Prémio Nobel fala da Nova Economia depois do crash

A. Michael Spence, um dos três premiados com o Nobel da Economia (2001)

«Assimetria de informação é parte da inovação»

Jorge Nascimento Rodrigues com o Nobel Spence do outro lado da linha em Stanford

Entrevista em versão reduzida publicada no semanário português Expresso

Sites de referência sobre o Nobel Spence
 Press Release da Academia Nobel | CV de Spence em Stanford 
Noticia de Stanford sobre o Nobel

Outro Nobel entrevistado na janelanaweb - Herbert Simon (Economia 1978)

O termo "informação assimétrica" foi chutado para a ribalta com a recente atribuição do Prémio Nobel da Economia a três académicos norte-americanos que se notabilizaram em investigações nesta área no terreno da microeconomia. George Akerlof, da Universidade da Califórnia em Berkeley, Joseph Stiglitz, da Universidade de Columbia, e A. Michael Spence, da Universidade de Stanford, foram pioneiros nesta área, que provocaria, ao longo dos anos, um conjunto de aplicações em sectores como o dos seguros e depois dos mercados financeiros, o que provocou uma "revolução" nestes campos. Um dos trabalhos mais antigos foi o de Akerlof em Agosto de 1970 no Quaterly Journal of Economics.

Em termos simples, fala-se de assimetria na informação quando um dos agentes numa dada transacção dispõe de um informação (crucial) que o outro não tem, ou quando um dos agentes não consegue descortinar as acções do outro. Cria-se, assim, uma desvantagem óbvia para um dos lados. É um exemplo por excelência da célebre máxima de que "saber é poder". Ora este cenário é o mais comum na economia que não é, de modo algum, o reino da "informação perfeita", pelo contrário.

A. Michael Spence, um dos três laureados, tem a particularidade de se ter "misturado" com a vida turbulenta dos últimos dois anos no Silicon Valley, estando envolvido em capitais de risco ligadas à alta tecnologia, e inclusive participando na direcção de algumas empresas bem conhecidas do 'high-tech'. Ex-reitor da Graduate School of Business da Universidade de Stanford, Spence é um indefectível do papel revolucionário da Internet e dos empreendedores, que, por um período curto de tempo, dispõem de uma vantagem enorme assente em "informação assimétrica". O que mostra que "a assimetria não é uma coisa obrigatoriamente má", referiu-nos.

DA FILOSOFIA AO CAPITAL DE RISCO (NO SILICON VALLEY)
A. Michael Spence A atribuição do Prémio Nobel apanhou-o de madrugada no Hawai com a sua mulher Monica. Hoje com 58 anos, A. Michael Spence foi, até há dois anos, reitor da Graduate School of Business da Universidade de Stanford, no coração do Silicon Valley. Deixou este cargo para se envolver no mundo do capital de risco no período "quente" recente, sendo sócio da Oak Hill Capital Partners e da Oak Hill Venture Partners, onde seguiu um conjunto de investimentos em alta tecnologia. Ele continua a participar, também, nas direcções de empresas e instituições como o Bank of America, Sun Microsytems, Nike e Siebel Systems.
Este Nobel da Economia licenciou-se em filosofia em Princeton, onde era um exímio jogador de hóquei, e doutorou-se em economia em Harvard em 1972. A sua actividade académica nos últimos 30 anos "comutou" entre a costa Atlântica e o Pacífico. Entrou como professor na Universidade de Stanford, na Califórnia, em 1973 onde leccionou até 1975, altura em que alcançou o lugar de professor de economia e gestão em Harvard, rumando, de novo, à costa atlântica.
Em 1983 foi galardoado com o Prémio John Kenneth Galbraith por excelência no ensino e com a medalha John Bates Clark pelas suas contribuições para o pensamento económico, na altura um académico "jovem" com menos de 40 anos. Em Harvard chegou a reitor da Faculdade de Artes e Ciências de Harvard, cargo que exerceu entre 1984 e 1990.
A década de 90 viria a vivê-la, de novo, na Califórnia, onde veio ocupar o cargo de reitor da Graduate School of Business, em Stanford. No exercício deste lugar, foi um dos impulsionadores do projecto Stanford Computer Industry, envolvendo empresas do sector, escolas de gestão e de engenharia da Universidade e a Stanford Integrated Manufacturing Association.
Michael Spence é autor de três livros, nomeadamente do acabado de publicar Creating and Capturing Value - Perspectives and Cases on Electronic Commerce, pela John Willey & Sons.

A teoria da assimetria no campo da informação é susceptível de ser "estendida" ao campo da política e da percepção do papel que ela desempenha desequilibrando o jogo da geo-política.

Informação assimétrica dos inovadores é vantagem

A informação assimétrica é uma "arma" crítica para os empreendedores? É vital para a criação de "start-ups" e de "spin-offs", particularmente no terreno da alta tecnologia?

A.MICHAEL SPENCE - Totalmente. As "start-ups" são função de gente com novas ideias e com uma janela de oportunidade muita curta no tempo. A vantagem tem de ser ganha num tempo muito curto - o que é, ainda, mais verdadeiro na alta tecnologia, em particular. A informação assimétrica é, indiscutivelmente, uma "componente" fundamental. Mas é claro que essa informação assimétrica que os empreendedores têm não dura para sempre. Mas enquanto perdura é uma vantagem.

E como é que os capitalistas de risco - aí no Silicon Valley - "usam", se assim se pode dizer, informação assimétrica para avaliar e decidir sobre os novos negócios em que investir?

A.M.S. - Não sei se a usarão assim formalmente. Não usam as mesmas palavras que nós empregamos no trabalho académico. Mas a informação assimétrica ganhou ainda mais projecção com a Internet. A Net foi o acontecimento mais importante nos últimos anos que modificou os mercados financeiros e a economia. Nos mercados financeiros, o uso de informação assimétrica é algo que está arreigado. É provável que esses especialistas nunca tenham lido os nossos "papers" científicos (risos), mas que a usam é um facto.

Crê que a informação assimétrica pode ser vital em sectores emergentes hoje em dia, como a biotecnologia/genómica e a computação em "grelha", para só citar dois sectores com um enorme apetite de investidores?

A.M.S. - No mundo académico a informação assimétrica não funciona - a comunidade científica tem uma série de regras e valores que implicam a divulgação dos resultados e encarar a nossa investigação como um "bem público". No sector privado, é óbvio que é diferente. O saber é proprietário e pode constituir uma fonte de assimetria.

Uma grande ideia de Schumpeter

No sentido schumpeteriano, a inovação necessita sempre de um certo grau de informação assimétrica nas mãos dos inovadores e dos empreendedores?

A.M.S. - Exactamente. Essa foi uma grande ideia de Schumpeter que mostra que a assimetria na informação não é uma coisa obrigatoriamente má. A assimetria de informação é parte da máquina da inovação.

Já mencionou o caso dos mercados de capitais. Aí a informação assimétrica é uma "ferramenta" fundamental. Como é que a podemos distinguir do uso ilegítimo de informação privilegiada?

A.M.S. - É, de facto, preciso distinguir a informação assimétrica da "inside information". A primeira é criada por gente que é capaz de perceber as tendências no mercado financeiro, o que é diferente da informação que vem de dentro da empresa. Mas os "insiders", em geral, têm uma janela de actuação muito curta, são poderosos nesse curtíssimo período. Mas, no fundo, tudo depende do jogo que se joga - o legítimo ou o que não o é.

O Erro da euforia dot-com foi a pressa

A informação assimétrica influencia as "bolhas" e depois os "crashes" dos mercados bolsistas, como aconteceu com a ascensão e queda do Nasdaq desde o ano passado?

A.M.S. - A questão foi esta a meu ver - a Net foi uma mudança enorme, e todos nós entrámos num território que não conhecíamos, em que não havia dados nem experiência. Quando uma coisa destas acontece, as regras e normas usuais são suspensas - deixam de funcionar na nossa cabeça. Passado algum tempo, os dados começaram a ser óbvios - e o mercado tende a voltar ao "normal" nas avaliações. O principal erro a meu ver foi o de muita gente ter julgado, ter sonhado, com uma mudança do dia para a noite, quando é algo que levará uns 10 a 15 anos. Ao contrário do que alguns pensam, a mudança não desapareceu, bem pelo contrário. O erro não foi em ter visto essa mudança - mas a "pressa".

Tem alguns planos para prosseguir a sua investigação em torno da informação assimétrica?

A.M.S. - Eu tenho estado concentrado na área dos investimentos em alta tecnologia. Mas creio que começa a ser uma boa altura para avaliar o que se passou desde o surgimento da Net: será que a informação assimétrica melhorou o mercado? Quero ver se arranjo tempo para avaliar em que sentido mudaram as coisas.

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