Paul Romer põe água fria
no Digital em ebulição

Jorge Nascimento Rodrigues
com Paul Romer (Paul.Romer@Stanford.edu) em Stanford

Paul Romer Paul Romer leciona e investiga na Graduate School of Business da Universidade de Stanford, em pleno coração do Silicon Valley. Mas isso não significa que ele se deixe permear aos exageros do que por aqui se alcunha a "digital hype".

Os seus trabalhos sobre o papel da mudança tecnológica no crescimento económico transformaram-no no guru mundial da corrente da "nova teoria do crescimento". Corre nos corredores académicos que é um forte candidato a um Prémio Nobel.

Romer esteve comnosco na própria semana em que o Departamento de Comércio norte-americano divulgou o relatório sobre a Economia Digital e alertou para algumas das ilações "macro-económicas" menos correctas que dele se poderão tirar.


Quando ouvimos falar da "nova economia" associada ao digital, trata-se de exagero jornalístico, nomeadamente por parte da muito conhecida revista Wired, editada a partir de San Francisco, que tem vindo a publicar diversos trabalhos sobre as "novas leis" (o primeiro tiro de partida foi dado por Kevin Kelly na Wired 5.09, de Setembro de 1997 - ver em www.wired.com), ou está mesmo a emergir uma economia digital, como refere o último relatório do Departamento de Comércio norte-americano divulgado recentemente?

PAUL ROMER - Há, de facto, algum exagero quando se fala da "nova economia". Mas é importante distinguir o que é exagero e o que é verdade, nesta matéria. Há duas teorias em voga em relação às quais é preciso haver algum cuidado. A primeirra diz que havendo inovação tecnológica não poderá haver mais inflação. Isto é logicamente e do ponto de vista do factos puro e simples exagero. A outra, também em voga, começou a divulgar a ideia de que não haverá mais recessões (ver nomeadamente a revista TIME de 24/02/97, num artigo de Robert Hormats, da Goldman Sachs Int.). Bom, nunca se sabe ao certo o que o futuro nos reserva, mas o que toda a história sugere é o contrário e a história costuma ser boa conselheira nestes assuntos da economia.

Mas, então, o que é que há de verdade no meio de toda esta euforia com a nova economia digital?

P.R. - O que eu considero uma posição correcta é a seguinte: nos últimos quinze anos, as políticas macro-económicas melhoraram substancialmente. Os bancos centrais em particular aprenderam a desempenhar melhor o seu papel. É correcto afirmar-se que a macro-economia poderá ser muito melhor "gerida" daqui para a frente do que o era, por exemplo, nos anos 70. Isso é indiscutível, mas nada tem a ver com a teoria do papel da mudança tecnológica no crescimento económico que eu defendo. Em suma, é possível que as recessões possam vir a ser menos frequentes e mais pequenas, mas isso não pode ser imputado abusivamente ao papel da mudança tecnológica.

Um gradualismo na história económica

Mas será que poderemos definir um momento recente a partir do qual se nota claramente a emergência da economia do saber e da economia digital?

P.R. - Eu não falaria de "momento". As forças de mudança tecnológica que eu tenho estudado têm estado presentes em todas as etapas, desde o início, da história humana. O que tem acontecido, ao longo do tempo, é que a economia tem evoluído gradualmente - eu sublinho este aspecto "gradual" - para uma situação em que essa actividade de descobrir novas ideias se tornou cada vez mais importante. Como é que essa evolução pode ser medida? Olhando para a fracção da força de trabalho que se dedica à descoberta ou refinação de novas ideias. No início, seria muito pequena; mas esta actividade aumentou imenso ao longo do tempo e hoje há muita gente a pleno tempo nessa área de actividade, como por exenplo na farmacêutica. O que aconteceu é que subitamente os «media» e a opinião pública começaram a dar muita atenção a esta parte da economia. Nos anos 90 "descobriu-se" a ideia do sector do saber na economia. Mas o que eu quero sublinhar é que ele sempre esteve na nossa história e cresceu gradualmemte. Não apareceu do nada. Uma coisa é a realidade histórica, outra é a tomada de consciência do papel de algo.

Mas não terá havido um crescimento gradual do papel do saber que atingiu uma "massa crítica", se assim o podemos dizer, que alterou radicalmente a situação?

P.R. - Essa é uma explicação atraente, mas o conceito de "massa crítica" dá uma ideia que não me parece aplicar-se - a de que antes de ser atingida, nada aconteceria de relevante, o que não é verdade. O peso do saber tem acelerado na economia, mas antes também desempenhou o seu papel no progresso tecnológico e social. Eu tendo a discordar das pessoas que andam sempre à "procura" de cortes, de fracturas, nesta matéria.

Adam Smith e Lord Keynes continuam a ter validade

Mas será que poderemos falar de "novas regras" na economia digital que tenham tornado obsoletas as definidas por Adam Smith para a economia capitalista?

P.R. - Volto a insistir - penso sobretudo que há mudanças no que nós pensamos àcerca da economia. As tais novas leis não tornam as velhas obsoletas. O que acontece é que colocamos as novas por cima das velhas. Por exemplo, o que Adam Smith dizia sobre o «laissez faire» ou a «mão invísivel» continua a ser de uma grande profundidade e tem um impacto enorme na política e nas pessoas comuns. Neste século, podemos falar de Keynes e da revolução keynesiana, sobre o papel do Estado na política macro-económica, que já aflorei atrás. Quer Smith, quer Keynes continuam a ter validade. Mas é preciso "equilibrá-los". A nova questão que está a emergir é saber o que podem hoje os governos fazer para influênciar o processo de crescimento. E aí o «laissez faire» não é suficiente. Há um papel importante para os governos ou para conjuntos de pessoas actuantes, não necessariamente governos. Mas é claro que há políticas e políticas - e aí está outra questão.

Mas se isso significa que o keynesianisno também não chega, então o que é que é necessário?

P.R. - Penso que há uma oportunidade para pensar em novas políticas. Veja-se, por exemplo, no campo da educação, o que se fez na América em relação ao papel das universidades, que se tornaram muito mais focalizadas na melhoria concreta da actividade económica. Outro exemplo de novas políticas, aconteceu nos anos 50 com a iniciativa do Departamento de Defesa americano que levou à criação de uma nova disciplina académica - a das ciências da computação. Estes são bons exemplos de "políticas" que recomendo. E julgo que há hoje uma janela de oportunidade para criar este tipo de novas políticas viradas para a gestão do crescimento económico, como aconteceu antes.

Quando fala do papel que podem desempenhar "conjuntos de pessoas actuantes", o que é que quer dizer com isso?

P.R. - No fundo é a tal "vantagem da colaboração" entre gente da mesma área. Há dois casos aqui nos EUA que são interessantes. Um é a aliança existente na área dos semicondutores para investigação e formação em comum - a célebre Semiconductor Research Corp. Outro é Cable Labs, que junta empresas de TV cabo no plano técnico. Eu creio que vamos ver muitas mais organizações de cooperação empresarial deste tipo no futuro, mais do que agências governamentais.

Quando o mito oculta o futuro

Um dos seus artigos mais polémicos ultimamente falava do "fim do mito do transístor" (ver em www.janelanaweb.com/sociedad/transit1.html), que escreveu, no ano passado, para a edição do suplemento ASAP da revista Forbes a propósito do cinquentenário do transístor. Este ano comemorar-se-ão os 50 anos do Mark II, o primeiro computador electrónico. São tudo mitos?

P.R. - Quando eu falo do "mito do transístor" é um bocado para definir a visão popular de que a mudança tecnológica é como que uma dádiva da Natureza, que cria "leis" automáticas - como a tal lei de Moore, por exemplo. O problema com estes mitos é que apagam o papel importante dos incentivos que têm de ser dados às pessoas para descobrirem coisas novas. Se não se criam incentivos, não há criação. A mudança tecnológica é algo que somos nós que criamos. A minha mensagem com a crítica do mito é que quando os incentivos são suficientemente fortes há muito mais potencial para a mudança tecnológica.

Mas esse fim do mito é também o fim de uma era? Estamos noutra revolução?

P.R. - Sem dúvida que a revolução digital é importante para a mudança tecnológica. Eu não dúvido disso. Mas estaremos provavelmente no princípio ou no meio, quando muito. O que eu tento levar as pessoas a pensar é sobre o futuro, qual será o próximo passo. Há imenso aí fora para descobrir, como, por exemplo, no campo da biotecnologia ou do genoma. É um erro, a meu ver, focalizar demasiado no computador e na rede. Se ficamos cegos com o transístor ou o chip, não nos damos conta dos seus próprios limites. Quando falei de acabar com o mito, também foi neste sentido.

Uma das tendências que parece estar a impôr-se é a do regresso em força de situações monopolistas ou oligopolistas - a nova economia está condenada a ser dominada por eles? Ou essas situações serão sempre transitórias?

P.R. - Os monopólios são, em certos casos, inevitáveis e, por vezes, socialmente úteis. Mas eu friso bem as minhas palavras - em certos casos e por vezes. Dantes, pretendia-se, na teoria económica, que eles seriam sempre "maus". Mas esse é um ponto de vista errado. Uma boa política abre a possibilidade a duas coisas: que os monopólios existam, mas também que sejam desafiados por novatos. No fundo, concordarei que as situações monopolistas acabarão por ser temporárias. Mas esse "temporário" pode durar vinte anos, como no caso da IBM. Não será para sempre - isso também se sabe de fonte segura. O que uma boa política tem de fazer é preservar uma janela de oportunidade para que novas firmas entrem e substituam os velhos monopólios. A velha visão era que se deveria "matar" à nascença qualquer monopólio. A nova será que, em simultâneo, deveremos tolerar os monopólios, mas preservar as oportunidades de outros os desafiarem.

Mas, no caso presente, das acusações contra a Microsoft, trata-se de ganhar na secretaria o que não se consegue ganhar no mercado, ou é uma aplicação da ideia de permitir o desafio a um monopolista?

P.R. - Há muitas vozes e posições nesse debate. Algumas são a velha visão macro-económica de que os monopólios são o diabo contra a concorrência pura do mercado. Outras vozes são puro populismo e velhas e relhas ideias políticas, baseadas na demagogia de que o que é grande é mau e injusto, que nada têm a ver com correntes da economia. Haverá outras que estarão próximas do que eu disse. Há muita mistura neste debate.

O Silicon Valley como herói da melhoria contínua

O que é que está no coração do mecanismo de crescimento económico: a inovação radical ou a melhoria contínua?

P.R. - Mas será que eu tenho mesmo que optar por uma delas? Porque não ambas? Há de facto um outro mito que é este: quando falamos da história da mudança tecnológica, tendemos a pôr todos os holofotes em cima do que eu chamo as "invenções heróicas" - a do transístor, por exemplo. Isto é aliciante, mas é enganador. É o tal mito, de que falei. Eu prefiro enfatizar os dois aspectos. Inovações importantíssimas foram fruto de pequenas melhorias contínuas. O próprio processo de melhoria contínua não sucede automaticamente - tem de ser incentivado.

E quanto ao Silicon Valley, o que é que aqui perdura - a inovação radical ou a melhoria contínua?

P.R. - A meu ver, o Vale faz bem ambas as coisas. Mas eu creio que haverá um peso ainda mais significativo da melhoria contínua. A tal "lei de Moore" nos «chips», o que é senão a melhoria contínua? As invenções heróicas vieram de fora para aqui - veja o caso do transístor, ou do circuito electrónico, ou mais recentemente do «browser». O que aqui há de diferente é que se criou desde há muito tempo uma infraestrutura que suporta e incentiva a inovação, que permite a diversidade na inovação, que permite caminhar em diversas direcções, que permite refinar os detalhes continuamente e criar um tecido económico em torno disso.

Mas será que esse novo tecido económico, agora associado à Internet e à Web, está a provocar um modo diferente de fazer negócios, está a emergir um novo paradigma, como dizem os especialistas de gestão?

P.R. - Eu julgo que a mudança na gestão já vem mais de trás, de muito antes do impacto da Internet. Veja-se o que se tem passado com a progressiva alteração da concepção sobre o modelo de empresa que se herdou de Sloan e da experiência da General Motors. Mas volto a insistir na minha atitude perante os mitos - eu creio que será mais adequada uma posição intermédia, entre os dois extremos, dos que vêm tudo a ficar de pernas para o ar e dos que nada vêm mudar. Creio que um dos grandes impactos ocorrerá nas relações entre empresas, na forma de fazer negócio, no comércio electrónico, entre elas - no que aqui chamamos de "business to business".

E o impacto no mercado de trabalho, como é que o vê?

P.R. - Eu justamente acabo de publicar - isso pode ser consultado na minha página na Web em www.stanford.edu/~promer - um trabalho sobre a relação entre a mudança tecnológica e os mercados de trabalho. A minha mensagem é que a mudança tecnológica é, apenas, uma parte do problema, do desafio. A outra é evitar as desigualdades. A mudança tecnológica tem seguramente a potencialidade de piorar as desigualdades. Mas creio que, através do sistema educativo, como o estamos a tentar na América, poderemos contornar o problema.


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