A guinada da SAP

A multinacional alemã pretende até 2007 ganhar a corrida para liderar uma plataforma global de tecnologias de informação no mercado empresarial. A sua estratégia é criar "um ecossistema SAP". A outra perna desta viragem é acentuar a globalização da empresa nas vendas e na produção de investigação & desenvolvimento. Com apenas 33 anos, a SAP quer continuar a afirmar a sua juventude como parte integrante da "Geração (do século) 21"

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, em Walldorf, Alemanha, Março 2005

O mercado das aplicações de software empresarial - desde as funções verticais mais correntes até às bases de dados - entrou num período de amadurecimento, em que a fragmentação da oferta continua elevada e o risco de "commoditização" (de transformação em mercadoria, sem vantagem distintiva) das diferentes aplicações aflige os protagonistas deste mercado.

A solução até 2010 parece encaminhar-se para a focalização por parte dos fornecedores especializados e para um movimento de consolidação entre os actores deste mercado, segundo o que responderam 60% dos 4018 gestores entrevistados para um "survey" conduzido pela Economist Intelligence Unit (EIU), da revista The Economist, patrocinado pela SAP, a multinacional alemã líder do mercado de aplicações empresariais.

Contudo, outra necessidade revelada pelo "survey" será a superação da actual babilónia de aplicações dentro das empresas, o que requer uma estratégia de plataforma de "unificação". "Criar um ambiente aberto para toda a gente, um ecossistema SAP", é a grande ambição da multinacional alemã até 2007, nas palavras do seu CEO, Henning Kagermann, um ex-professor de física e de ciências da computação nas universidades de Braunschweig e Mannheim.

Guerra de titãs

A tendência para a consolidação parece ter tocado particularmente a Oracle californiana que se decidiu por ir activamente às compras, através de uma estratégia centrada na aquisição de pares mais fracos ou de respostas taco-a-taco a movimentos dos seus principais "inimigos". E tem-no feito, mesmo se necessário, através de operações "hostis". Em Janeiro de este ano, a Oracle adquiriu num "take over" hostil, ainda que generosamente bem pago, a People Soft, que era o número 3 do sector, e entrou, agora, na disputa com a SAP para a aquisição da Retek (um fornecedor especializado de software de e-business para retalhistas).

A multinacional alemã argumenta que a solução não é este frenesim de fusões e aquisições entre pares - ainda que, no ano passado, tenha, em segredo, negociado "vários meses" com a Microsoft.

Para a Oracle, esta corrida é crítica. Entre 2002 e 2004, a SAP subiu 8 pontos percentuais na sua posição nas receitas de licenças de software, reforçando a liderança com 57% do mercado, e a Oracle (mesmo somando com a PeopleSoft, que, entretanto, havia adquirido a J.D.Edwards) desceu 6 pontos percentuais, ficando nos 23% de quota. Os pares seguintes no "ranking" são a Microsoft (só contando o segmento de soluções empresariais) com 11% e a Siebel com 9%.

A multinacional alemã argumenta que a solução não é este frenesim de fusões e aquisições entre pares - ainda que, no ano passado, tenha, em segredo, negociado "vários meses" com a Microsoft. Para o CEO da SAP, a lógica deverá ser uma estratégia de "aquisições cirúrgicas de pequenos e médios actores, inclusive no campo das aplicações verticais, onde há empresas muito inovadoras" e o avanço para a criação de "um ecossistema de negócios". A compra recente da TomorrowNow insere-se nesta óptica.

A batalha da plataforma

O termo "ecossistema" há muito que entrou no vocabulário dos gurus de Management. A ideia é que a liderança estratégica advirá da possibilidade de "controlar" esses ecossistemas de negócios. O truque é saber como desenhar uma "cadeia de valor" em que diversos protagonistas - sejam fornecedores especializados, concorrentes e clientes - se integram e em que a empresa-estratega lidere.

O paradigma desta lógica na área das tecnologias de informação (TI) tem sido a Intel, que, no mês passado (Fevereiro de 2005), em São Francisco, no seu Intel Developer Forum Spring 2005, debateu animadamente a "plataforma" que tem seguido na última década. Outro ingrediente é a "virtualização", ou seja a alavancagem da Web e da Internet.

«A vantagem competitiva em 2010 será guiada pela habilidade das empresas em criarem cadeias de valor efectivas que sirvam e, em certos casos, criem a procura no mercado», diz o "survey" do The Economist.

O próprio "survey" da EIU refere este truque: "A vantagem competitiva em 2010 será guiada pela habilidade das empresas em criarem cadeias de valor efectivas que sirvam e, em certos casos, criem a procura no mercado". Para os entrevistados no "survey", esta lógica será ainda mais importante do que a diferenciação.

A ambição da SAP é aproveitar esta janela de oportunidade e criar uma plataforma "unificadora" que se torne o standard de integração da babilónia existente de aplicações empresariais, quer sejam suas ou de outros concorrentes ou fornecedores especializados. A própria cadeia de valor evoluiu - passando de "uma estrutura rígida para uma lógica adaptativa, para uma rede de diferentes entidades", particularmente depois da revolução da Web, como Kagermann sublinhou.

E, através desse movimento, a SAP quer retirar "rigidez" à sua própria oferta, fazer a ponte com aplicações alheias, simplificando a vida ao cliente e embaratecendo os custos totais destas soluções. O que permitiria, ainda, à SAP garantir a liderança sem ter de despender milhões e milhões da sua liquidez em mega-aquisições.

O objectivo seria facilitado, também, por uma nova tendência no sector para o cruzamento entre as aplicações e a infra-estrutura de TI, o que já foi designado pelos analistas da J.P. Morgan como "apli-estrutura". Ora, neste terreno, só uns poucos ficarão na corrida. "A grande batalha vai ser saber qual das plataformas de TI ficará no terreno - certamente a que garantir maior ubiquidade", concluiu Kagermann.

A transição para esta lógica tem sido particularmente visível na multinacional alemã desde 2003, com o lançamento da plataforma NetWeaver, que deverá ter atingido as 1500 referências de clientes no final do ano passado. O principal animador da NetWeaver é Shai Agassi, um israelita de 37 anos, um antigo empreendedor em série de "start-ups" de alta tecnologia que se mudou para a Califórnia em 1992 e que tem sido uma das "estrelas" em ascensão fulgurante na SAP, desde que ingressou no grupo em 2001.

O imperativo da globalização

Criada em 1972 em Mannheim, a SAP tornou-se, em 30 anos, a quarta maior empresa em capitalização da Alemanha, logo a seguir a grupos históricos como a Deutsche Telekom, a Siemens e a E.On (na energia), e uma das marcas alemãs globais que mais rapidamente se impuseram. Os fundadores, ainda, detém 38% das acções, mas já nenhum deles está ao leme da empresa desde 2003, quando o carismático Hasso Plattner se retirou. Alcançar esta projecção em uma geração foi, sem dúvida, uma proeza.

A sua estratégia desde início foi sair do espaço europeu e afirmar-se como empresa global. O primeiro objectivo foi implantar-se nos EUA, onde lidera o mercado de aplicações, mesmo à frente dos nativos (nomeadamente o mais directo concorrente, a Oracle/PeopleSoft). Apesar do espaço europeu (a que agregam África e Próximo Oriente) ainda deter 56% das receitas globais, as vendas nas Américas já ultrapassaram os 30%.

Para alcançar uma expressão verdadeiramente global terá de aumentar o peso da Ásia, que está ainda nos 12% - a subida desejada é de 8 pontos percentuais, de modo a chegar a um patamar de 20% dos rendimentos globais da SAP.

Para alcançar uma expressão verdadeiramente global terá de aumentar o peso da Ásia, que está ainda nos 12% - a subida desejada é de 8 pontos percentuais, de modo a chegar a um patamar de 20% dos rendimentos globais da SAP, acentuou Léo Apotheker, responsável pela globalização. Aliás, o "Factor Ásia" perpassou boa parte do encontro promovido pela SAP com jornalistas de economia de todo o mundo, em Walldorf - a Índia e a China foram as "coqueluches" do debate. "A adopção de tecnologias na China é a mais elevada do mundo hoje em dia. E os programadores na Índia estão a desenvolver alto valor acrescentado em cima da nossa plataforma", disse, entusiasmado, o suíço Hans-Peter Klaey, responsável pela SAP Ásia.

O esforço de globalização é, também, observado na política de abertura de laboratórios de investigação & desenvolvimento - 35% do pessoal de I&D, cerca de 9500 crânios, já está localizado fora de Walldorf. A SAP conta com 9 Labs fora da Alemanha, em que o situado em Bangalore, na Índia, representa.16% da massa cinzenta da SAP. Seguem-se Palo Alto, na Califórnia, com 10%, Israel com 6%, e depois Bulgária, China, Canadá, Japão, França e Hungria. Léo Apotheker garantiu, também, que 70% dos novos 3000 investigadores a recrutar serão de fora da Alemanha.

O próprio actual CEO, o alemão Henning Kagermann, admitiu-nos que, "no futuro, o CEO poderá ser de uma qualquer nacionalidade, já que cada vez mais estamos globalizados".


© Janelanaweb.com. Visita realizada em Fevereiro de 2005. Artigo em versão reduzida publicado no semanário Express, caderno de Economia, em 19 de Março de 2005.

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