Olhar de um Físico

por Rui Namorado Rosa

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O iminente declínio do petróleo

Observadores atentos dos acontecimentos internacionais saberão, mas a larga maioria dos cidadãos ignoram, porque lhes é intencionalmente escondido, que existe uma "agenda escondida" dos decisores políticos no plano da política internacional. Ainda menos observadores atentos saberão que no topo dessa agenda está o acesso e o controlo dos recursos energéticos mundiais. E que a actual fase de agressividade brutal do imperialismo é movida também pelo reconhecimento (que o público em geral ignora) de que a actual disponibilidade de energia está em vias de extinção. Em vez de trabalhar por alternativas viáveis no interesse da Humanidade, o controlo dos recursos energéticos é o pretexto para intervenções diplomáticas cobertas e encobertas e para as intervenções militares "humanitárias" ou "anti-terroristas" por todo o mundo.

A industrialização no decurso do século XX está marcada pela ascensão do petróleo como a mais importante fonte de energia primária, e dos seus derivados como os mais essenciais combustíveis para os transportes e a produção termoeléctrica (as gasolinas, o "diesel", o "fuelóleo" e o "jetoil") e essenciais matérias-primas para as petroquímicas (as "naftas", os BTX e vários elementos químicos).

Porém, acumula-se a evidência de que a capacidade de produção de petróleo "convencional" está a atingir os seus limites. O petróleo convencional é aquele de que o mundo afluente se tem alimentado desde o princípio do século XX e que na década de 60 ultrapassou o carvão como principal fonte de energia. O petróleo convencional é de extracção relativamente acessível e económica; no caso das jazidas gigantes da Arábia Saudita a um preço da ordem de 1ou 2 dólar por barril. A fracção de hidrocarbonetos líquidos que acompanha a extracção de gás natural, pode ser contabilizada e adicionada á produção de petróleo convencional. Esta fonte de hidrocarbonetos aumentará previsivelmente até cerca de 2050, em resultado de a produção de gás natural exceder nesse período a de petróleo, mas em quantidade que, atenuando o declínio da produção de petróleo convencional, não adiará perceptivelmente o tempo de ocorrência do "pico"de produção de hidrocarbonetos líquidos.

O petróleo não convencional - isto é, o "heavy oil" (ou petróleo pesado), o petróleo polar (a cima do ciclo polar Árctico), o petróleo do " deep ocean offshore" (oceano profundo), as areias betuminosas e os xistos asfálticos - é ou de qualidade inferior, sendo de extracção e refinação mais dispendiosa (caso do petróleo pesado da bacia do Orinoco ou das areis betuminosas de Athabasca), ou de elevado custo de extracção (custo não só económico mas energético também). O petróleo polar implica impactos ambientais em zonas sensíveis e mesmo protegidas, e também investimentos intensivos, sobretudo associados ao transporte para os centros consumidores. O petróleo do oceano profundo (a mais de 500 metro de profundidade) apresenta condições geológicas complexas e ambientais rigorosas, mais elevado risco de investimento e agravado custo de extracção. O aproveitamento das areias betuminosas implica impactos ambientais pesados, custos económicos e energéticos elevados, tais que as eventuais reservas produtíveis serão muito inferiores aos recursos existentes na crusta.

Situação mais problemática ainda é a dos xistos betuminosos. Todavia a "propaganda" anestesiante procura fazer passar a ideia de recursos fabulosos à superfície da Terra. Uma fantasia, como oferecer a Lua. A referência cada vez mais frequente a esses "novos" recursos de petróleo não convencional é ela mesma a mais clara confissão de que o petróleo "barato", o petróleo convencional, está a aproximar-se dos seus limites.

Os recursos de petróleo não convencional são comparáveis com os de petróleo convencional; mas a fracção convertível em reservas exploráveis ascende, nas hipóteses optimistas, a não mais que 20% desses recursos. E a custos técnicos, económicos e ambientais substancialmente mais elevados, de todo não comparáveis aos custos do petróleo do Golfo Pérsico .... A somar a estes custos, o desenvolvimento de tais reservas exigirão períodos de tempo dilatados; ora investimentos pesados a longo prazo é qualquer coisa que não cabe no quadro da actual organização económica; o que não exclui a possibilidade de um ou outro conglomerado petrolífero o vir a fazer, na perspectiva de retorno à custa da extrema escassez futura. Mas não haja dúvida, embora possa haver uma fronteira difusa entre petróleo convencional e não convencional, acabado o primeiro, a economia do segundo será substancialmente diferente, e o custo de energia será muito superior.

É convicção corrente, alimentada pela informação oriunda da maioria dos organismos oficiais e das empresas petrolíferas, que a produção de petróleo poderia prosseguir indefinidamente, como se o recurso natural fosse ilimitado, ou seja, como se o planeta Terra fosse plano e não esférico e portanto finito. É a visão conhecida por "flat land".

Essa visão idealista é conforme à teoria económica dominante, segundo a qual os diversos factores de produção seriam ilimitados e intermutáveis, como se não tivessem "qualidades" distintas, e o mercado seria um regulador perfeito da actividade económica, "oferecendo" automaticamente fluxos de matérias primas, de força de trabalho e de energia, em reposta inevitável ao aumento de "procura" e à subida dos preços respectivos. Esta teoria económica pressupõe que haja uma Terra com recursos ilimitados e com ilimitada capacidade de gerar fluxos desses recursos; bem como um exército de desempregados e de técnicos já qualificados, em todas as especialidades; num e noutro caso disponíveis no imediato, como se o desenvolvimento de uma província petrolífera não levasse cerca de uma década e a formação de especialistas num novo domínio cerca de um lustro.

Mas a longa experiência da industria petrolífera prova que não é assim. A produção em cada província é assegurada maioritariamente por um escasso número de jazidas gigantes, um elevado número de pequenas jazidas fornecendo apenas um modesto complemento. O nível de produção de cada província, uma vez todas as jazidas postas a produzir, não mais poderá crescer significativamente e, pelo contrário, entrará em declínio, a um ritmo que só a multiplicação do número de poços consegue atenuar. O custo de extracção vai crescendo em função do volume de produção acumulada em cada província petrolífera.

O ritmo de descoberta de novas jazidas de petróleo tem diminuído e as grandes jazidas vão escasseando. À escala global, o ritmo de consumo já ultrapassou e vem excedendo, desde 1981, as descobertas de novas províncias petrolíferas. O pico das descobertas à escala mundial ocorreu em 1964; como o ritmo das descobertas deixou de compensar o ritmo de consumo, o balanço é negativo, e as reservas restantes tem diminuído persistentemente. O "crescimento de reservas", ou seja, a reavaliação em alta das reservas das províncias petrolífera já conhecidas - em resultado conjugado do factor económico preço e do factor técnico taxa de recuperação do petróleo "in situ" - tem decrescido também, e será no futuro mais reduzido do que no passado. Depois de um século de prospecção em todo o mundo, e de aperfeiçoamentos científicos e tecnológicos na geofísica e na engenharia do petróleo, sabe-se hoje virtualmente quase tudo sobre essa matéria, e particularmente sabe-se que recursos existem e quais os seus limites. O maior obstáculo é, de facto, a escassez de informação (completa e consistente) e a manipulação (comercial ou política) de que os resultados tem sido objecto por parte de empresas petrolíferas, governos e organismos internacionais. Em suma, conjugando informações de origens diversas, os especialistas estimam que, ainda na presente década, ocorra o "pico" da produção mundial de petróleo.

A região do Golfo Pérsico detém a maior fracção das reservas restantes. A OPEP, que assegura actualmente uma fracção próxima de 40% do comércio mundial, terá um peso crescente nesse abastecimento e na formação do preço. A actual produção mundial de cerca 75 milhões de barris de petróleo/dia poderá ascender a um máximo de cerca 80 milhões barris/dia na presente década, sendo que a OPEP, só por si, poderá elevar ainda a respectiva produção até 45 milhões de barris/dia até 2015, mas já num contexto mais geral de exaustão ou declínio. Por isso o pico do petróleo ocorrerá antes desta última data.

Os EUA são o país com mais longa e completa experiência na indústria petrolífera; no território dos 48 estados contíguos, as descobertas atingiram o seu máximo em 1930, de que resultou uma produção que atingiu o apogeu em 1971. Desde então o declínio tem sido inexorável.

No Alaska foi entretanto descoberta e desenvolvida uma província petrolífera em Prudhoe Bay. O investimento necessário à sua exploração, incluindo o extenso oleoduto, foi muito elevado e demorado, como é próprio de uma fonte considerada já não convencional. E todavia a respectiva produção passou o seu máximo doze anos depois, em 1989.

Ora a produção nos EUA atingiu o seu apogeu sem que fossem adoptadas políticas de desenvolvimento sustentado no plano doméstico, o que ilustra como o mercado não oferece solução para o desenvolvimento sustentado. O caminho prosseguido está à vista: os EUA declararam como seu interesse vital o acesso às fontes de energia mundiais. E estão a prosseguir essa política, agora sob a designação de "guerra ao terrorismo", nomeadamente estabelecendo alianças com regimes corruptos, bases militares em regiões estratégicas para o domínio de províncias petrolíferas e de oleodutos e, bem assim, desencadeado ameaças militares e acções de guerra. Mais discreto é o apoio diplomático e o financiamento invisível das empresas petrolíferas; o que frequentemente é feito através do inesgotável financiamento para a Defesa Nacional. É um ciclo vicioso, em que o poder económico influencia e domina o poder político e este apoia no plano internacional e financia os consórcios económicos com recursos públicos.

A Rússia e a bacia do Cáspio detêm cerca de 15% das reservas mundiais de petróleo convencional. Porém, significativos recursos e reservas adicionais de petróleo polar na região Árctica são expectáveis. A Rússia mais a bacia do Cáspio forneceram em 2001 cerca de 11% da produção mundial de petróleo convencional. Essa produção poderá aumentar ainda 50%, durante os próximos anos, podendo contribuir então com cerca de 15% da produção mundial.

Na Rússia, o sector económico mais dinâmico na última década tem sido o energético, o qual tem gerado acumulação de capital e suportado a constituição da oligarquia financeira emergente. Este sector tem tripla importância para os EUA: é a estrutura económica que na Rússia mais rapidamente se constitui como capitalista; por outro lado, pode servir os "interesses vitais" dos EUA na segurança do aprovisionamento energético; finalmente, pode servir o objectivo geo-estratégico de controlar o aprovisionamento energético de outros grandes países carentes de fontes de energia própria - designadamente a Índia e o Japão, a China e outros países do Extremo Oriente. Estas razões tem movido os EUA ao estreitamento de relações políticas com a Rússia. Por seu lado, a Rússia terá interesse em desenvolver ao máximo as suas infra-estruturas energéticas e manter relativo equilíbrio de relações comercias quer com a Europa, quer com o Extremo Oriente, quer com os EUA, nesse sentido tendo programado o prosseguimento do desenvolvimento das actuais províncias produtoras, novas pesquisas na zona Árctica e, ainda, o reforço e alargamento da rede de oleodutos para o ocidente, para a costa do Pacífico e para a RP China. A actual "aproximação" da Rússia aos EUA é uma aliança para desenvolvimentos tecnológicos e investimentos conjuntos no sector energético e para a cooperação e partilha do comércio internacional de matérias primas energéticas; mas é também uma capitulação da soberania russa face ao império financeiro global. Em breve a Rússia entrará na OMC.

Quanto à Europa Ocidental, a província petrolífera do Mar do Norte já ultrapassou a sua produção máxima e entrou em declínio. Descoberta essa província em 1969, a taxa de descoberta atingiu o seu máximo em 1974 e a taxa de produção o seu apogeu em 2000.Tendo incrementado as reservas estimadas inicias em 50% e atingido a taxa de recuperação 50%, mas não podendo já aumentar nem uma nem outra, o declínio é inexorável. O progresso tecnológico faz maravilhas, mas ainda não faz milagres. A Europa terá agora de importar uma crescente quota de petróleo num mercado mundial incerto.

Quanto ao gás natural do Mar do Norte, ele assegura agora 50% do gás natural consumido na União Europeia. Descoberto em 1965, atingiu o máximo de descoberta em 1979 a sua produção espera-se atinja o apogeu em 2005, para entrar depois em declínio também. A Europa depende já, e crescentemente no futuro, do aprovisionamento de gás natural proveniente do Norte de África e da Rússia.

A Noruega dispõe ainda de recursos adicionais de hidrocarbonetos no Árctico, particularmente gás, que permitirá manter e mesmo acrescentar a sua capacidade produtiva, o que atenuará mas não substituirá a pressão para as importações de fora da Europa Ocidental.

Especialistas oriundos de vários países Europeus, EUA, Rússia e Irão, reunidos num encontro internacional realizado em fins deste mês de Maio de 2002 na Universidade de Uppsala na Suécia alertaram para a previsível ocorrência de sérios choques petrolíferos na próxima década (http://www.isv.uu.se/iwood2002). Prevê-se que a produção mundial de petróleo convencional iniciará então um declínio irreversível que terá enorme repercussão em todo o mundo.

À luz do conhecimento actual, na base dos actuais dados relativos a reservas e a recursos, descobertos e ainda previsivelmente por descobrir, a produção mundial deverá atingir o seu ponto máximo por volta de 2010. A rede de instituições e especialistas constituída nesse encontro internacional - ASPO (Association for the Study of Peak Oil) - afirmou o propósito de proceder anualmente à actualização do cenário da produção em conformidade com o apuramento dos resultados de exploração e produção verificados.

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