Homenagem a Herbert Simon, Nobel da Economia de 1978

«Mais comunicação nem sempre é melhor»

O psicólogo que quebrou o dogma neo-clássico do gestor como um decisor "racional", o que lhe valeu o Prémio Nobel da Economia em 1978, critica os exageros em torno da revolução da Web. Eis o primeiro Nobel a inaugurar esta secção da Janela na Web

Jorge Nascimento Rodrigues com Herbert Simon, antes de falecer em Fevereiro de 2001

Versões reduzidas publicadas no semanário português Expresso
Entrevista de Herbert Simon sobre a Gestão publicada na revista Executive Digest

Herbert Simon No meio de toda esta euforia sobre a Nova Economia e a emergência da World Wide Web como a ponta de uma enorme revolução nas comunicações, um psicólogo, Prémio Nobel da Economia em 1978, vem colocar alguma água na fervura.

«Mais comunicação nem sempre é melhor. Nada na 'Revolução da Informação' - mais uma 'buzzword' - muda o número de horas disponíveis para o exercício da atenção humana durante o dia. Um bom desenho organizacional deve equilibrar as vantagens da transmissão da informação com os limites temporais que cada um de nós tem para absorver informação. O resto é discurso», afirma-nos o Nobel Herbert Alexander Simon, que aos 84 anos mantém uma vida profissional muito activa e usa o correio electrónico como um jovem cibernauta.

O que quer que se diga sobre os "milagres" da Internet choca com «limites fixos em relação ao número de coisas com que um humano pode lidar em simultâneo. O meu 'e-mail', apesar desta nossa simpática conversa, não me dá mais informação; o que sucede é que ele pode mudar-me as prioridades sobre a informação concreta a que eu dou atenção», refere este professor de Psicologia e Ciências da Computação na Universidade de Carnegie-Mellon, laureado há 22 anos atrás pelo seu trabalho sobre o processo de decisão dos gestores e dos empresários.

Confessa-se espantado com os exageros que são descritos sobre o impacto da Web no curto prazo. «Em relação ao longo prazo, não vou predizer que não haverá uma série de mudanças. Por exemplo, na produção, há uma série de novas oportunidades para um controlo mais eficiente dos inventários de mercadorias em diferentes estágios do processo produtivo ou mantidos em diferentes locais. Mas o longo prazo são décadas ou mesmo séculos - não meses», salienta este estudioso da organização nos últimos 50 anos.

Não está, por isso, muito "ciente" de que haja uma Nova Economia. «Certamente que tenho olhos para ver uma mudança contínua na economia, mas tenho-a visto ao longo do tempo - sobretudo na direcção de uma produtividade maior e de uma internacionalização crescente», refere Herbert Simon. Mas, logo, alerta para uma das ratoeiras do discurso da globalização: «Gostaria de deixar um aviso em relação à ideia de que, subitamente, tudo é diferente. Devo lembrar, como já o fizeram diversos estudos, que, em termos relativos, o comércio internacional em percentagem da actividade económica mundial é hoje a mesma do que era nos tempos da Iª Guerra Mundial».

Herbert Simon é hoje considerado uma figura importante na história da gestão deste século que agora finda. Para muitos académicos, ele é colocado a par de Peter Drucker, considerado o "pai" do management e o decano dos gurus ainda vivos, com 90 anos (em breve, com 91).

Simon precipitou uma revolução na micro-economia, na forma de se encarar a decisão e o processo de decisão dos gestores e empresários, quer em relação às decisões de organização internas, como nas de negócios, rompendo com a abordagem "racionalista" neo-clássica. A incerteza sobre o futuro e os custos de obter uma informação "completa" no presente, limitam, naturalmente, a "racionalidade" das decisões que são tomadas, levando o gestor não a maximizar ou optimizar, mas a satisfazer aspirações, falíveis como tudo na vida. Foi esta abordagem que lhe valeu o Nobel no final dos anos 70.

Em Modelos de Racionalidade Limitada, um livro posterior ao Nobel, publicado em 1982 (Models of Bounded Rationality, esgotado, mas cuja edição do volume III de 1997 pode ser adquirida), o leitor pode encontrar um desenvolvimento exaustivo desta abordagem.

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