Olhar de um Físico

por Rui Namorado Rosa

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Da História Natural à Filosofia Política

Retemos a percepção de um instante, experimentamos uma sucessão de instantes e constatamos uma persistência. O tempo é percepcionado como sendo assimétrico e transitivo, oferece-se a uma abordagem objectiva e matemática. A realidade comporta transformação e conservação, conceitos que só aparentemente são contraditórios como se verá, ambos correspondem a manifestações (ou apenas enunciados) de uma única realidade, com o tempo subjacente.

Os conceitos de tempo e de memória são inseparáveis, sem memória não haveria tempo. O passado pressupõe uma memória já preenchida, o futuro é uma memória por preencher ainda; e o presente tem uma acepção cujo valor é apenas subjectivo.

O tempo tem um sentido mas os acontecimentos exibem recorrência. Sentido e recorrência também só aparentemente são contraditórios; inicio e termo de um ciclo não se equivalem, porque justamente há memória; correspondem-se num percurso de evolução mais longo.

Existem ciclos astronómicos - diurno, lunar e anual - que condicionam e organizam a vida biológica e social do homem. Existem ciclos biológicos - diurno, sazonal e geracional - bem como ciclos socio-culturais - jornada, semana e ritos - que são a substância mesma da vida do homem ser individual e colectivo. E existem também ciclos astronómicos milenares (os ciclos de Milankovitch) que, determinando variações climáticas longas, por sua vez determinaram longas migrações e profundas mudanças culturais (períodos glaciares e interglaciares do Pleistocénico). Foi no termo da última glaciação e durante a ulterior relativa estabilização climática que tem vigorado até ao presente (Holocénico), que ocorreram primeiro a transição mesolítica e depois a revolução neolítica.

O tempo astronómico foi objecto de observação desde o Neolítico e teria como fundamento a previsibilidade do movimento dos astros (com as excepções de estrelas cadentes, de cometas e de super-novas). Os círculos de pedra da cultura megalítica, cuja origem remonta ao Mediterrâneo oriental para depois, passado o estreito de Gibraltar, se estender no arco atlântico até à Escandinávia, bem como as torres de observação, desde Babilónia à Índia e também na América Central, são testemunhos instrumentais dessa ciência empírica e de sua provável liturgia. Já no início do século XVII, Galileu Galilei, utilizando a luneta astronómica, descobre os satélites de Júpiter, acontecimento excepcional, por revelar que há "mais mundos" para além da nossa Terra. A sua obra Diálogo sobre os dois Principais Sistemas do Mundo (1632), o geocêntrico e o heliocêntrico, encontra-se também fundamentada nessa grande descoberta observacional, de grande alcance tanto teórico como prático.

Com efeito, para além dos movimentos do sol, da lua e dos restantes astros (devido ao próprio movimento da Terra) ser já utilizado para medir o tempo, o movimento dos satélites de Júpiter (como um relógio fixado no céu) poderia agora também ser utilizado para medir o tempo, e com vantagem, a de ser um tempo igualmente observável de qualquer ponto da Terra; esse seria aliás um objectivo que Galileu (e outros) iriam prosseguir com vista ao aperfeiçoamento das técnicas da navegação.

Mas a preocupação ou a necessidade de medir o tempo encontra-se documentada em outros artefactos, desde a Antiguidade: relógios de água (clepsidras) ou de areia (ampulhetas) em que, num e noutro caso, um fluido se escoa e um volume se mede ou que se esgota. Com origem igualmente remota, mas mais característicos da nossa Idade Média, temos os relógios solares (gnomões), instrumento astronómico fixo ou portátil, e os relógios de combustão (velas e candeias).

O relógio mecânico surge na Renascença, inicialmente com a função de indicador ou preditor de efemérides astronómicas (século XV); converteu-se depois, gradualmente, em relógio com a função de marcar o compasso da hora, tornando-se por essa via instrumental na regulação da vida comunitária, primeiro na torre do convento e da igreja ou na sede municipal (séculos XVI a XVII), mais tarde nas escolas e nas estações de comboios, do telégrafo e dos correios (séculos XIX e XX). Mas no entretanto, o relógio mecânico teve ainda uma outra não menos importante evolução, esta como máquina de precisão, invenção humana da máquina do mundo, e como tal deu origem (no século XVIII) a uma exuberante produção de planetários, autómatos, relógios de sala, relógios de bolso e variados instrumentos científicos.

Todavia, o relógio mecânico teve antepassados longínquos. O computador astronómico de Antikythera (Grécia século I AC, decoberto em 1901) é um artefacto surpreendentemente "moderno" quer pela concepção quer pela realização; é um mecanismo analógico ou aritmético que ainda reflecte a influência da astronomia Babilónica; pela sua raridade (exemplar único) demonstra que os artífices gregos dominavam a técnica mas que aquele intrumento ainda não tinha uma função. Um milénio mais tarde (século XI), os calendários Islâmicos eram instrumentos de cálculo que testemunhavam já a influência da astronomia grega Ptolomaica.

O cronómetro ou relógio de precisão foi uma invenção de importância crucial para a navegação. Com cronómetros, dois observadores arbitrariamente afastados um do outro podem conhecer o mesmo instante no tempo, um "tempo universal"; era esta uma solução muito mais prática do que a vislumbrada por Galileu, segundo a qual o "tempo universal" seria deduzido a partir da observação do sistema planetário dos satélites de Júpiter. O cronómetro marítimo foi efectivamente desenvolvido na segunda metade do século XVIII, tendo sido instrumental para o domínio dos mares pela Inglaterra e pela França que primeiro os desenvolveram e aplicaram com esse fim.

Para além da navegação, o cronómetro tornou-se instrumento precioso para a cartografia e a geodesia também. Dois séculos passados, segunda metade do século XX, o relógio de quartzo permitiria a "democratização" do tempo certo, instrumental na imposição ou adesão a ritmos de vida e de trabalho mais apressados. E o relógio atómico permitiria atingir ritmos com estabilidade superior à dos próprios astros; hoje, mede-se com rigor o ritmo de rotação da Terra bem como o de pulsação de estrelas e os respectivos retardamentos. E, utilizando estes relógios atómicos e satélites terrestres, dispomos hoje da possibilidade de localizar com grande precisão um ponto à superfície da Terra, reconhecer a sua forma exacta, detectar as suas lentas deformações. São o conhecido sistema de navegação por satélite GPS (Global Positioning System, EUA) e o GLONASS (Rússia) e o anunciado programa GALILEO, agora da União Europeia.

O desenvolvimento da História Natural, complementando, contrariando e superando a abordagem sistematizadora e coleccionista do século XVIII, veio evidenciar, no imenso tesouro dos registos ou "memórias" geográficas botânicas, zoológicas e geológicas, a distribuição, a mutação e a filiação de espécies animais e vegetais com um sentido evolutivo. O tempo exibe um sentido definido para o ser biológico (nascimento e morte); ora esse sentido é um pressuposto necessário à formulação das leis de evolução próprias da esfera biológica. O percurso acelerado que conduz de Carl von Lineu (1756) a Charles Darwin (1858) é o que parte da Filosofia Natural para chegar até à ciência moderna. O darwinismo foi uma rotura epistemológica profunda, com consequências enormes e fecundas, uma aquisição definitiva do pensamento científico cujo alcance ainda hoje não está esgotado.

Uma outra rotura se deu pela mesma época no domínio das então incipientes Ciências Sociais, com a obra de Karl Marx que concebeu o materialismo histórico como instrumento de interpretação da História, a qual adquire maior e determinante dimensão económica e social, e iniciando uma linha filosófica fecunda, o marxismo. O marxismo reflecte e fundamenta-se aliás nas mutações do conhecimento das Ciências Exactas e Naturais suas contemporâneas. Mas é o materialismo dialéctico (Friedrich Engels Anti-Dühring ,1878 e a colectânea Dialektik der Natur , 1925) que está subjacente às profundas superações epistemológicas que ilustram as várias ciências no curso do século XIX europeu.

Nas últimas décadas do século XX, assistiu-se a uma sucessão de descobertas de novas categorias de fenómenos A dinâmica caótica é um desses novos domínios. O conceito científico de Caos surgiu do estudo de modelos simplificados de previsão meteorológica e de mudança climática (Lorenz); mas sistemas elementarmente simples mostram exibir comportamento caótico também (Verhults); o que antes era estranho, espúrio e marginal passa a ser objecto de estudo, e o caos revela ter leis próprias subjacentes; a aparente desordem revela-se ser passível de quantificação (expoentes de Liaponov, etc.). A teoria da informação é um outro desses domínios. O conceito de Informação (Shannon), formalmente próximo do de entropia, viria a ser um suporte conceptual estruturante dos actuais desenvolvimentos das tecnologias da informação e da comunicação. Nestes vários âmbitos o conceito de tempo é essencial; a dinâmica caótica comprova sugestivamente o sentido único do fluir do tempo; e a comunicação de informação só comporta um sentido.

Algumas novas categorias de fenómenos foram identificadas em sistemas progressivamente mais extensos e internamente interligados, de natureza física, biológica, social, etc.. São fenómenos que se manifestam como comportamentos colectivos ou cooperantes; processos de crescimento e a estruturação da forma; etc.. Conceitos e leis da Termodinâmica, da Teoria da Informação, da Dinâmica Caótica são convocados e mostram-se instrumentais na procura da compreensão de sistemas económicos e sociais os mais variados.

O Materialismo Dialéctico pode e deve ser encontrado nestes novos âmbitos fenomenológicos. E pode e deve ser inspiração para procurar a sua compreensão. E concretamente, procurando a integração num plano superior de "explicação", o material enorme que por enquanto se nos afigura diverso e fragmentado.

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