Olhar de um Físico

por Rui Namorado Rosa

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Os ciclos económicos longos

Não me vou referir aos ciclos do mercado financeiro, que recebe tão generosa atenção na maioria dos órgãos de comunicação dirigidos às grandes massas. Não que o público em geral seja aficcionado da bolsa e ainda menos "investidor" bolsista. Mas o facto é que a toda a hora somos açulados por noticias das bolsas de Lisboa, Tóquio, Nova Iorque, que nenhuma informação nos trazem. Noticia não é informação; pode ser confusão; pode também ser contra-informação, mas isso é já para os informados.

Os ciclos económicos

Estudos estatísticos que remontam ao século XIX revelaram a existência de relativa periodicidade na variação de certos factos económicos, variações essas geralmente designadas por "ciclos" porque no passado foram aproximadamente repetitivos ou recorrentes, ou porque se espera que o continuem a ser no futuro. Esses ciclos podem ser puramente financeiros, como os índices de cotação na bolsa. O ciclo longo ou de Kondratieff (período de 50 a 60 anos) é de todos o que tem merecido mais atenção e é considerado o mais importante do ponto de vista económico.

Nikolai D. Kondratieff, economista soviético, dedicou-se nos anos 20 ao estudo de indicadores macro-económicos nos países mais industrializados (inicialmente preços grossistas, juros, salários, comércio externo, após o que também consumo/produção de carvão e ferro, ajustados à evolução demográfica), tendo identificado e caracterizado ciclos económicos longos e sobre eles formulado uma primeira teoria de inspiração marxista. Os ciclos longos e a teoria de Kondratieff foram retomados por Joseph Schumpeter, economista de origem austríaca, influenciado pela escola do positivismo lógico então dominante na Europa central, forçado a emigrar no início da década de 30 e fixado nos EUA, que aprofundou a análise e a teorização dos ciclos longos. Sob o ponto de vista monetarista, tais variações não têm mais espessura significativa que oscilações de massa monetária e de preços. Mas inicialmente para Kondratieff e ulteriormente para outros autores, incluindo Schumpeter, essas variações atingem as esferas económica, social e política. Qual a força motora responsável pela recorrência de tais variações? Registam-se dois pontos de vista opostos: segundo um, os ciclos económicos são desencadeados por causas exteriores ou exógenas ao sistema económico; segundo o outro, as causas são endógenas, internas ou inerentes ao próprio sistema. Kondratieff atribuiu-as à substituição dos bens de capital. Como veremos, Schumpeter, adoptando o ponto de vista da causa exógena, formulou uma hipótese plausível.

Teoria de Schumpeter

A conceptualização dos ciclos económicos longos foi retomada por Schumpeter; seriam perturbações do sistema económico relativamente a um estado de equilíbrio (de "fluxo circular na vida económica" ou "fluxo estacionário"), perturbações de longo período em torno de um estado de equilíbrio que seria um estado limite nunca atingido de facto, mas cujo conceito é necessário à definição de sobreprodução, excesso de capacidade e excesso de mão de obra (desemprego). Os ciclos mais longos servem de linha de base, de proximidade ao equilíbrio, sobre a qual se desenvolvem os outros ciclos mais curtos.

O desenvolvimento económico resulta de três categorias de factores: factores externos (como grandes encomendas da administração pública), factores de crescimento gradual (actuado quotidianamente) e inovação, que seria o factor dominante. A inovação será o factor que determina a evolução económica, actuando descontinuamente e impulsionando os ciclos longos de Kondratieff. Para Schumpeter, inovação não se restringe à invenção e patente; admite outras formas como sejam a descoberta de novas matérias primas ou novas fontes de aprovisionamento, a inovação de mecanismos de tratamento e transporte de mercadorias, inovações organizativas nas empresas ou no comércio. Mas para que as inovações se tornarem actuantes, a ponto de influírem na evolução económica, elas têm de materializar-se (em equipamentos renovados e/ou empresas novas ou reorganizadas e/ou processos produtivos ou procedimentos renovados e/ou novos produtos) e para tal requerem uma componente subjectiva, personificada num empreendedor que introduz a inovação e é depois seguido por muitos outros, atraídos pelo exemplo de sucesso. [Um exemplo eventualmente surpreendente é o procedimento ou a reorganização do funcionamento de mercado designado "just in time" que, uma vez surgido na indústria automóvel, se espalhou pelos mais variados sectores industriais.] Gera-se como ficou dito uma avalanche de projectos inovadores, com repercussão na afluência de crédito para o sector económico emergente, enquanto os sectores tradicionais são penalizados. Segue-se uma expansão económica, multiplicação de novas empresas, aumento de crédito e investimento, de receitas e de emprego, e subida de preços. É a "prosperidade". O conflito de sucessos acabará por conduzir ao abrandamento do investimento; a previsão do sucesso torna-se duvidosa, as oportunidades oferecidas ao sector inovador esgotam-se, a taxa de juro sobe. Inicia-se então uma outra fase do processo económico, é a "recessão". Nesta fase, factores objectivos e subjectivos actuam no sentido da falência de empresas; o investimento e as receitas reduzem-se, a poupança e o crédito contraem-se, gera-se desemprego. Esta fase passa aquém do virtual estado estacionário, e entra-se na "depressão". A depressão continua enquanto houver investimento mal sucedido e capacidade excessiva face ao nível de procura e até que uma reaproximação ao estado de equilíbrio se inicie, a "recuperação" ou "reanimação".

No quadro conceptual de Schumpeter, o ciclo longo é caracterizado pela confluência ou agregação de inovações que desencadearam a fase inicial de prosperidade; cada ciclo tem uma identidade própria e o sistema económico no fim de um dado ciclo é qualitativamente diferente do que era no fim do ciclo que o antecedeu. Não se trata pois de um processo repetitivo. O próprio Schumpeter identificou três ciclos longos: a revolução industrial (1787-1842, algodão, têxteis, ferro e máquina a vapor), o ciclo burgês (1842-1897, caminhos de ferro, vapores marítimos) e o ciclo neo-mercantilista (1897-1950, indústrias químicas, electrificação, veículos automóveis).

Posta a importância da inovação nesta teoria, sublinhe-se que inovação segundo Schumpeter não é um facto económico associado a um particular campo de acção mas sim uma conduta que assume várias formas de actuação e pode manifestar-se em vários domínios da vida social. Para Schumpeter, a adequada explicação dos fenómenos económicos deverá procurar-se remontando até que causas não económicas sejam encontradas. Assim, a convergência de condutas inovadoras que conduzam a um ciclo longo carecem de uma explicação exterior à própria economia e que actue através do foro subjectivo dos empreendedores. Estes, para serem mobilizados, deverão ter a percepção de novas oportunidades vantajosas, oportunidades essas que, pelo grau de qualificação pessoal ou circunstâncias externas, sejam acessíveis a apenas alguns, e deverão também ter a percepção de uma situação económica razoavelmente previsível. Reunidas essas condições, a iniciativa e o êxito de um primeiro promotor desencadeará a afluência de muitos outros. É a condição económica de razoável previsibilidade - que necessariamente se verifica na vizinhança do equilíbrio, na sequência de um período de recuperação, quando a percepção de risco é mínima - que determina o momento em que um novo ciclo económico se desencadeia, pois que as restantes condições subjectivas estarão, em princípio, sempre actuantes.

Segundo os desenvolvimentos teóricos posteriores, os ciclos de Kondratieff têm dimensão mundial, sendo mais nítidos na produção mundial (embora observáveis nas produções nacionais predominantes) e no comercio mundial (em sectores predominantes também). Os ciclos materializam-se em volume de produção e em investimento infra-estrutural, não estando necessariamente reflectido nos indicadores macro-económicos genéricos. Estão geograficamente centrados embora as raízes e o impacto sejam globais (por exemplo a indústria têxtil em Manchester, a indústria informática no Silicon Valley). Cada ciclo introduz progressivas mudanças estruturais na sociedade; assim, ao ciclo do ferro, do tear e da máquina a vapor fixa, sucedeu o da máquina a vapor móvel, a electrificação e a telegrafia, a este sucedeu o do automóvel, a electrotecnia e a radio e a este sucedeu o do computador e da informação.

Extensões da teoria de Kondratieff - Schompeter

Alguns autores posteriormente procuraram identificar ondas de Kondratieff em períodos históricos e quadros regionais mais alargados. Tais abordagens começaram por ser centradas na Europa capitalista e pré-capitalista.

Muito recentemente, Modelski e Thompson, numa abordagem muito abrangente e necessariamente com grande escassez de dados, teriam identificado 19 ciclos longos desde o ano 930, quando Kondratieff havia originalmente identificado 5, desde o princípio do século XIX. O centro de inovação tecnológica dos ciclos mais remotos teria sido a China, o qual se teria deslocado para o Mediterrâneo (Génova e Veneza) após 1190, para a península ibérica após 1420, para os Países Baixos após 1540, para a Grã Bretanha após 1640 e finalmente para os EUA após 1850. Porém os principais centros propriamente económicos permaneceram na Ásia, pelo menos até cerca de 1800. A contradição será só aparente, pois que os ciclos intercalares (de 1250 a 1760) estiveram sobretudo relacionados com o comércio de produtos orientais, mais tarde alargado a outros produtos de outras proveniências.

Alguns estudiosos de Economia Política interessam-se por possíveis relações entre os ciclos longos e os estados de guerra. O próprio Kondratieff colocou essa hipótese, constatando a maior frequência de conflitos em períodos de transição entre duas cristas do ciclo. No século XX, as duas Guerras Mundiais, intercalando a grande depressão da década de 30, estando por sua vez intercaladas entre uma expansão anterior a 1914 e uma outra posterior 1945, ilustram essa hipótese. Numa análise recente, Goldstein (1989) examinou a correlação de grandes conflitos com ondas de Kondratieff, remontando ao século XVI, utilizando as datações de Braudel. Mas a hipotética tendência inerente para o conflito deve ser abordada com muita prudência por várias ordens de razões: razões éticas, dada a delicadeza moral e cívica de tais reflexões, científicas, em vista da escassez de análises substanciais desta matéria, e ideológicas, posto que será de rejeitar fundamentações teóricas, científicas ou não, para justificar a guerra.

Modelski e Thompson, acima referidos por terem remontado a pesquisa de ciclos longos de Kondratieff até mil anos atrás, argumentam também a favor de uma relação próxima entre ciclos longos e liderança mundial. Fundamentam-se na constatação de correlação entre expansão e contracção de sectores económicos inovadores predominantes e a ascensão e declínio de potências mundiais, bem como entre potências mundiais e sedes de inovação tecnológica. Esses autores explicam que a localização geográfica e temporal da ascensão política está sincronizada com a prosperidade resultante de sectores inovadores e que essas condições são necessárias ao alcance da liderança mundial a qual, por sua vez, cria o enquadramento para uma ordem económica global. Indo mais longe na sua teorização, esses autores postulam que a dois ciclos de Kondratieff corresponde um único ciclo de política global: o primeiro ciclo de Kondratieff permite a instalação de uma nova liderança mundial e o segundo ciclo é conduzido e promovido por força da ordem económica reinante. Neste ponto, os autores admitem factores exógenos, de política internacional, actuando como causa nos ciclos de Kondratieff. Mas atente-se que a base factual da teoria de Modelski e Thompson é muito frágil, pois que com relativa segurança só se pode remontar até ao século XVIII, ao passo que a sua argumentação se baseia em dados escassos que remontam ao século X, pelo que, não desprezando a novidade de alguns pontos de vista, esta teoria surge como manifestação voluntarista e deve merecer extrema prudência também.

Do ponto de vista da inspiração marxista em que a teoria foi inicialmente concebida por Kondratieff, as abordagens acima referidas não estarão legitimadas porque não estarão cumpridos os pré-requisitos para que sejam aplicáveis, nomeadamente o estabelecimento do sistema capitalista. Acresce que a disponibilidade de dados é progressivamente escassa para épocas mais recuadas. O que não exclui o interesse desses exercícios, tomados com prudência.

Que futuro?

O trabalho pioneiro de Kondratieff não lhe trouxe fortuna. A observação de ciclos de produção capitalista, aparentemente auto-sustentados, foi por alguns entendido como a negação da necessidade histórica do colapso do sistema. Acabou por cair em desgraça aos olhos de autoridades soviéticas da altura e foi desterrado.

A descoberta não agradou tão pouco à corrente económica neo-clássica que prevalecia no mundo capitalista pois que questionava fundamentos do sistema social, político e ideológico. Schumpeter, que retomou e aprofundou a teoria dos ciclos longos ganhou adeptos mas também críticos persistentes. Significativamente, o mais acérrimo crítico de Schumpeter foi S. Kuznets, o mesmo que teria o seu nome atribuído ao ciclo de 17-18 anos e que seria premiado com um Nobel da economia!

A teoria de Kondratieff e Schumpeter permite em especial valorizar um facto cuja importância não é devidamente valorizada ou é habilmente camuflado, trata-se do papel chave que o poder político de estado pode ter na evolução do processo económico. Com efeito, Schumpeter explicita as encomendas da administração pública como uma das modalidades de potenciar a inovação; é o que obvia e frequentemente acontece com a indústria da defesa mas também com a investigação científica em domínios de ponta ou que exigem investimentos pesados (exploração astronáutica, a física das partículas elementares, etc.).

O trabalho recente de Modelski e Thompson tem características inovadoras mas claramente voluntaristas, podendo explicar-se como ideologicamente inspirado para justificação teórica da actual ordem económica mundial. A sua teorização sugere uma nova formulação de determinismo histórico e o valor previsional dos ciclos de Kondratieff, questões que são claramente disputáveis.

O último ciclo económico longo supõe-se ter tido a sua origem no decurso da passada década de 40, assinalado pelos evidentes marcos científicos e tecnológicos que foram a descoberta do radar (1940), da energia nuclear (1942), do computador (1945-46), do transistor (1947) e da teoria da informação (Shannon, 1948). É um ciclo que se identifica com o predomínio do petróleo como fonte de energia primária (50% em 1970) e com electrónica enquanto domínio em que se localizou a avalanche de inovações tecnológicas.

A actual fase do ciclo é habitualmente caracterizada como "revolução informática". Tomemos como exemplo de inovação a interface gráfica, primeiro desenvolvida pela Xerox nos anos 70; ela só veio a ter expressão como produto quando introduzida pela Apple/Macintosh nos anos 80, mas foi depois drasticamente superada pela Microsoft/Windows (1985). Outros marcos da revolução informática são: em 1990, é criada a Worl Wide Web (a "Internet" global) e em 1995 os "motores de busca" (browsers) são comercializados em larga escala. Não sabemos se a avalanche de inovações no sector informático prosseguirá ou não; mas no entretanto este sector acumulou em 15 anos riqueza fabulosa, de que Bill Gates é a face mais visível. Este desenvolvimento acelerado ilustra a não linearidade do crescimento de um sector inovador em fase de prosperidade de um ciclo longo; não linearidade que é sintoma de imprevisibilidade. Paralelamente, registam-se progressos qualitativos na genética e constitui-se um novo sector industrial (emergente a partir do químico-farmacêutico) com vista à apropriação das descobertas genéticas e à "exploração" da genómica, o que suscita "novas" questões éticas.

É incerta a duração do actual ciclo de Kondratieff. E incerta a sua recorrência nos termos historicamente observados nos passados dois séculos. Incerto se entrámos em fase de reanimação ou recuperação. Incertas são as tecnologias inovadoras que lidarão um próximo ciclo. Incertas as transformações sociais associadas à passagem para esse novo ciclo.

Para além da informática, outros domínios tecnológicos poderão tornar-se inovadores num futuro incertamente próximo, nomeadamente a nanotecnologia e a biotecnologia genómica; formas de organização inovadoras estão já a ser viabilizadas e aceleradas pelo sector informático, designadamente através da internet; os sectores dos transportes, das telecomunicações e de bens "intangíveis" têm agora muito maior peso na actividade económica; diferentemente de anteriores ciclos longos, não existe agora uma só fonte de energia primária dominante (nem suficiente); o mais elevado grau de integração mundial da economia disponibiliza maiores contingentes de força de trabalho, mas as persistentes assimetrias sociais não disponibiliza maior grau de acesso ao bens produzidos.

Naturalmente, em paralelo com a atracção de recursos para a expansão de sectores inovadores, outros sectores "tradicionais" entrarão em contracção; fenómeno que não actuará uniformemente mas sobretudo regionalmente, com previsível agravamento de assimetrias e de conflitualidade. Com maior grau de integração económica, mais vastos se poderão recear os pânicos e os colapsos. E todavia, o processo de "realimentação" e recorrência dos ciclos económicos longos não é um mecanismo nem automático nem controlável. Pelo menos não no actual estádio de conhecimento e de organização política.

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