Olhar de um Físico

por Rui Namorado Rosa

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A China aqui tão perto

O que se passa com o sistema de ensino superior na R.P. China é uma questão de interesse mundial. O persistente avanço dos sistemas de ensino superior e da investigação científica na China tem consequências que se repercutem nos correspondentes sistemas em todo o mundo.

Trata-se de uma impressionante evolução quantitativa e qualitativa, que se traduz na qualificação sustentada da força de trabalho, um crescimento excepcional que se apoia e alimenta o crescimento da produção económica daquele país.

Existem lá, hoje, cerca de 4000 instituições de ensino superior de espectro variado, frequentadas por perto de 15 milhões de estudantes, que têm capacidade para admitir 15% da população na correspondente faixa etária. A China é já presentemente o maior sistema de ensino superior do mundo, conferindo mais graus do que os EUA e a Índia tomados em conjunto. Para além do que, é aquele que tem exibido crescimento mais rápido; por exemplo, a taxa de escolarização na idade de ingresso subiu de 10% em 1999 para 21% em 2006; ao nível de pós-graduação o crescimento é ainda mais espectacular, de 5 mil doutoramentos anuais em 1996 para 34 mil em 2006 (ao nível da Índia, Japão e Reino Unido tomados conjuntamente), que se projecta atinja 50 mil em 2012, já à frente dos EUA.

Em vista do esforço que vem sendo realizado, o governo não hesita em recorrer a recursos próprios e privados, como também aos apoios da UNESCO e do Banco Mundial; e as instituições a recrutar professores e investigadores no estrangeiro, quer atraindo profissionais chineses a trabalhar no estrangeiro, quer atraindo profissionais de outras nacionalidades. Para o sucesso desta política de expansão, o governo cria novas universidades, facilita os procedimentos administrativos, e investe em elevadas remunerações e modernos meios de trabalho.

Os EUA e a UE (em particular o Reino Unido) foram no passado pólos de atracção de estudantes e profissionais altamente qualificados oriundos da Ásia. A "fuga de cérebros" foi identificada como uma forma de exploração neo-colonial. Ora a situação tem mudado nas décadas recentes, quer por intensificação dos fluxos inversos (de estudantes e profissionais asiáticos, do Ocidente para o Oriente, e mesmo de estudantes e profissionais Ocidentais), quer por uma forma de globalização que se manifesta na constituição de parcerias internacionais ou no estabelecimento de pólos de universidades estrangeiras em território chinês (sobretudo da Austrália e do Reino Unido). Estas mudanças servem interesses económicos e culturais mas também confluem para a qualificação da força de trabalho da R.P. China. A China ainda é uma das primeiras proveniências de estudantes estrangeiros nos EUA e na UE, mas essa realidade que foi fundamental para formar muitos estudantes e profissionais chineses nas décadas anteriores, entrou em franca regressão, em vista da crescente oferta e do crescente prestígio das universidades Chinesas e dos mais baixos encargos com estudos na China.

O crescimento do ritmo e da extensão de formação escolar superior é mais ou menos universal. A União Europeia pretendia com a "Estratégia de Lisboa" em 2000 recuperar o seu atraso relativo e superar as outras potências e blocos político-económicos (fazendo então referência aos EUA e ao Japão). Na realidade, o desempenho dos sistemas de ensino superior e de investigação científica, está intimamente articulado com o desempenho do sistema técnico-económico, e a determinação e disciplina na condução de políticas são fundamentais para o seu êxito. As Áreas Europeias do Ensino Superior e da Investigação Científica têm encontrado obstáculos e os seus resultados ficado muito aquém das pretensões anunciadas, como constatado na avaliação intercalar feita em 2005. Países como o Reino Unido têm perdido capacidade de atracção e influencia na esfera da Educação e Cultura e as suas grandes universidades vão ficando diluídas num universo cada vez mais numeroso e pujante a Oriente.

Até Bertil Andersson, director cessante da Fundação Europeia de Ciência e vice-presidente cessante da EURAB (conselheiro da Comissão Europeia para a política da investigação científica da União) foi agora ocupar um cargo dirigente na Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura (cuja língua oficial é o Chinês). Ele afirmou que a sua partida não significa desinteresse pela Europa, e rejubilará quando o Espaço Europeu da Investigação for finalmente uma realidade; e adicionou: "Porém as coisas mexem de forma incrível na Ásia. Investimentos quer públicos quer privados consideráveis são consagrados à investigação. Optei por um cargo que me permite viver de perto esta "revolução asiática". A mobilidade para um cientista é uma via necessária para a formação ao longo da vida." Podemos ficar na dúvida se estas frases utilizam o "calão" oficial da Comissão Europeia para fazer ironia ou por assimilada convicção.

Mas o certo é que este alto responsável por pôr de pé o anunciado Espaço Europeu da Investigação, no quadro da já quase esquecida e falhada "Estratégia de Lisboa" de 2000, reconhece o sentido principal das mudanças em curso e nelas quer ser parte mais activa.

Quando os sistemas nacionais de Ensino Superior e Investigação Científica em Portugal se encontram mergulhados em dificuldades por enquanto insuperáveis, seria bom retirarmos consequências da observação destas outras realidades e dos mecanismos a elas subjacentes, a fim de encontrarmos o caminho para o nosso próprio desenvolvimento. O grande capital internacionalizado encontra o seu caminho para usufruir as mais valias onde e como elas são realizáveis. As elites financeiras e tecnocráticas navegam ao sabor das oportunidades e cumprem no plano pessoal os desígnios do capital.

Cada país, cada povo, terá que encontrar o caminho que convém ao seu próprio desenvolvimento.

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