«Web encorajou sonhos extravagantes»

Há muita gente que investe nos mercados de capitais, particularmente
nas dot.com, como se estivesse a atravessar euforicamente uma ponte
em cima do parapeito. O «crash» pode não estar no virar da esquina, ou copiar 29 ou o mais soft de 87, mas os sinais históricos de uma «exuberância» irracional estão aí, diz o mais reputado académico de Yale especialista
nos mercados de capitais

Jorge Nascimento Rodrigues com Robert Shiller, o autor de Exuberância Irracional,
o «best-seller» na berra sobre os mercados de capitais actuais, publicado em Abril 2000

ENTREVISTA EXCLUSIVA JANELA NA WEB em cima do lançamento do livro
pela Princeton University Press

Versão reduzida publicada no Expresso de 6 de Maio de 2000

LINKS DE SHILLER
Página na Web de Shiller | Cowles Foundation
 Irrational Exuberance, publicado pela PUP em Abril 2000 (compra do livro) 
Market Volatility, publicado em 1989 (compra do livro)

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Se a história servir de lição... | As ideias centrais de Shiller
 Os valores-chave do PER ao longo do século XX segundo o estudo de Shiller 

O mais conhecido académico de Yale ligado ao estudo dos mercados de capitais, admite que possa não estar, no horizonte, um «crash» abrupto, cujos rumores se espalham desde início do ano. Mas, entre palavras cautelosas, próprias de um académico reputado, deixa recados óbvios, para quem não esteja surdo e cego... contaminado viralmente pela tal «exuberância irracional», que fez o título do seu mais recente «best-seller», muito oportunamente lançado em Abril.

Robert Shiller Há muita gente que está a investir nas bolsas como se «atravessasse uma ponte em cima do parapeito» - é a imagem, o mais delicada possível, para o que está a acontecer, dada por Robert Shiller, 54 anos, professor de Economia na Universidade norte-americana de Yale e investigador da Cowles Foundation, nesta entrevista exclusiva.

O mercado bolsista norte-americano vive hoje um dos período típicos de «exuberância irracional» - a célebre frase lançada em 1996 por Alan Greenspan, o patrão do Federal Reserve Board (FED, abreviadamente), o Banco Central norte-americano. Frase que se transformou, no livro de Shiller acabado de lançar, na síntese «popular» de toda uma investigação teórica sobre o comportamento dos mercados de capitais e dos seus protagonistas em determinados períodos.

Por coincidência, o período actual é, historicamente, o mais «exuberante» de todos (ver caixa). Nem no já dramaticamente famoso ano de 1929, os múltiplos (o indicador usado pelos especialistas do mercado de capitais, com base no chamado PER) atingiram os valores estratosféricos actuais, superiores a 44, acima dos 32,6 a que chegou em Setembro de 1929.

Para Shiller, sem disso fazer qualquer juízo de valor, o comportamento actual dos investidores foi «incendiado» pela vaga da Internet e da Web desde meados dos anos 90 e tem tido efeitos amplificadores nos media e num novo paradigma de pensamento típico de uma mentalidade e psicologia de «Nova Era».

Capa do livro Irrational Exuberance O professor Shiller desenvolveu, desde há muito, um corpo teórico sobre este comportamento típico do mercado financeiro. Um seu anterior livro, sugestivamente intitulado, Volatilidade do Mercado (datado de 1989), era basicamente uma investigação académica sobre os mercados financeiros de todos os tempos (compra do livro).

Agora, com Exuberância Irracional (compra do livro), publicado em final de Abril de 2000 pela Princeton University Press, largou as fórmulas matemáticas e enveredou por ser mais opinativo, para tornar acessível o assunto. Para ele, «exuberância» tem a tonalidade certa - não se trata de loucura. É como se as pessoas se acometessem de uma paixão súbita, o que, misturado com a avidez e o radicalismo, dá o frenesim que se sabe. Mas isto não é «doença», é a psicologia típica de quem vai aos mercados de capitais.


Tem algum fundamento a ideia, que tem sido difundida, de um boom económico nos Estados Unidos, historicamente sem precedentes, desde 1982?

ROBERT SHILLER - Eu diria que o acontecimento do século, verdadeiramente surpreendente, não está aí, na esfera do crescimento económico, com o tal «boom longo» de que se tem falado - mas no mercado de capitais. Neste caso, pode até falar-se de um boom do milénio no mercado de capitais entre 1992 e o ano 2000. Eu analiso no meu livro o índice S&P (Standard and Poor's Composite Stock Price Index) entre Janeiro de 1871 e Janeiro deste ano, e não há paralelo em outros períodos históricos ao longo de mais de um século. Só o boom do mercado de capitais dos anos 20 - que culminou com o «crash» de 1929 - pode ser considerado um concorrente sério a este palmarés.

Mas nesse boom financeiro, não terá sido a vaga da massificação da Internet e a criação da World Wide Web, em meados dos anos 90, que permitiu um «chuto» até aos 5000 pontos em Março passado no NASDAQ (compósito), o mercado do «hi-tech»?

R.S. - Esse foi um dos factores «estruturais», como eu refiro no livro, juntamente com um factor cultural ligado a um pensamento do estilo «Nova Era». A Web pareceu oferecer a possibilidade das empresas se expandirem pelo globo virtualmente sem limites e muito rapidamente. Esta imagem teve um efeito psicológico imenso - encorajou sonhos extravagantes para os investidores no mercado de capitais. Esta gente parece esquecer por vezes, que a Web, também, torna mais fácil a vida para os concorrentes. No entanto, ainda é cedo para avaliar o efeito último da Web nas valorizações do mercado de capitais. Penso, no entanto, que os investidores não devem ser tão optimistas à conta da Web.

Valores cairão para ½ (daqui a 5 ou 10 anos)

Mas, no fundo, estas euforias recentes do NASDAQ e do próprio Dow Jones Industrial Average- este último disparou de 3600 pontos em 1994 para 11 mil em Janeiro deste ano, e actualmente (final de Abril 2000) anda pela casa dos 10 800 - estão baseadas em factos económicos sólidos, ou estamos perante uma bolha especulativa, imensa, sem paralelo na história?

R.S. - Vamos por partes. A economia norte-americana tem crescido bem e, por esse facto, o mercado de capitais deverá estar «alto». Mas isso não sugere que o tal índice S&P devesse ter triplicado, como aconteceu nos últimos cinco anos! Não posso precisar quanto ele está «inflaccionado». Mas penso que não será difícil imaginar que os valores do mercado daqui a 5 ou 10 anos estarão na vizinhança de metade dos actuais!

No fundo, há sinais claros de uma «bolha» especulativa ou não? Particularmente no caso do NASDAQ (compósito) que «saltou», em menos de um ano, dos 2600 pontos em Abril de 1999 para os 5 mil em Março de 2000, tendo depois caído para os 3900 em finais de Abril, numa primeira «correcção»...

R.S. - Para além dessa valorização excessiva, direi até que há outros indicadores, a que convém dar atenção. O volume de transações disparou. Investidores novatos entraram em manada (se me é permitida a expressão) no mercado. Toda a gente, subitamente, passou a falar do mercado de capitais. Se você for de combóio ou no autocarro, aqui na América, tem imensa probabilidade de ouvir alguém falar da bolsa. Isto é sinal de uma mentalidade especulativa generalizada.

ROBERT SHILLER EM DIRECTO
  • Penso que os investidores não devem ser tão optimistas à conta da Web
  • Apesar do crescimento económico sólido, é um exagero o índice S&P ter triplicado nos últimos cinco anos
  • Não será difícil imaginar que os valores de mercado daqui a 5 ou 10 anos estarão na vizinhança de metade dos actuais
  • O cenário mais dramático de um 'crash' num só dia foi muito exagerado pelos pessimistas. É previsível que esta situação de sobreaquecimento vá arrefecendo ao longo de um período de anos
  • Há sinais claros de uma mentalidade especulativa generalizada
  • Muita gente está a adoptar estratégias de investimento muito arriscadas ao colocar todos os ovos no mesmo cesto
  • Houve dot.com que no «yo-yo» da volatilidade passaram, este ano, em pouco tempo, para ½ ou 1/3 do seu valor cotado...

    R.S. - Há numerosos casos óbvios de valorizações iniciais exageradíssimas de dot.com. Esses exemplos são, por vezes, tão extremos... que até se torna difícil continuarmos a acreditar na tão apregoada «eficiência» do mercado de capitais. (risos)

    Em cima do parapeito

    Será que os Fundos de Pensões e os investidores institucionais deverão colocar todos os ovos nas famosas IPO (primeira ida à Bolsa) e nas dot.com? Isso é uma boa estratégia, aproveitando o momento, ou uma caminhada suicida?

    R.S. - É verdade que muita gente está a adoptar estratégias de investimento muito arriscadas. Talvez não seja uma estratégia suicida - mas diria que estão a atravessar alegremente uma ponte indo em cima do parapeito.

    Essas estratégias arriscadas por parte dos Fundos somadas com a tendência para a privatização excessiva da Segurança Social não o preocupa?

    R.S. - De facto, quanto à privatização excessiva da Segurança Social é preciso ter prudência. Ainda que a privatização tenha vantagens, muitas propostas no sentido da sua privatização vão no sentido de esquecer os riscos a que muita gente - sobretudo a mais débil economicamente - ficará exposta, se a sua segurança social estiver demasiado dependente do mercado de capitais.

    A grande volatilidade actual não vem colocar em cheque a tão apregoada política de opções sobre acções («stock options») que tem sido seguida para «amarrar» executivos e empregados às empresas onde trabalham arduamente 24 sobre 24 horas?

    R.S. - Nuns casos, as «stock options» serão, de facto, muito valiosas. Mas, também, é verdade que as pessoas estão a valorizar exageradamente essas empresas que as concedem. O problema para o pessoal que está nesses esquemas é este: conseguirão exercer o direito de opção e vendê-las antes que a «bolha» rebente? É uma situação, no mínimo, desconfortante e, convenhamos, acaba por não ser um incentivo por aí além.

    Mas a tão falada Nova Economia é uma doutrina credível ou foi criada pelos media, por alguns analistas excitados e pelos consultores depois?

    R.S. - A meu ver não há nada de errado na Nova Economia. Estamos, de facto, a entrar num novo tecido económico. O problema é mais quantitativo do que qualitativo. A questão é esta: até que ponto poderá esta nova economia «chutar» a valorização das acções para tão alto? Mas, diga-me, em que é que esta Nova Economia é diferente de outras «Novas Economias» do passado?

    Durante um período recente, assistimos, nos Estados Unidos, a uma incrível transferência de riqueza das heroínas do Dow Jones e das empresas da «velha» economia em geral para as cotadas no NASDAQ e para os IPOs. Acha que esta fase típica de acumulação primitiva de capital na «nova» economia acabará numa dissipação total, ou pelo menos muito substancial, nos próximos dez anos?

    R.S. - Penso que já começámos a assistir à inversão dessa bifurcação. A «convergência» das duas economias, da «velha» e da «nova», está em marcha e vai continuar. É claro que o conjunto dos mercados de capitais continua sobreaquecido e isso é uma preocupação, confesso.

    Um facto da vida

    Mas será possível «controlar» o comportamento típico do mercado de capitais? Será que é possível - ou até legítimo - «corrigir» esse comportamento, ou isso é um facto da vida, parte integrante da dinâmica do capitalismo financeiro?

    R.S. - Penso que é um facto da vida que as pessoas são «vulneráveis» aos excessos especulativos. Uma das formas de diminuir isto é encorajar a globalização.

    Encorajar a globalização?! Mas essa mesma globalização não está a agravar esse comportamento irrealista? Veja o caso da Europa que «descobriu» há ano, ano e meio, as dot.com, e está a «copiar» as mesmas manias americanas...

    R.S. - Eu penso que o zelo especulativo que «ataca» as pessoas num dado país é pouco provável que seja partilhado automaticamente noutros países. Temos é de desenvolver no mundo muitos mais mercados de capitais ligados à Nova Economia para permitir a diversificação e as apostas múltiplas e simultâneas. Com o tempo, e à medida que os investidores fiquem mais entendidos nas estratégias de diversificação e de apostas múltiplas, a especulação poderá diminuir. Por outro lado, a situação amadurecerá e será introduzida mais sobriedade no mercado.

    O QUE DIZ KEVIN KELLY
    «IGNOREM OS ALTOS E BAIXOS»
    «Os altos e baixos dos mercados financeiros não têm nada a ver com a Nova Economia. Altos e baixos, neste período de emergência de uma nova realidade, têm um significado menor. O único indicador que interessa é o longo prazo», diz-nos Kevin Kelly, o mítico editor da revista Wired que foi dos primeiros «activistas» da Nova Economia. «Fazem-se 'manchetes' dos altos e baixos, e depois, de novo, dos baixos e altos. O que é que isto significa? Apenas que o mercado é volátil», conclui neste rápido depoimento.

     Tudo sobre a Nova Economia com Kevin Kelly na Janela na Web 

    Se a história servir para alguma coisa...
    O «múltiplo» - nome dado ao PER (Price-earnings ratio, na linguagem financeira) - nunca esteve tão alto na história do capitalismo financeiro. Atingiu os 44,52 em Dezembro passado (1999) e os 44,3 em Janeiro deste ano. O que é que isto significa? Que o valor dos «papeis» em bolsa é, em média, mais de 44 vezes superior aos ganhos por acção gerados (ou previsíveis)! O valor mais próximo aconteceu em Setembro de 1929, quando o PER chegou aos 32,6.
    O primeiro caso de máximo do século XX foi em Junho de 1901 quando o PER atingiu os 25,2, no quadro de um optimismo com a viragem de século. O seguinte foi em Setembro de 1929, como já referido, e o terceiro em Janeiro de 1966, quando o múltiplo chegou aos 24,1, na sequência de um disparo desde 1960.
    Mas, sabe-se, sempre, o que aconteceu a seguir à valorização excessiva do mercado, olhando para o índice S&P (Standard & Poor's). Em Junho de 1920, o mercado de capitais tinha perdido 67% do seu valor real de 1901. Em Junho de 1932, o valor tinha caído de 80,6% em relação ao pico nos «quentes» anos 20. E em Dezembro de 1974, estava a 56% do valor atingido em Janeiro de 1966. Os números e a sua análise podem ser consultados, ao detalhe, em Exuberância Irracional, o livro de Robert Shiller, ou na página pessoal do académico.

    DADOS BASE DA EVOLUÇÂO DO PER AO LONGO DO SÉCULO XX
    Janeiro 1901 - 20,97
    Junho 1901 - 25,2 (primeiro ponto máximo histórico)
    Junho 1920 - 5,04 (ponto mais baixo deste primeiro ciclo)
    Janeiro 1929 - 27,08
    Setembro 1929 - 32,56 (segundo ponto máximo histórico, pré-crash)
    Janeiro 1930 - 18,21
    Junho 1932 - 5,55 (ponto mais baixo após o crash de 1929)
    Janeiro 1966 - 24,05 (terceiro ponto máximo histórico)
    Dezembro 1974 - 8,28
    Janeiro 1982 - 7,38 (ponto mais baixo deste período de crise subsequente aos choques petrolíferos)
    Agosto 1987 - 18,32
    Dezembro 1987 - 13,38 (quebra derivada do crash de 87)
    Janeiro 1992 - 19,77 (início do maior boom financeiro do século)
    Dezembro 1995 - 25,02
    Janeiro 1999 - 40,57
    Dezembro 1999 - 44,52 (ponto máximo histórico do século até à data)
    Janeiro 2000 - 44,30

    Fonte: Página de Estatísticas na Web de Robert Shiller

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