Olhar de um Físico

por Rui Namorado Rosa

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Copenhague

A História foi desde a antiguidade e continua a ser hoje objecto de Teatro. Assim é que acontecimentos relativos à História da Ciência são por vezes também temas de peças teatrais.

Copenhagen (Methuen 1998, ISBN 0-413-72490-5) é uma recente peça de Michael Fray que, de novo abordando a génese das armas nucleares, dramatiza o encontro historicamente real de Werner Heisenberg, admitido responsável do programa nuclear da Alemanha nazi, com Niels Bohr, seu antigo mestre, na Dinamarca ocupada pelo exército alemão, em 1941. Esse facto histórico, envolvendo dois dos mais notáveis físicos do século XX, tem ao longo dos anos sido objecto de especulação à cerca dos motivos de ambas as partes e do que elas terão então dito e escondido, especulação esta alimentada pela posterior atitude, ambígua ou contraditória, de ambos os protagonistas à cerca do sucedido então. O distanciamento em relação ao facto histórico é obtido dramatizando o retorno dos dois personagens do além túmulo para os colocar eles mesmos a discutir o que acontecera nesse encontro. O essencial da peça é a problematização da reconstrução histórica e o problema epistemológico de em que medida cada um pode conhecer de facto as motivações de outrém e de si próprio. O autor procurou uma situação ficcional mas ao mesmo tempo o rigor histórico; o resultado é uma excelente peça, com enorme êxito desde a sua estreia em Londres em 1998, tendo ainda o mérito de levar a um público muito amplo a problematização da responsabilidade moral dos cientistas. O impacto público da peça realimentou a especulação em torno desse encontro e levou mesmo a família de Niels Bohr a decidir antecipar a divulgação de cartas que este escrevera mas nunca enviara a Heisenberg. O que aconteceu em Fevereiro deste ano 2002. Todavia o debate, embora mais esclarecido, continua provavelmente porque, para além dos factos históricos, estarem agora sobretudo em jogo questões filosóficas e morais.

O recente livro Les Apprentis Sorciers - Fritz Haber, Wernher von Braun, Edward Teller da autoria de Michel Rival, Ed. du Seuil 1996 (versão em português Aprendizes de Feiticeiro, o armamento no século XX, Ed. Caminho 2002, ISBN 972-21-1465-4), recorda e analisa o papel de três cientistas que protagonizaram algumas das mais mortíferas inovações técnicas militares do último século: a guerra química, a guerra balística e a guerra nuclear. Este livro recorda e analisa três casos excepcionais mas paradigmáticos de cientistas que contribuíram activamente para a constituição do complexo científico- militar- industrial, com uma obstinação de que estava ausente a consciência moral, sob um discurso abstracto de justificação patriótica e científica mas vazio de valores humanos.

A consciência da responsabilidade social dos cientistas têm sido activamente exercida por muitos cientistas. Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, em Julho de 1946, foi constituída a Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos, com o propósito de estabelecer o diálogo internacional para a prevalência da Paz, não obstante o clima ameaçador da "guerra fria". Alguns anos depois, a declaração de Albert Einstein e Bertrand Russell sobre armas nucleares, em Julho de 1955, abriu caminho à constituição do movimento Pugwash. Joseph Rotblat, um dos seus fundadores e presidente, veio a ser reconhecido com o prémio Nobel da Paz 1995.

As decisões sobre Ciência e Técnica não cabem só à capacidade profissional e à consciência moral dos cientistas, cabem igualmente à sua compreensão pelos demais cidadãos e à vigilância cívica de todos sobre o poder político. Daí a importância de todas as formas eficazes de levar ao povo o conhecimento da História e a percepção e a reflexão sobre as questões sociais e morais que a Ciência coloca. Através do Teatro também.

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