Paul Romer e o seu panelão mágico

O futuro Nobel da Economia Soft

«A grande mudança foi na nossa cabeça»

Paul Romer foi um dos economistas californianos considerado uma das 25 pessoas MAIS INFLUENTES dos States pela revista Time. A sua fama começou por ter colocado a tecnologia no centro do crescimento económico, nos anos 80. Agora é o teórico da 'REVOLUÇÃO DO SOFT' e é tido como candidato a Nobel da Economia. Ele virá a Lisboa a 17 de Setembro de 1999 abrir um Ciclo de Conferências organizado pela NPF.

Na mítica Universidade de Stanford, coração intelectual do Silicon Valley com Jorge Nascimento Rodrigues, no gabinete de Paul Romer no Management Center
Versão Web original da entrevista publicada na Ideias & Negócios.


O que é que mudou no pensamento económico?

PAUL ROMER - Imenso. Houve a Revolução do Soft, como eu lhe chamo. Ou seja, deu-se o reconhecimento de que os 'activos' que designamos hoje na linguagem comum por 'soft' ou 'intangíveis' são os bens económicos mais importantes. Antes, o que é que era a menina dos olhos dos economistas e dos políticos? Eram a terra, o petróleo, o aço, as fábricas, as máquinas, etc.. O caso da URSS foi típico deste paradigma - levou ao extremo este pensamento e julgou vencer o capitalismo industrial concorrendo neste campo até ao limite. Era uma maneira tonta de crescer e enriquecer. Caiu redondamente. Falhou. Foi apanhada de surpresa pela revolução soft. Nós já não pensamos mais em termos de acumulação de mais coisas - sejam elas recursos naturais ou máquinas ou mesmo pessoas - como chave para o crescimento.

E qual é o segredo dessa revolução soft?

P.R. - A mais importante lição desta nova abordagem é que o crescimento económico ocorre quando as empresas, os empreendedores e os inovadores em geral descobrem e implementam novas fórmulas e receitas. Isso foi uma mudança de visão do problema... incalculável. Os próprios economistas, homens de negócio em geral e os políticos estão a passar por esta mudança fundamental na concepção da economia.

APRESENTANDO O FUTURO NOBEL
O futuro Nobel do Soft Romer é uma lenda no fechado mundo da teoria económica. O velho Peter Drucker, o «pai» da gestão, já o catapultou para candidato a Prémio Nobel da Economia e gurus da primeira linha, como Michael Porter, Alvin Toffler ou o seu polémico colega Paul Krugman, não se cansam de citá-lo.
A celebridade deste economista de pouco mais de 40 anos entre os seus pares disparou porque uma sua tese de doutoramento no começo dos anos 80 veio mudar do dia para a noite a ideia que os economistas e os políticos tinham sobre a política macro-económica. Caricaturizando, os homens do leme nos governos e os teóricos que os influenciavam por detrás reduziam a boa gestão dos negócios públicos à política monetária e fiscal, ao incentivo à acumulação do capital fixo ou ao fomento de obras públicas em tempos de crise.
No doutoramento que fez em 1983, Romer veio argumentar que a descoberta científica, a mudança tecnológica, a inovação e o crescimento do factor produtividade total (um palavrão que significa mais do que o conceito de produtividade das máquinas ou dos trabalhadores a que estamos habituados) deveriam ser colocados no centro da análise económica e - no que mais directamente nos toca a nós cidadãos que do 'economês' nada percebemos - no âmago da política económica nacional.
Assim nasceu o que se designou por 'nova teoria do crescimento'. O termo nova foi usado para sublinhar que o entendimento sobre o crescimento económico passava a ter como seu motor aquilo que os contabilistas chamam de 'intangível'. Ou seja, são coisas como novas ideias, novos métodos, novas fórmulas, novas receitas que permitiram ao longo da História Humana o crescimento. Este não é provocado por 'mais do mesmo', mas por uma diferente maneira de criar valor, como agora se diz na gíria da gestão.
É este novo entendimento ideológico sobre o segredo do crescimento que Romer designou, nesta entrevista, como a 'Revolução Soft'. O soft finalmente tomou o comando da economia real emergente (a que muitos chamam de 'economia digital' e outros de 'nova economia') e das ideias económicas que temos na nossa cabeça. «Os economistas, os homens de negócio e os próprios políticos estão a passar por uma mudança fundamental na sua visão da economia», frisa-nos este economista, cuja fama não mudou a simplicidade e a afabilidade que transpiram de uma boa conversa de horas no seu gabinete no Management Center, situado quase à entrada do 'campus' da Universidade de Stanford, em pleno Silicon Valley.
Para finalizar esta introdução à entrevista que nos concedeu, pintemos o perfil académico do homem em traços rápidos. Paul Romer licenciou-se na Universidade de Chicago onde estudou matemática e física. Andou no Massachusetts Institute of Techonology, em Boston, e doutorou-se em Chicago em 1983. Um seu «paper» de 1990 sobre 'A mudança tecnológica endógena' publicado no prestigiado Journal of Political Economy, e muito traduzido, é uma boa referência de leitura para quem tenha estômago para a teoria económica «dura».
Leccionou em Chicago, na Universidade de Rochester e na Universidade da Califórnia em Berkeley. Desde 1996, é Professor de Economia na Graduate School of Business de Stanford, onde o fomos encontrar pela segunda vez. Este ano recebeu o mais alto galardão da escola de gestão onde ensina, o 1999 Stanford Business School's Distinguished Teaching Award.

ARTIGO-CHAVE SOBRE O TEMA DA NOVA TEORIA DO CRESCIMENTO:

  • 'Endogenous Technological Change', publicado no Journal of Political Economy, nº 98, de Outubro de 1990, pags. 71 a 102
  • Clique aqui para aceder ao Journal of Political Economy
    Obs: Só estão disponíveis on line as edições do JPE a partir de 1996
    Traduções em:
  • 'Progrés Technique Endogéne', nos Annales d´Economie et de Stastistique, nº 22, 1991, pgs. 1 a 32
  • 'El Cambio Tecnológico Endógeno', em El Trimestre Economico, LVIII (3), Julho-Setembro de 1991, pgs. 441-480
  • A economia começa na nossa cabeça, é isso?

    P.R. - [risos] A parte mais profunda da actividade económica, por mais paradoxal que pareça, passa-se na descoberta das tais novas fórmulas. E esse 'imput' é puramente humano, fruto da nossa massa cinzenta. No Silicon Valley há dois conceitos que exprimem bem este mecanismo. Aqui fala-se de software e de wetware - hardware, o terceiro termo por aqui muito usado toda a gente sabe o que é. O software são as fórmulas depois de codificadas e aplicadas. O wetware representa o tal 'imput' original humano. O processo do conhecimento em geral é a transição do wetware para o software.

    Isso é um pouco como a passagem do conhecimento implícito para o explícito, na linguagem dos adeptos da gestão do conhecimento («knowledge management», no original)?

    P.R. - Nos termos que está a usar, sim. Alguém se lembrou de fazer uma coisa de modo diferente - porque na cabeça dessa pessoa ocorreu-lhe fazer assim. Mas, muitas vezes, nem se apercebe da importância disso. Isso é uma peça do tal wetware. Mas quando ele e outros se apercebem da importância dessa novidade, codificam-na, e até podem explicá-la a outros. É aqui que se transforma em software que pode ser usado e reusado, num mecanismo que cria continuamente valor. Esta lógica é algo inteiramente novo.

    Em que sentido?

    P.R. - Este potencial para ser reusado sem cessar torna o software um activo com um cariz radicalmente diferente dos outros activos. Primeiro, porque aqui não há escassez. Na realidade, há um potencial de descoberta de novas ideias ilimitado. Segundo, o número de gente que o poderá usar é infinito e poderá fazê-lo até em simultâneo. Há uma oportunidade para uma expansão enorme.

    Muitos falam desta nova realidade como uma 'nova economia', porque, entretanto, emergiram uma série de novos sectores económicos em que o tal 'soft' é rei. Aconselha os seus alunos a usar o termo?

    P.R. - Em termos gerais, não. Em rigor, não. Eu não uso o termo 'nova economia'. Está na moda, mas eu não o recomendaria aos meus alunos. Muitas coisas da tal 'velha' economia continuam - as crises, a inflação, etc.. Mesmo com a rapidíssima mudança tecnológica não morreram, apesar de muita boa gente o pretender. As inovações e as descobertas sempre foram muito importantes ao longo dos séculos no crescimento económico. Não são um facto novo.

    Então, o que é que é novo realmente?

    P.R. - O que aconteceu foi um processo ideológico, como já referi atrás. As pessoas agora estão a perceber melhor o problema. O que se trata é que se está a impor um novo modelo mental. Não foi a realidade económica essencial que mudou, mas sim a nossa cabeça! Mas esta percepção, esta mudança mental, está, sem dúvida, mais avançada nos Estados Unidos do que na Europa. É óbvio que muito do que os propagandistas da 'nova economia' dizem é puro exagero, mas outras tiradas são motivadoras e entusiasmantes. Eu diria que quando se ficam pela agit-prop são óptimos, o problema é quando q uerem ser economistas. Quando se armam em economistas, caem na asneira .[risos]

    A capacidade de ter gente dentro da empresa a produzir sistematicamente esse «wetware» de que falou e a transformá-lo em software é a essência do que hoje se tenta contabilizar como 'capital intelectual'?

    P.R. - O capital intelectual é mais ou menos como a questão da 'nova economia'. Está na moda. Eu também não aconselharia os meus alunos a usar o termo. Mas depende do que se entende. As empresas mais avançadas quando falam de gestão do conhecimento estão a falar de procedimentos internos, os arautos do capital intelectual falam dele por outra razão - pretendem mobilizar os investidores e os accionistas. São propósitos diferentes. O primeiro - da gestão do conhecimento - sinceramente parece-me mais sério. [risos] Falando, agora, sem brincar: o capital intelectual tende a sugerir que poderemos usar procedimentos contabilísticos neste campo. O problema é que a diferença que há entre o tal software de que eu falo e os outros activos com que se lida na empresa conduzem a que muita desta artilharia contabilística seja totalmente inapropriada.

    Um das tais novas 'leis' de que se fala na tal nova economia é a da justeza de permitir situações de monopólio a quem consegue ser o primeiro a controlar esse software (tenha sido ou não o seu criador original) e prender os clientes ao seu uso. Aliás vem logo à memória, o caso da Microsoft e no futuro provavelmente de outras. Qual é a sua opinião?

    P.R. - Isso tem de ser bem ponderado. É necessária uma análise não apaixonada. O que a Microsoft fez historicamente foi explorar uma série de inovações de outros e massificá-las - e embaratecê-las - no quadro de uma plataforma. Esse é o lado positivo do tal monopolismo.

    Isso é o que alguns já chamaram a teoria da Microsoft como Robin dos Bosques da Sociedade da Informação...

    P.R. - [risos] Bom, a análise correcta é saber, no final, o seguinte: tal monopólio encoraja ou não a mudança, a inovação? Há razões para nos preocuparmos com a questão, pois o mercado, por si só, poderá não incentivar a inovação. O problema de fundo é saber se a Microsoft se transformou em algo tão dominante que impede a inovação no mercado. Eu acho que é sempre preferível um ambiente em que vários Bill Gates do futuro possam nascer. Gente que, pelo menos, tenha uma chance, tenha ou não sucesso depois. Onde não há entrada de outros, onde não há renovação do tecido empresarial [enfatiza Romer], não há inovação competitiva, isso é uma certeza económica.

    O que nos leva à questão da importância de fomentar o empreendedorismo. A euforia de hoje leva a pensar que é mais fácil hoje ser-se empreendedor. É assim?

    P.R. - É verdade que é mais fácil hoje lançar novas empresas. Há imensos jovens á saída das escolas ou com o MBA a desejarem criar as suas próprias empresas em vez de pensarem em esmerar um currículo para entrarem numa grande empresa ou num banco. Há sinais claros desta cultura da start up. O próprio ensino tem de se adaptar a esta tendência.

    Mas como?

    P.R. - O essencial num período destes é gerar pessoas bem formadas capazes de explorar as oportunidades do mercado. O Ensino deve ser virado para 'produzir' este tipo de gente. E aí as Universidades estão a falhar. Eu creio que o desafio é criar no próximo século novas instituições para criar esses inovadores e empreendedores. Colocar mais dinheiro no sapatinho do que existe é a via errada. O que é indispensável é criar novas instituições.

    Mas professor você é parte integrante da actual Universidade...

    P.R. - As Universidades actuais foram criadas sobretudo para formar professores e não inovadores.



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