Olhar de um Físico

por Rui Namorado Rosa

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Sangue por petróleo e heroína

As reservas petrolíferas da bacia do Mar Cáspio têm suscitado grandes apetites. Algumas fontes, designadamente anteriores fontes soviéticas, estimavam reservas ascendendo a 140 mil milhões de barris. Porém, os últimos dez anos de pesquisa foram desanimadores; cerca de 2 000 milhões de barris descobertos em território Russo e cerca de 10 000 em Kashagan, e mais um grande reservatório de gás natural em Shah Deniz. Por outro lado, a exploração das reservas do Mar Cáspio está desde 2000 legalmente sujeita a um tratado que compromete os cinco estados que contornam a sua margem.

A promessa de reservas naturais abundantes suscitaram uma intensa batalha política, com frentes diplomática, económica e até militar, pelo controlo dessas reservas a partir de 1991, logo após o desmembramento da URSS. Não nos deixemos enganar pelas exageradas estimativas de reservas petrolíferas do Mar Cáspio. Recentemente, a BP e a Statoil retiraram-se do Kasaquistão e a Mobil-Exxon do Azerbaijão. Os EUA terão sido os primeiros a exagerar o potencial do Mar Cáspio como argumento para o estabelecimento de parcerias económicas com as repúblicas ex-soviéticas e na esperança de não serem tão dependentes do Médio Oriente. Alguns dos anteriores mitos sobrevivem, mas não chegarão a ter alcance na economia global do petróleo.

Se a economia global caminha para uma séria recessão, como parece já fora de dúvida, então não haverá agora qualquer crise petrolífera, pois que a queda da procura se ajustará à queda da oferta, esta imposta pela finitude das reservas, ou seja, imposta pela Natureza. Se não tivesse sido o acto terrorista de 11 de Novembro em Nova Iorque e a sua intensificação política e mediática a justificar o aprofundamento da crise, o choque petrolífero de 1999-2000 que evidenciou a crise, seria agora a justificação do seu aprofundamento. Estranhamente, uma e outra justificação plausível aparecem localizadas na Ásia Central. Que relação existe entre uma e outra? Provavelmente serão duas faces aparentemente distintas de uma mesma razão mais profunda: a luta pelo controlo de recursos fundamentais ao corrente modelo económico. Quem serão os reais parceiros dessa corrida? Os seus reais cérebros e os operacionais?

Desde o fim da guerra fria, os EUA tencionam dominar a bacia do Mar Cáspio. Com o apoio da administração da norte-americana, Boris Yeltsin promoveu o desmembramento da URRS. As ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, uma vez independentes, ficaram económica e militarmente vulneráveis, particularmente através das relações com alguns países Árabes e alguns países Ocidentais, relações que promoveram a rápida emergência de oligarquias financeiras locais. Os EUA planearam controlar a bacia do Mar Cáspio tirando partido da identidade das comunidades muçulmanas das novas repúblicas e através de investimento agressivo na indústria petrolífera. Só no Azerbaijão, actuam agora 21 consórcios em que companhias ocidentais predominam. Onze consórcios ocidentais controlam mais de 50% dos investimentos na região. Porém o pleno domínio requer também o controlo dos oleodutos.

A Rússia herdara da URSS um extensa sistema de campos de extracção, refinarias e oleodutos, estendendo-se desde a Sibéria Ocidental e do Cáspio até ao Mar Negro, o Mar Báltico e a Europa de Leste. Na bacia do Cáspio as mais importantes reservas reconhecidas situam-se na costa Oeste, no Azerbaijão. O petróleo do Azerbaijão é conduzido por dois oleodutos: um atravessa a Geórgia e termina no porto de Supsa e o outro atravessa a Rússia e a Chechenia e termina no porto de Novorossiysk, ambos sobre o Mar Negro. Sob a presidência de Vladimir Putin, a Rússia continua a investir nas infra-estruturas petrolíferas, frequentemente mediante consórcios internacionais. Recentemente, um novo oleoduto entrou em operação no transporte de importantes reservas das jazidas de Tengiz no Kasaquistão para o porto russo de Novorosssiysk (notar: o campo petrolífero é explorado por um consórcio ocidental e é um consórcio kasaque-russo-americano que explora o oleoduto); um outro projecto russo-italiano em curso explorará um novo gasoduto ("blue stream") para o directo aprovisionamento da Turquia; etc.

O Azerbaijão, tem sido alvo de assédio diplomático por parte da OTAN a propósito de apoio militar para resolução de conflitos territoriais (em Nagorno-Karabakh) com a Arménia. E a Geórgia igualmente (na Abkhazia). Por outro lado, a Chechenia foi tornada numa base de acção terrorista desde 1996, operada por extremistas islâmicos treinados no Afeganistão e no Paquistão e com apoio saudita; essa acção desestabilizou o transporte do petróleo do Azerbaijão; e a partir da Chechenia têm também sido lançadas acções sobre territórios vizinhos (Daguestão e Karachay-Cherkess) que poderiam ser considerados vias de transporte alternativo; os beneficiários da inoperacionalidade desse oleoduto são os consórcios anglo-americanos que procuram dominar os recursos e os oleodutos que saem da bacia do Cáspio. Mas essa é a face político-militar do conflito.

A face económico-empresarial do conflito toma a forma de projectos de investimento ocidental em oleodutos alternativos. Um desses projectos parte de Baku no Azerbaijão, atravessaria a Geórgia e a Turquia, para terminar em Ceyan, no Mar Mediterrâneo. Outro projecto (AMBO) é oleoduto trans-Balcânico, que, após um troço de transporte marítimo no Mar Negro, atravessaria a Bulgária, a Macedónia e a Albânia terminando no Mar Adriático, contornando quer a Rússia quer a Turquia (e o Bósforo). Outra ideia ainda é um oleoduto e um gasoduto subaquáticos trans-Caspianos, correndo ao longo do fundo do Mar Cáspio, evitando a travessia de território russo, para o petróleo e o gás natural do Kasaquistão e do Turquemenistão, sobre a costa Leste do Cáspio.

Estes projectos ocidentais requerem a conjugação de vontades em parte contraditórias; porém, pelo menos, tanto a Geórgia como a Turquia têm estado do mesmo lado no apoio à dissidência Chechena; mas, por outro lado, tanto a Geórgia como a Turquia partilham com a Rússia o interesse de combater o fundamentalismo islâmico, o tráfico de armamento e de droga. Ao longo dos anos, sobretudo após Vladimir Putin ter substituído Boris Yeltsin na presidência russa, a CEI (Comunidade de Estados Independentes) e a OTAN - na forma de Parceria para a Paz. têm diligenciado activamente, cada uma de seu lado, cativar para o seu campo o apoio das várias ex-repúblicas soviéticas.

Para realizar os objectivos do EUA e dos consórcios petrolíferos ocidentais, para além das partes jogadas pelas próprias empresas petrolíferas tem sido diligenciado intenso jogo diplomático para captar o apoio das repúblicas ex-soviéticas, através da OTAN mas não só. O FMI tem sido também manipulado para exercer pressão sobre a própria Rússia. A Ucrânia tem sido também um óbvio alvo de diligências diplomáticas, inclusivamente por parte da OTAN, posto que é, das repúblicas ex-soviéticas, estrategicamente a mais importante (também do ponto de vista do trânsito petrolífero).

Ainda na Ásia Central, a Leste da bacia do Cáspio, o Tadjiquistão, o Kirguizistão e o Uzbequistão não dispõem de reservas petrolíferas significativas mas são relevantes no quadro geopolítico pela densidade populacional, presença de activos movimentos islâmicos fundamentalistas com apoios no Paquistão e no Afeganistão, tráfico de armas e droga. A OTAN tem mantido significativas relações militares com o Uzbequistão em especial. Nas palavras de Barnett Rubin, do Conselho de Relações Externas dos EUA, em Novembro de 1999: «A comunidade internacional, os EUA em particular, já se encontram envolvidos na Ásia Central e no vale de Fergana (Uzbequistão), pesquisando petróleo e gás, planeando o traçado de oleodutos, pressionando os governos nas suas políticas económicas, tentando estabelecer uma estrutura de segurança, tentando cooperar ou substituir a Rússia em muitos domínios incluindo o militar, etc.»

«Mas em resposta à ofensiva ocidental de sitiar e quebrar a Rússia pelo flanco Sul, os "Três" - China, Rússia e Índia - constituem uma nova aliança que se opõe ao G7 - grupo dos sete países ricos da OTAN. (...) A crescente dependência da China face à Rússia para importação de petróleo conduz à aproximação entre ambas. Ao mesmo tempo, a Índia confronta-se com o Paquistão sobre Kashemira» (Karen Talbot, "Covert Action", Abril 2000). «Os países do G7 procuram fortalecer o apoio para a sua ofensiva na região. A Turquia (com a Geórgia e o Azerbaijão na sua esfera de influência), o Afeganistão e o Paquistão (que são bases dos líderes militares muçulmanos fundamentalistas cujo objectivo é "expulsar os Russos do Cáucaso"), e os separatistas Chechenos» (Jef Bossuyt, "Solidaire" (Bélgica), Outubro 1999).

O episódio trágico no WTC em Nova Iorque e o "invisível" mas não menos trágico curso quotidiano de acontecimentos na Ásia Central, aparentemente relacionados por várias possíveis vias, apelam a que olhemos para a história recente nesta parte do mundo.

Em 1979 foi lançada a maior operação secreta da história da CIA em resposta à invasão do Afeganistão pela URSS. Essa acção foi lançada através dos serviços secretos paquistaneses (ISI) com o propósito de mover uma guerra global dos estados muçulmanos contra a URSS. Muitas dezenas de milhar de jovens radicais islâmicos de dezenas de nacionalidades foram educados e treinados em "madrassas" paquistanesas com apoio norte-americano e saudita e com financiamento do tráfico da droga oriunda do Crescente Dourado (região montanhosa que abarca partes do Irão, Afeganistão e Paquistão, onde o ópio é cultivado desde há séculos). Osama Ben Laden, bem como os restantes líderes rebeldes empenhados nessa "jihad", moviam-se pelo fervor nacionalista e religioso, não tendo contacto com a CIA nem conhecimento do papel que estavam desempenhando para Washington.

O comercio de droga na Ásia Central está estreitamente relacionado com as operações secretas da CIA. Antes da guerra soviético-afegã, o ópio cultivado destinava-se ao mercado regional apenas. Mas durante o período em que a operação da CIA aí decorreu, a região fronteiriça entre o Afeganistão e o Paquistão bem como os territórios conquistados pelos guerrilheiros "mujaidines" foram convertidos para a produção de ópio (como imposto revolucionário cobrado às populações rurais). Centenas de laboratórios-fábricas de heroína foram então instalados do lado da fronteira paquistanesa, sob protecção dos ISI, para processar esse novo manancial de ópio. Naturalmente, floresceram redes de narcotráfico e acumularam-se fortunas, mas a política norte-americana sacrificou qualquer combate contra o narcotráfico à guerra contra a URSS. No fim da guerra fria, a Ásia Central surgia como um promissora reserva petrolífera a par do principal produtora mundial de ópio (três quartos); sendo que o Crescente Dourado, só por si, faculta um terço da produção mundial de opiáceos, um negócio da ordem de 150 mil milhões de dólares anuais (Douglas Keh, UNDCP, Viena 1998; Richard Lapper, Financial Times, 24 Fevereiro 2000). Um volume de negócios superior ao do petróleo e gás do Mar Cáspio!! Imaginem-se os interesses em jogo, o que ilustra a falta de escrúpulos de quem instalou esse negócio e permite supor a de quem o explora - cartéis empresariais, instituições financeiras, agências secretas, organizações de crime organizado.

Entretanto, finda a guerra fria, a CIA manteve o seu apoio à "jihad" islâmica e alargou a sua acção encoberta às repúblicas ex-soviéticas muçulmanas da Ásia Central e do Cáucaso e mesmo aos Balcãs, sempre através de seitas islâmicas fundamentalistas. O fundamentalismo islâmico continuou assim a ser manipulado como instrumento ao serviço de objectivos geoestratégicos. Em 1995 os Talibãs instalaram um regime islâmico fundamentalista sobre a maioria do território do Afeganistão. A partir daí, os talibãs, associados à seita saudita wahhabi e ao partido radical paquistanês Jamiat-ul-Ulema-e-Islam, foram parte activa na mobilização e treino de nacionalistas e mercenário para a guerrilha e o terrorismo nas repúblicas ex-soviéticas, particularmente na Chechenia, e nos Balcãs. A situação descrita facilitou o alargamento da instalação e da operação de redes de narcotráfico e de crime organizado. O comércio da droga do Crescente Dourado também contribuiu para recrutar e equipar os exércitos muçulmanos que actuaram ou actuam na Bósnia e no Kosovo (KLA-NLA) e mesmo na Macedónia.

A guerra na Chechenia, liderada por Shamil Basayev, ele próprio educado e treinado no Afeganistão e Paquistão, foi planeada num encontro secreto em Mogadíscio (Somália) em 1996, na presença de responsáveis dos serviços secretos iranianos e paquistaneses e de Osama Ben Laden; conta também com o apoio de fundamentalistas sauditas.

Quer dizer, enquanto a CIA alimenta o terrorismo internacional na Ásia Central e nos Balcãs, o FBI procura combatê-lo na América do Norte.

A grave crise do sistema capitalista mundial vem evidenciar muitos vícios cultivados mas hipocritamente camuflados ao longo dos últimos anos; o crime organizado, acarinhado em surdina, encontra agora expressão também à escala global. A análise e compreensão do que se passa não podem ser deixados nas mãos e bocas dos principais autores e coniventes da situação presente. Todo o cidadão terá alguma capacidade de análise que lhe advém do exercício da sua profissão e da própria cidadania. Particularmente professores, cientistas, técnicos.

Ouçamos o comentário de uma escritora e professora de Linguística na Universidade de Brasília: «No discurso de George W. Bush, na ultima quinta-feira, 10 dias após os atentados terroristas, o importante estava muito além das palavras, ou seja, as circunstancias em que as palavras foram ditas valiam muito mais que as próprias frases. Todo enunciado pressupõe interacção, compreensão responsiva, participação do interlocutor. Entretanto, o discurso de Bush, unilateral e autoritário, está fechado em si mesmo. Todos os destinatários - o governo, os congressistas, o povo americano, as outras nações, os terroristas - não tem seu espaço na interacção, pois não há abertura de discussão, de negociação. É um discurso que apresenta apenas a possibilidade de resposta formulada em seu próprio enunciado: o apoio incondicional, o cumprimento das exigências pelos Talibãs e a rendição dos virtuais culpados. O que as palavras de Bush tentam silenciar pela omissão é o clamor dissonante dos que pedem paz, seja nas ruas de seu próprio país - pois seus jovens é que vão ser imolados na vingança - seja em outras nações, que se lembram das 500 mil crianças mortas na guerra "cirúrgica" do Golfo e compreendem que uma guerra nas proporções que se anunciam será mais insana e irracional que o ataque terrorista de que os EUA foram alvo.» (Lucília Helena Carmo Garcez, Correio Braziliense, 22 de Setembro).

E agora um cientista e professor de Física nos Estados Unidos: «Para os participantes das cruzadas, ao menos aqueles que não detinham interesses económicos oportunistas, não havia uma distinção entre a realidade e a fantasia. Suas vidas eram parte do grande drama apocalíptico, que pregava que seu martírio e heroísmo seriam consagrados por toda a eternidade no paraíso. O mesmo tipo de extremismo religioso leva os terroristas islâmicos a se suicidarem, explodindo bombas e aviões comerciais contra alvos do inimigo, matando milhares de pessoas. A guerra deles, o "Jihad", é uma guerra tão santa quanto foram as cruzadas para os católicos da Europa medieval. E igualmente assassina e covarde. A violência abominável desse evento nos mostra quão pouco nós realmente mudámos nos últimos mil anos. A ciência moderna, que tem apenas quatro séculos, transformou nossa civilização, mas não nosso espirito. Se antes usávamos lanças e espadas para matar, hoje usamos aviões e bombas. É importante discernirmos ciência como método de estudo do mundo natural dos usos que as pessoas fazem dela. A pesquisa imunológica descobre a cura para inúmeras doenças, mas também pode criar armas de destruição. A energia nuclear pode ser usada de forma responsável ou irresponsável, e assim por diante. Quando falo em ciência, falo do seu método de descoberta, de como nos apropriamos do conhecimento a respeito do mundo natural. Esse método mostra, antes de mais nada, que ninguém é dono da verdade, que o conhecimento é acumulado a partir de um esforço conjunto, que envolve um trabalho de critica e reavaliação constante, processo em que a única autoridade é o consenso final. Essa definição mostra que a ciência funciona de modo totalmente oposto ao extremismo religioso, em que a única verdade é baseada num dogma absolutamente rígido e inflexível e o debate é inexistente. A ciência pode não ter todas as respostas, mas ao menos oferece autonomia ao indivíduo, fornecendo os instrumentos de sua liberdade. E, ao faze-lo, nos ensina também a respeitar a vida e a lutar por sua preservação.» (Marcelo Gleiser, "caderno Mais!" da Folha de São Paulo, 23 de Setembro).

E, ainda, um investigador da Universidade de São Paulo: «Outros pensadores críticos ou radicais norte-americanos estão mobilizando debates apaixonados em torno dos efeitos dos atentados terroristas sobre a percepção e os rumos das TICs [Tecnologias da Informação e Comunicação]. (...) O primeiro mundo a se tornar on-line em tempo real foi o das transações financeiras. Essa mobilidade e instantaneidade serviu também de suporte para a expansão de paraísos fiscais e centros de lavagem de dinheiro. A conexão desse movimento de liberalização e desregulamentação financeira com os circuitos de financiamento ao trafico de drogas, armas e actividades terroristas são notórias. Ocorre que essas lavanderias globalizadas são parte essencial da estratégia de muitas instituições financeiras. (...) Em Jersey, nas Bahamas, no Uruguai ou em Singapura, as tecnologias de globalização financeira correm soltas. Favorecem grupos e instituições que patrocinam políticos do mundo todo, ate' nos EUA. A estratégia antiterrorista do governo Bush vai bulir com essas redes? Finalmente, ha' uma questão de fundo: é possível superar falhas tecnológicas com mais tecnologia? São cada vez mais numerosas as criticas a essa ilusão tecnicista.» (Gilson Schwartz, coluna "Tendências Internacionais", Folha de São Paulo, 23 de Setembro).

O que pensa o leitor?



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