Olhar de um Físico

por Rui Namorado Rosa

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Força de Trabalho de Beijing a Bolonha

Sabemos que a deslocalização de muitas empresas transnacionais e suas subsidiárias para o Oriente (e na Europa, também para os "países do alargamento" a Leste) tem sido responsável pela desindustrialização em geral e de grave crise em sectores industriais em concreto, a caminho de uma progressiva terciarização da economia Ocidental (na UE e nos EUA), de muito duvidosa sustentabilidade. Sabemos dos sofridos custos sociais que tal movimentação global implica, que promessas ou propaganda oficiais procuram disfarçar.

Essa deslocalização da produção industrial (serviços também) implica uma paralela deslocalização de fluxos de recursos de matérias-primas e de energia, que ameaçam o precário equilíbrio geoestratégico mundial. Mas tão ou mais importantes são os recursos humanos necessários para accionarem o sistema económico global.

Os EUA tiveram o privilégio de ao longo de todo o século XX acolherem emigrantes de todo o mundo, incluindo exilados altamente qualificados e, nas décadas recentes, um grosso fluxo de estudantes estrangeiros seleccionados (oriundos da Ásia, da Europa e da América Latina), que aí estudaram, pagaram seus estudos e, ainda por cima, muitos dos melhores aí ficaram a trabalhar. Nada de novo. As potências económicas Europeias gozaram de semelhante benefício, colhendo seus frutos humanos sobretudo nos respectivos impérios coloniais ou nos novos países independentes que deles emergiram; o caso mais destacado é o do Reino Unido que acolheu um grosso fluxo de estudantes da "British Comonwealth", a comunidade de meia centena de ex-colónias e ex-protectorados do velho império, muitos dos quais não regressariam à pátria. O termo "fuga de cérebros" surgiu na década de 60 para descrever esse fenómeno que prolongava a exploração colonial para além do fim formal do colonialismo.

Ora a deslocalização da produção industrial para o Oriente talvez tivesse "apenas" em vista aí explorar abundante mão-de-obra barata e vastas clientelas potenciais. Porém, sem querer, exige também um muito elevado número de trabalhadores científicos, quadros técnicos qualificados e gestores experimentados. Essa consequência, aliada à crescente afirmação nacional da R.P. China, Índia, Coreia, Malásia outros velhos e novos "tigres asiáticos", já tem notório impacto na redução substancial do número de estudantes que, do Oriente, ao longo das últimas décadas demandaram os EUA e a Europa; tendência agravada pelo retorno à pátria de número significativo de cientistas e quadros de origem asiática, a trabalhar no Ocidente.

Mesmo assim, os países Asiáticos estão a confrontar-se com severa escassez de trabalhadores altamente qualificados, face ao acelerado ritmo da sua industrialização e terciarização. Embora a China e a Índia representem 40% da força de trabalho mundial, tenham promovido a ráspida expansão dos respectivos sistemas de ensino superior e "produzam" anualmente milhões de licenciados (600 mil engenheiros na China, mas dos quais apenas 1/4 empregáveis por multinacionais, a situação sendo comparável na Índia), a verdade é que a expansão das respectivas economias se confronta constrangida pela disponibilidade de recursos humanos qualificados, com a consequente elevação dos níveis de remuneração oferecidos a nível de competição internacional, que tem incentivado o retorno de nacionais do estrangeiro e mesmo a captação de especialistas estrangeiros. Entretanto, a larga maioria de licenciados encontra trabalho não qualificado a níveis de remuneração muito baixo; na Índia observa-se uma nítida e chocante correlação negativa entre o grau de escolarização e a taxa de emprego; poderia descrever-se este conjunto de dados como um grande desperdício de "capital humano".

Quando observamos a evolução do Espaço Europeu do Ensino Superior à luz destes factos no plano internacional alargado, dá para entender muito bem o que significa o objectivo de procurar tornar o Ensino Superior Europeu competitivo e atraente no plano mundial; e de, através do processo de Bolonha, "produzir" bem e depressa trabalhadores qualificados, com o apoio de um número relativamente restrito de Universidades de elite onde convirjam recursos e financiamentos e para onde sejam "mobilizados" os estudantes mais talentosos (que deverão ser os mais "produtivos") para receberem formação avançada. Isto não tem nada a ver com Educação. A maioria dos estudantes ficará pela licenciatura contraditoriamente generalista e finalizante, supostamente garante de empregabilidade.

Podemos afirmar que, não obstante o longo e elevado nível de crescimento económico gozado pelas potências Ocidentais, estas não resolveram a sua necessidade social mais básica: criar e reproduzir cidadãos qualificados em número suficiente para a sustentabilidade das respectivas economias. A razão de ser deste desastre radica em factores culturais e na redução do investimento público em toda a "cadeia" de Educação, inspirados pelos ideais neoliberais. E, ao deslocalizarem a produção para Oriente, deslocalizaram essa incapacidade também. Qual a saída para este labirinto? É o sistema sócio-económico ele mesmo que está em crise e em causa.

22 Julho 2006.

Fonte: www.icrier.org/pdf/ICRIER_WP180__Higher_Education_in_India_.pdf

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