A Terceira Revolução Francesa

Depois do fim do «Ancién Regime» na guilhotina em 1789 e da imaginação
ao poder em Maio de 68, o hexágono tricolor vive a euforia do digital
e procura colocar um pouco de creme europeu em cima de um capitalismo cada vez mais à «americana»

Jorge Nascimento Rodrigues em Paris

Reportagem em formato mais reduzido para o semanário português Expresso
publicada a 4 de Março de 2000

 O Capitalismo zinzin | Números da mudança 
Dois eventos a não perder em Paris

A França já não é mais aquela sociedade autista com que gozava Nicholas Negroponte há uns anos atrás, acusando os franceses de serem os mais conservadores anti-digitais da Europa e deplorando que os próprios jovens tricolores desejassem desde tenra idade vir a comer na grande gamela do «clube do Estado».

À superfície do hexágono, no dia-a-dia da rua, tropeçamos com os «outdoors» ou com os anúncios nos taxis ou nos autocarros publicitando os últimos «sites» da moda e nas conversas de café o «emaile-moi» tornou-se da praxe. O ambiente empresarial subitamente ficou repleto de um espírito de «start up» (outra palavra que se tornou obrigatória) e a nova geração de quadros faz questão de falar um inglês sem os «z» e de ter a sua presença na Web com o sotaque do «tio» do outro lado do Atlântico.

«O fenómeno 'start up' ligado à nova economia desenvolveu-se fulgurantemente nos últimos 18 a 24 meses. Há dois anos atrás, era-lhes difícil arranjar quem os ouvisse e lhes desse capital. Hoje as capitais de risco não têm mãos a medir e têm de decidir entre 4 a 5 projectos concorrentes por dia», afirma David Prud'homme, da StartUp TV, que vai lançar, em breve, uma televisão na Web (em www.startuptv.net) dedicada exclusivamente à nova economia na Europa... e como não podia deixar de ser em inglês.

Despeça-se já

Os próprios chefes de grandes empresas - outrora gente proeminente na galeria de ouro do tal «clube do Estado» - largaram os corredores do poder político parisiense e dos «guichets» de Bruxelas e transformaram-se em cosmopolitas cuja estratégia é no mínimo pan-europeia. «Só acedendo ao mercado europeu, apesar da sua diversidade, haverá saída ou sucesso. A estratégia inteligente é cada vez mais posicionar-se solidamente na Europa e não ir à queima roupa para o mercado norte-americano, que aliás está saturado», reforça Prud'homme.

Fenómeno ainda mais óbvio é o facto do «despeça-se já» estar a ganhar peso entre os quadros seniores franceses. Segundo dados da APEC - a Associação francesa para o Emprego de Quadros -, verificou-se que a mobilidade dos quadros se multiplicou por dois. Em 1998, 11% dos quadros mudaram de emprego contra 5,1% no ano anterior.

«Um sinal que não engana é o facto dos directores funcionais e mesmo chefes de empresa do sector tradicional começarem a abandonar os seus empregos de muitos anos e irem trabalhar para PME ou 'start ups' ligadas à nova economia e a novos negócios. Muitos ficam mesmo acometidos da paixão da Internet», diz-nos Jérôme Batteau, responsável pelo dossier capital de risco no Le Journal du Net (na Web em www.journaldunet.com). «Largar 'une belle boîte' (uma boa colocação, segundo os cânones tradicionais) era algo impensável há cinco anos atrás», conclui o nosso interlocutor.

DOIS EVENTOS PARA AS START UPS
  • Capital-IT, entre 14 e 15 de Março, em Paris.
    Entre 210 candidaturas vão ser apresentadas 40 start ups francesas e europeias. Os escolhidos serão divulgados dia 3 de Março.
    Programa em www.capital-it.com.
  • Encontro da Tornado Insider UpStart,
    entre 24 a 26 de Abril, na Disneylandia, perto de Paris.
    Organizado pela Revista «Tornado Insider».
    Programa em http://tornado-insider.com/upstart/.
  • Inesperadamente, também, os chefes das grandes empresas transformaram-se em «business angels», outra palavra inglesa, hoje muito ligada ao financiamento da nova economia, que os franceses não se apressaram a substituir por um daqueles equivalentes de arrepiar os cabelos. São hoje 10 vezes mais em número do que apenas há três anos atrás.

    «O dinamismo do mercado informal de capitais para investimento disparou com a entrada pessoal dos grandes industriais na azáfama das 'start ups'», refere-nos Batteau, que cita casos como os de Bernard Arnault que criaria o Europ@web, ou de François Pinault (do grupo Printemps-La Redoute) e de Jean Marie Messier (do grupo Vivendi). A criação de «clubes» deste tipo de investidores individuais de risco tornou-se moda, como o «clube» criado pela Innovacon (que agrupa 25 chefes de empresa), ou o Le Dream Team 4 U, ou ainda o Appolo Invest (de que faz parte o patrão da Eurodisney). Outro investidor pessoal que anda nas bocas do mundo é André Levy Lang, ex-patrão do grupo Paribas.

    Net por todo o lado

    Houve uma aceleração nítida do papel do capital de risco: os fundos aplicados multiplicaram-se por 3 apenas num ano e os sectores na berra batem todos à porta da Web - portais de conteúdos, produtos financeiros, serviços às famílias, compras de última hora, leilões, tecnologia WAP (para sem fios) e vendas em grupo no mercado inter-empresas (no chamado «business to business», no calão do comércio electrónico). «Nos últimos seis meses, só se houve falar de Net, Net, Net!», exclama Christophe Chausson, o fundador da Chausson Finance, um novo tipo de protagonista no mundo do «ecossistema da nova economia», como ele designa.

    Christophe Chausson Antevendo o disparo do movimento de «start ups», Chausson foi em 1991 pioneiro em França na criação de um «catalisador» que fizesse a ponte entre as empresas nascentes e os investidores institucionais e individuais (os tais «business angels»). Em quatro anos, a Chausson Finance (na Web em www.chaussonfinance.com) apoiou 51 «start ups» tendo concluído operações no valor de 18 milhões de contos (600 milhões de francos) e agora tem em carteira mais 31 jovens empresas para procurar financiadores. Um dos seus casos de sucesso é a Integra que já atingiu uma capitalização bolsista de mais de um milhão e duzentos mil contos (41 milhões de francos) no Le Nouveau Marché (o mercado de capitais francês para empresas de alto potencial de crescimento, na Web em www.nouveau-marche.fr).

    A nova economia francesa já produziu «estrelas» mundiais, firmas verdadeiramente metacionais, como as designa Pinto dos Santos, um investigador português no INSEAD, perto de Paris, que está a estudar este novo tipo de multinacionais. O caso da Business Objects S A (na Web em www.businessobjects.com) é, sem dúvida, o mais paradigmático. Criada em 1990 e especializada na venda de soluções de «intelligence» para negócios electrónicos, a firma opera à escala mundial e está inclusive cotada no Nasdaq norte-americano, onde vale 840 milhões de contos (4,2 mil milhões de dólares). Tem por companhia, neste mercado, a Ilog S A e Genset S A, também tricolores. Outras duas empresas com expressão mundial são a Gemplus SCA (na Web em www.gemplus.com) que lidera, a partir de Marselha, o mercado dos cartões inteligentes, e a ST Microelectronics, a partir de Grenoble.

    Até final do mês passado era de 119 o número de empresas de origem francesa cotadas na rede europeia de «novos mercados» de capitais que se encontram integrados no Euro.NM (na Web em www.euro-nm.com) de que faz parte o já referido Le Nouveau Marché).

    A França, também, tomou a dianteira na Europa Continental nas operações de «leveraged buy out» que permitiram reestruturar grupos económicos e empresas familiares e que envolveram no ano passado uma verba astronómica de 1,2 mil milhões de contos.

    O CAPITALISMO «ZINZIN»
    Capa do livro Le capitalisme zinzinFace à catadupa de dados, a interrogação impõe-se: que se passou no hexágono nestes últimos anos? «A França trocou de capitalismo», diz-nos, à queima roupa, Erik Izraelewicz, autor do polémico Le Capitalisme zinzin, um livro, editado pelas Editions Grasset, que fez furor no final do ano passado. «O país passou de um capitalismo tutelado pelo 'clube do Estado' para um capitalismo de mercado à 'americana'. Houve uma mudança de alavanca e estamos a assistir a uma transferência profunda de poder e de riqueza», acentua este ex-redactor-em-chefe do Le Monde, que, ao fim de 15 anos, se mudou para o diário económico Les Echos.
    Passou-se de uma situação em que o Estado era o principal actor através das grandes empresas e do sistema financeiro, gerindo a economia e a política através de uma elite com o cognome de «enarcas», ou seja a gente importante que havia estudado na Escola Nacional de Administração ou no Politécnico e cuja carreira passou pelos grandes «corpos do Estado». «Esta elite reinava em cima de três 'estados' - o que restava das 200 famílias de antes da guerra, a finança e o aparelho de Estado - que viviam em santa conivência», diz o autor. A emergência da nova economia veio provocar um profundo «choque» neste sistema «enarca». O velho poder económico e político está a passar de mãos.
    O tiro de partida desta alteração profunda foi dado pela reorientação estratégica assumida por François Mitterand em 1983, quando decidiu meter de vez o «socialismo» na gaveta e fez a opção pelo desmantelamento progressivo do sistema financeiro e dos grandes grupos ligados ao «clube do Estado» em que se baseava toda a classe política e dirigente económica de esquerda e de direita.
    O problema é que o desmantelamento do «clube do Estado» não foi preenchido ainda por um sistema de fundos institucionais forte de origem francesa, à semelhança do que ocorreu há muito nos Estados Unidos e mais recentemente na Holanda e no Reino Unido. «O novo capitalismo francês é um capitalismo sem capitais próprios suficientes. A França, entre os grandes países desenvolvidos, colocou-se num situação atípica. Depende enormemente dos fundos de capital estrangeiros, dos tais 'zinzin', que detém nomeadamente 40% das 1000 maiores empresas francesas», conclui Erik Izraelewick.
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