organismos vivos (outros seres humanos) e artificiais (agentes inteligentes, por exemplo). A ideia é a do corpo humano se transformar numa interface, num ‘media’ de tipo novo.

    «A Net deve deixar de ser apenas um veículo de transmissão de informação para se tornar mum meio de acção física efectiva. A Internet é como um sistema nervoso que pode conectar – literalmente falando – corpos e organismos que são nós dessa rede», explica o artista que usa a ideia de «carne fractal» (fractal flesh) como etiqueta para essa experiência.

    Ele recusa encarar esta «ampliação» como uma perca do emocional humano. Pelo contrário, sublinha-nos Stelarc, «um corpo ciborg não é equivalente a perca, mas sim a excesso, a 'mais'. Não se destina a perder o comportamento emocional, mas a ter experiências adicionais».

    O próximo projecto - o Robô Radical

    O seu mais recente projecto é a continuação de uma máquina andante de 6 pernas e 600 quilos a que deu o bizarro nome de «Exoskeleton». Baptizado de «Robô Radical», o novo projecto terá 1/3 do peso do irmão mais velho e será mais dinâmico, ondulante e rápido. Espera poder apresentá-lo ao mundo no final deste ano (2001). O financiamento foi assegurado pelo Wellcome Trust e o projecto está a ser desenvolvido com a Universidade de Nottingham Trent (onde é investigador principal na Faculdade de Arte e Design) e com a colaboração da Universidade de Sussex. Um «design» mais elegante foi feito por Inman Harvey da Cognitive and Computing Sciences.

    A sua arte é representada pelas Galerias Sherman de Sydney. Stelarc tem duas filhas, Astra de 24 anos e Nova, de 18 anos - nomes também singulares.

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