Olhar de um Físico

por Rui Namorado Rosa

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Hiroshima e Nagazaki sessenta anos depois

A invenção das armas nucleares

A possibilidade de libertar energia nuclear foi descoberta pouco antes dos inícios da Segunda Guerra Mundial por cientistas Europeus, sobretudo Alemães e Ingleses. Em 1942, foi concebido e decidido pela Administração norte-americana o projecto de invenção e fabrico de armas com combustíveis nucleares, cerca de um milhão de vezes mais potentes que os combustíveis e explosivos químicos tradicionais. Esse projecto denominado Manhattan, dirigido pelo general Leslie Groves e o físico Robert Oppenheimer, foi realizado por uma equipa de dezenas de alguns dos melhores cientistas norte-americanos, vários deles Europeus emigrados nos EUA, em colaboração com cientistas Ingleses e Canadianos; os laços de cumplicidade político-militar entre os EUA e o RU seriam mantidos desde então até à actualidade. O projecto foi conduzido secretamente nos Laboratórios de Oak Ridge (Tennessee) e de Los Álamos (Novo México), e em Hanford (Washington) e algumas outras instalações mais, mobilizando mais de cem mil trabalhadores que desconheciam os objectivos concretos de tal projecto militar e secreto.

Ao longo de quarenta anos, as armas foram concebidas e montadas nos Laboratórios Nacionais de Los Álamos, no Novo México (a larga maioria), de Lawrence Livermor, na Califórnia, e Sandia, em Albuquerque, com o apoio de uma rede de outras infra-estruturas, com relevo para os Laboratórios de Oak Ridge, em Tennessee, Savannah River Site, na Carolina do Sul, Rocky Flats Facility, no Colorado. As principais variações ensaiadas na concepção das bombas foram a forma química/metalúrgica e a combinação proporção/geometria entre combustíveis físseis (plutónio 139 e urânio 235) e fusíveis (deutério e trítio). A evolução procurou incrementar o poder explosivo; da primeira bomba operacional lançada em Hiroshima até às maiores super-bombas termonucleares ensaiadas, o poder destrutivo foi multiplicado mais de 1.000 vezes. A evolução procurava também incrementar a eficiência (poder explosivo por quantidade de carga combustível) e a compacticidade; entre o primeiro teste de Trinity e uma comparável bomba actual de 20 quilotoneladas TNT, vai a diferença de 5 toneladas para 100 kg, ou seja, de um bombardeiro para uma mala de viagem.

O programa nuclear norte-americano envolveria um longo rol de ensaios de armas. Desde 1945 até Setembro de 1992 (quando foram suspensos), realizaram-se o espantoso número de 1.054 testes (dos quais 24 conjuntos com a Grã-Bretanha), a larga maioria num perímetro reservado no deserto do Nevada (928 testes) não muito longe de Las Vegas. Desde 1957 os testes são subterrâneos. Mas enquanto foram acima do solo, os testes foram minuciosamente examinados não só do ponto de vista da potência libertada por carga explosiva, como também do pontos de vista dos efeitos do choque das ondas de pressão e térmica sobre estruturas físicas, como edifícios e veículos, e das radiações ionizantes e substancias radioactivas sobre seres vivos, incluindo homens.

Não existem armas de destruição em massa como as nucleares.

A arma nuclear no curso da segunda guerra mundial

Inicialmente, a arma nuclear seria desenvolvida pelos EUA para antecipar o seu eventual desenvolvimento pela Alemanha. Porém, com a vitória dos aliados na Europa e a rendição da Alemanha a 8 de Maio de 1945, e perante a perspectiva iminente de a União Soviética avançar então na frente Oriental e do Pacífico contra o Japão - de facto essa declaração de guerra ocorreria a 8 de Agosto, os EUA decidiram precipitar a rendição do Japão a todo o custo. Deu-se uma viragem dramática no curso da história: o que seria uma arma dissuasora frente à Alemanha tornou-se em arma táctica para derrotar o Japão e arma estratégia para "conter" a União Soviética na frente Oriental.

Recordemos dois marcos importantes na preparação do termo da Segunda Guerra Mundial: as Conferências de Yalta e de Postdam. Na Conferência de Yalta, de 7 a 14 de Fevereiro de 1945, Joseph Staline e Franklin Roosvelt haviam acordado que a URSS entraria na guerra contra o Japão três meses após o término da guerra na Europa. Mas com a morte de Franklin Roosevelt, que fora o protagonista norte-americano na Conferência de Yalta, o vice-presidente Harry Truman assumiria a presidência dos EUA a 12 de Abril de 1945. A Alemanha capitularia a 8 de Maio e Truman seria o novo protagonista norte-americano na Conferência de Postdam, já em território Alemão, de 17 de Julho a 2 de Agosto. A arma nuclear (ainda secreta) não foi formalmente referida mas estava subentendida nas negociações diplomáticas; a sua próxima utilização seria um acto intencional para influenciar decisivamente a configuração dessa nova ordem internacional que estava para nascer.

Depois de um só teste de demonstração realizado no deserto da Alamogordo (Novo México) a 16 de Julho de 1945 (com um dispositivo denominado "Trinity") duas bombas foram pouco depois lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki no Japão, a 6 e 9 de Agosto - a primeira uma bomba de urânio enriquecido apelidada "Little Boy" a segunda uma bomba de plutónio apelidada "Fat Man". O desenvolvimento da Conferência de Postdam surge pois sinistramente entrelaçada com o teste e lançamento dessas bombas sobre o Japão.

Os alvos então escolhidos foram cidades que não tinham especial valor militar e estavam relativamente intocadas por anteriores bombardeamentos. As muitas experiências que eram e continuariam a ser conduzidas sobre os efeitos biológicos das radiações ionizantes e das substancias radioactivas sobre cobaias humanas - populações prisionais, soldados e outras "amostras" desprevenidas, sugerem que os bombardeamentos daquelas cidades representaram também mais uma mas gigantesca "experiência" sobre tais efeitos biológicos. Esses bombardeamentos representaram também testes sobre a capacidade de destruição física "em condições reais". O Japão rendeu-se aos EUA a 15 de Agosto.

De acordo com o acordado na Conferência de Yalta, a URSS entrou na guerra contra o Japão três meses após o término da guerra na Europa. A declaração de guerra e o início dos combates tiveram lugar a 8 de Agosto - dois dias depois do bombardeamento de Hiroshima e um antes de Nasgazaki. A nova arma secreta deixara de o ser e, em lugar desse segredo, passariam a figurar dois enormes genocídios.

Recordemos que os inícios da Segunda Guerra Mundial haviam sido assinalados, entre outros conflitos e agressões, pela tentativa do Japão invadir a URSS. O conflito desencadeou-se na fronteira entre a Mongólia e a Manchúria, entre as forças soviéticas e aliados mongóis e as forças japonesas e aliados manchus, na dura batalha de Halhin Gol, durante os meses de Julho e Agosto de 1939. O Japão sofreu uma pesada derrota que teve grande alcance, pois que levou o Japão a desistir de atacar a URSS para, em alternativa, dirigir o seu esforço de guerra para o Sudeste Asiático, na procura de fontes de abastecimento. Como consequência, a URSS e o Japão assinaram um pacto de não agressão em Abril de 1941, válido por cinco anos, que libertaria forças soviéticas para o esforço de guerra na frente Ocidental.

Em Abril de 1945, a URSS notificou o Japão do cancelamento do tratado de neutralidade e, após o fim da guerra na frente Ocidental, a 8 de Maio, as tropas soviéticas estacionadas na Mongólia foram reforçadas com um milhão e meio de soldados e 5.500 carros de combate, transportados a partir da frente Ocidental. Iniciado o ataque soviético na frente Oriental a 8 de Agosto de 1945, justamente três meses após o termo da guerra na frente Ocidental, em oito dias apenas as tropas soviéticas progrediram 400 km e a 16 de Agosto estabeleceram contacto com o Exército Vermelho Chinês, que resistia à invasão Japonesa. O avanço fulgurante das tropas terrestres, com apoios aéreos e navais, assegurou a ocupação da Manchúria, parte Norte da Península da Coreia, Ilha de Sakalina e Ilhas Kurilas. O Japão rendeu-se formalmente perante as tropas soviéticas a 2 de Setembro e foi forçado a abandonar o continente. A intervenção da URSS, tendo decorrido conforme os acordos de Yalta, conferiu à URSS o direito a reter os territórios da Ilha Sakalina e das Ilhas Kurilas, em disputa com o Japão, e ainda Porto Arthur. A Manchúria, enquanto permaneceu sob influência soviética serviria como base de operações preciosa para o Exército Vermelho de Mao Zedong, que quatro anos mais tarde, em Dezembro de 1949, sairia vitorioso da longa guerra civil Chinesa e fundaria a República Popular da China.

A intervenção da URSS foi decisiva para a rápida rendição do Japão e a evolução posterior no Extremo Oriente.

Entretanto, ficou provado da forma mais trágica que a utilidade militar da arma nuclear passa pelo genocídio de grandes populações civis. Fora inventada e utilizada a maior arma de destruição maciça.

As "novas" armas nucleares

Os EUA e a Rússia dispõem de milhares de armas nucleares ditas tácticas, isto é, para serem utilizadas no campo de batalha, inicialmente desenvolvidas durante a Guerra-Fria para um eventual conflito em teatro de guerra em solo europeu.

A Nuclear Posture Review (NPR) que chegou ao domínio público em Março de 2002 não abandona esse tipo de arma, pelo contrário alarga a sua utilização ao baixar o limiar inferior da sua potência, e alarga-a também no sentido da sua utilização em projécteis com elevada capacidade de penetração. Admite ainda o reinício de testes nucleares, com as novas armas, abandonando a presente moratória, assim desacreditando o Tratado de Proibição Integral de Testes Nucleares - CTBT que aliás nunca foi ratificado pelos EUA.

Entre as novas armas nucleares, as ogivas e bombas com elevado poder de penetração, precisão e potência, visando atingir alvos subterrâneos, surgem com particular destaque. Em particular, Earth Penetrating Warheads - EPW, são ogivas com capacidade de penetração no solo antes de explodirem. A explosão no subsolo transmite muito mais energia ao solo e a onda de choque tem poder destrutivo a muito mais considerável profundidade do que caso a detonação ocorresse à superfície. EUA dispõem de ogivas e bombas EPW com cargas nucleares, as B61-11, desenvolvidas ao tempo da primeira Guerra do Golfo, e tornadas operacionais em 1997; transporta uma carga nuclear de até 340 quilotoneladas TNT. Uma tal bomba poderá destruir através da onda de choque um alvo duro até 70 metros de profundidade. Tal explosão produzirá uma cratera e lançará para a atmosfera grande massa de rocha fragmentada e vaporizada e produtos radioactivos.

Nas respostas militares propostas incluem-se ainda as Robust Nuclear Earth Penetrator - RNEP, armas nucleares com ainda maior alcance de penetração no solo, cujo conceito se crê esteja desenvolvido mas ainda não testado (pelo menos por enquanto).

Outra área de desenvolvimento e utilização de armas nucleares, é a estratégia de defesa anti-míssil intercontinental.

O conceito de um sistema nacional de defesa contra mísseis balísticos - National Missile Defense (NMD) foi concebido pela primeira vez no fim da década de 50 e passou desde então por sucessivas versões. A sua versão mais conhecida foi a Iniciativa de Defesa Estratégica, proposta pelo presidente Donald Reagan em Março de 1983; a sua versão mais recente é designada Ground-Based Missile Defense (GMD) proposta pelo presidente George Bush em Dezembro de 2002, sendo o programa mais dispendioso no orçamento do Pentágono. O conceito é de viabilidade duvidosa e de sucesso questionável, por isso tem passado por várias versões e é ainda incerto o seu futuro. Ou baseado no espaço, numa constelação de satélites militares, ou baseado no solo, numa ampla rede de bases de lançamento de mísseis anti-mísseis, em qualquer caso as armas nucleares serão aí elementos necessários para alcançar os fins fixados.

A Nuclear Posture Review (NPR) expressamente invoca as armas nucleares para conter e responder a um "largo leque de ameaças", incluindo convencionais, químicas e biológicas e até " súbitos desenvolvimentos militares"; nesta definição, tudo parece ser passível de resposta nuclear. As consequências internacionais desta política militar são gravíssimas. Ao banalizarem os cenários de utilização de armas nucleares, incluindo a sua utilização contra países não nuclearizados, os EUA não só são o principal agente de proliferação como induzem activamente que outros países façam desenvolvimentos semelhantes e contribuam também para a proliferação das armas nucleares. O Tratado de Não Proliferação está seriamente ameaçado.

A NATO nasceu com as armas nucleares e suporta a sua "autoridade" no poder militar das armas nucleares que detém. A luta pela Paz é inseparável da luta pelo desarmamento nuclear e pela dissolução de alianças político-militares.

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