A bio-empresária que «vacina» carraças

Maria João Gomes-Solecki é a alma portuguesa da Biopeptides, uma "start-up" de biotecnologia localizada em Nova Iorque, que espera singrar no mercado exterminando um micróbio que parasita a carraça e provoca, nos humanos, a doença de Lyme. Mais um caso de "Portugueses lá fora".

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de www.janelanaweb.com, em Nova Iorque,
com Maria João, Junho de 2005

Há dez anos o Verão foi "quente" para Maria João Gomes, uma licenciada pela Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa. Depois de três anos com uma bolsa de formação do PEDIP no Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial, em Queluz de Baixo, na área de imunologia, a jovem veterinária fez um estágio de três meses em Nice, onde um encontro faria mudar a sua vida profissional. Na Riviera francesa, Maria João conheceu um professor americano que a desafiou a ir trabalhar com ele para os Estados Unidos. «Durante o Verão de 1995 medi os prós e os contras dessa opção e em Outubro desembarquei em Nova Iorque», diz-nos esta portuguesa de 37 anos, hoje a viver no East Side de Manhattan. Maria João transitou de Queluz de Baixo para investigadora no Departamento de Bioquímica e Biologia Celular da Universidade Estatal de Nova Iorque (mais conhecida por SUNY) em Stony Brook, uma das três "villages" de maior charme na região de Long Island.

Mal imaginaria que esta guinada a levaria a escrever, em parceria, vários artigos científicos de relevância, a colocar três aplicações para patentes nos Estados Unidos, a conseguir mobilizar mais de 2 milhões de dólares em financiamentos pelo National Institute of Alergy and Infectious Diseases, ligado ao National Institutes of Health, uma agência do Departamento norte-americano da Saúde, e a acabar por...ser empresária, entrando, este ano, como sócia, da Biopeptides, uma "start-up" de biotecnologia criada em 2001, onde detém 36%. A sua vida pessoal daria, também, uma volta, agregando ao nome o apelido de Solecki, por parte do marido, um americano de origem polaca.

Maria João é, também, desde 2004, professora assistente no Departamento de Microbiologia e Imunologia do New York Medical College, uma importante Escola privada de Medicina no pitoresco vale do rio Hudson. «Cerca de 70% do meu tempo é gasto na empresa, que ocupa espaço na própria universidade, e os restantes 30% dedico-os a ensinar. De modo que é o casamento perfeito, pois é na Universidade que eu tenho o estímulo para criar novos produtos que sejam comercializáveis», sublinha a empreendedora lusa.

O bicho maldito

O responsável por estas andanças transatlânticas de Maria João é uma doença - a doença de Lyme, que causa sequelas artríticas e neurológicas nos humanos - e um maldito micróbio, que dá pelo nome de baptismo de Borrelia burgdorferi, que parasita a carraça. «Esta doença é muito frequente na costa nordeste dos EUA e em Portugal, recentemente, identificou-se a Borrelia lusitaneae», explica a investigadora-empreendedora. A doença tem gerado, também, grande preocupação no Brasil. A arma de guerra biotecnológica que Maria João, Raymond Dattwyler - o médico de 59 anos, seu principal sócio e parceiro de "papers" - e a equipa da Biopeptides está a preparar é uma vacina oral para ser distribuída aos animais hospedeiros da carraça. O conceito é simples, baseado numa cadeia de relações: «A ideia é vacinar os animais, que podem transmitir a doença aos humanos, de modo que as carraças quando se alimentam neles ficam também 'vacinadas', livres do micróbio, limpas da Borrelia».

A caminho do mercado

No prazo de três anos, a Biopeptides conta ter a vacina oral contra a Borrelia no mercado. Os financiamentos em curso permitirão, também, desenvolver um "kit" de diagnóstico contra a doença de Lyme - "tão simples quanto um teste de gravidez" - e um outro meio de análise para detecção rápida de exposição ou infecção à Yersinia pestis (um cocobacilo que se pode hospedar em humanos e animais provocando a peste) ou a armas biológicas baseadas no bichinho.

A equipa da empresa é multinacional - quatro americanos (incluindo o sócio-médico, um advogado e um contabilista), três portuguesas e uma brasileira. Maria João trouxe para o projecto duas recém-licenciadas portuguesas que vieram estagiar para o laboratório em Nova Iorque - Tânia Contente, do Curso de Química Aplicada da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, e Vera Neves, do Curso de Biotecnologia da Universidade Lusófona.

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal