Chegou a Terceira Revolução Financeira
deste Século

O que o Ardina na Web viu e ouviu sobre todo o «hype» à volta da febre de capitalização bolsista das empresas da Web

Jorge Nascimento Rodrigues em San José, capital do Silicon Valley, com o patrocínio da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento

 Factos & Números da Revolução | Um caso de sucesso financiado por dólares lusos 
A história da cunhada e-investidora de Kevin Kelly

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Tudo o que tem um «.com» ou «.net» no domínio registado na World Wide Web ou um «e» (de electrónico) na sigla está a gerar uma febre financeira por toda a América, e particularmente no Silicon Valley.

As empresas com estes predicados vão à bolsa (sobretudo ao NASDAQ), fazem uma oferta inicial de acções (IPO- Initial Public Offering, na gíria), arrecadam milhões e milhões e atingem capitalizações extravagantes, em regra sem um cêntimo de lucro até hoje gerado pela sua actividade real!

A febre da Web criou o paradoxo de jovens empresas do Silicon Valley valerem tanto ou mais do que monstros sagrados da economia tradicional. O portal Yahoo! vale mais do que o vetusto J.P.Morgan e o 'broker' E*Trade capitaliza tanto como a American Airlines.

Ao mesmo tempo, o investidor individual procura beneficiar desta incrível moda bilionária. A ideia de que qualquer um pode enriquecer nos mercados financeiros virados para a alta tecnologia, confortavelmente em frente do écran do seu PC, abrindo uma conta num dos muitos 'brokers' com páginas na Internet, ganhou a dona de casa suburbana, o camionista, a secretária de direcção ou o simples programador.

A revista Money, do grupo a que pertence a Fortune, já embandeirou em arco ao trazer para tema de capa, em Maio passado, o título sugestivo: 'Toda a gente está a enriquecer'.

Por seu lado, a publicidade na TV a que recorre agora uma E*Trade, ou a Ameritrade ou a Charles Schwab, vai directa a este público, popularizando a mensagem milionária e ridicularizando a imagem do convencional corrector. O alvo destes anúncios, é o cidadão comum, que chega a casa pelo final da tarde, e que, até ali, jamais tinha investido um dólar nas bolsas. São os novos investidores que estão a gerar uma nova vaga de capitalismo financeiro 'popular'.

De que um exemplo flagrante é o da cunhada de Kevin Kelly, uma estória contada em directa por ele próprio, e que pode ser o símbolo deste novo e-investidor (sim, também, estou a colocar o mágico «ezinho» atrás do termo).

A importância de satisfazer todo este 'lobby' nascente está a provocar o impensável, até há uns meses atrás. Os responsáveis do NASDAQ e do próprio New York Stock Exchange (a Bolsa da célebre Wall Street nova-iorquina) já equacionam a possibilidade de extensão dos horários de operação, o que não sucede desde 1974. A decisão poderá ainda ser tomada este ano, se a Securities and Exchange Comission o autorizar, apesar do célebre 'bug' do ano 2000.

As vozes críticas clamam, por ora no deserto, que se está a gerar uma nova economia de casino e que o balão especulativo da capitalização da Web, mais tarde ou mais cedo, vai rebentar na cara de todos. Bob Metcalfe, o inventor da Ethernet e um dos 'pais' deste novo mundo, ironizou que já viu na bola de cristal que o balão vai rebentar a 8 de Novembro...

O accionariato popular

Os dois extremos - o exagero interesseiro dos 'brokers' da Web e o bota abaixo dos conservadores financeiros - estão, contudo, a toldar o essêncial, ou seja «o impacto social e económico desta revolução financeira sem par que tem de ser devidamente valorizado e compreendido», refere-nos Kevin Kelly, o emblemático guru da nova economia.

Depois do resurgimento na Califórnia da cultura do empreendedorismo nos últimos anos, em torno da emergência dos negócios na Web, o accionariato popular está a transformar-se numa vaga gigantesca.

Um dos propagandistas deste voluntarismo individual é Charles Carlson que acredita que cada um dos seus concidadãos americanos poderá transformar-se num accionista de luxo com pouco mais de 50 dólares investidos inteligentemente por mês. A sua obra mais recente com o sugestivo título de The Individual Investor Revolution (compra do livro) tornou-se numa «bíblia» para muitos crédulos.

Carlson edita duas newsletters - a «Dow Theory Forecasts» e a «The DRIP (Dividend Re-Investment Plan) Investor - e tem outros livros publicados, dirigidos a este público, como Buying Stocks without a Broker, já datado de 1992 (compra do livro), e 60 second Investor: 201 Tips, Tools and Tactics for the Time-strapped Investor, de 1997 (compra do livro).

A mensagem é que as barreiras da exclusividade para especialistas foram rebentadas. A Wall Street era, até há pouco, domínio de 'insiders' ou de redes electrónicas muito fechadas e selectivas. A Internet mudou tudo, afirma Tom Tavlli, o autor do agora lançado Investing IPOs (compra do livro).

A FEBRE DO INVESTIMENTO NA WEB
em Factos & Números
  • Sete milhões de americanos já negoceiam no mercado de acções através de contas abertas na Web. Cerca de 15 mil novos aderentes juntam-se-lhes diariamente
  • A maioria são investidores debutantes. Os mecanismos tradicionais bolsistas nunca os tinham atraído para o accionariato. Foi a Web que os desafiou para uma primeira vez
  • Mais de 50 empresas com «.com» ou «.net» ou «e» na etiqueta já recorreram este ano a uma oferta pública inicial de acções (IPO), recolhendo 4 biliões de dólares (3,6 mil milhões de euro, 727 milhões de contos). No mesmo período, em 1998, apenas 9 empresas da Web o tinham feito, mobilizando pouco mais de 10% do montante actualmente encaixado
  • O capital de risco colocou adicionalmente mais 2,1 biliões de dólares (1,9 mil milhões de euro, 382 milhões de contos) em empresas da Web neste primeiro trimestre de 1999
  • O NASDAQ e o próprio NYSE (New York Stock Exchange) estudam a extensão, ainda este ano, do período diário de funcionamento das bolsas. Segundo uma sondagem recente da CNBC, 53% dos investidores «activos» nas bolsas aprovam a medida
  • A correcção das capitalizações bolsistas extravagantes pode já estar em marcha
  • Metade dos lares americanos têm accionistas dentro de casa

  • Kevin Kelly não rejeita mesmo a palavra 'revolução' para definir o que se passa. Será, pelas suas contas, a terceira neste século, na área financeira, se quisermos parafreaser o slogan da 'terceira revolução industrial' dos anos 70/80.

    A primeira teve a ver com a emergência do capitalismo financeiro no princípio do século, magistralmente analisada por Rudolf Hilferding, e a segunda com a emergência do capitalismo dos fundos de pensões e de outras proveniências desvendada por Peter Drucker desde 1975 em The Unseen Revolution, mais tarde reeditado no Reino Unido com o título mais explícito de The Pension Fund Revolution (compra do livro).

    Estas revoluções financeiras têm servido como 'alavancas' de grandes mutações no tecido económico e na própria gestão empresarial, para não falar inclusive no seu impacto a nível da economia das nações - veja-se o papel desempenhado pelos denominados 'hedge funds', bem diagnosticado por Paul Krugman no seu mais recente livro, The Return of Depression Economics, agora lançado pela W.W. Norton (compra do livro).

    Os analistas que recorrem à história relativizam o que se está a passar; no fundo, dizem eles, o mesmo já sucedeu nos tempos do caminho de ferro, ou mais tarde no automóvel, ou mais recentemente em novas áreas como a TV cabo e a biotecnologia. A revista Fortune, num oportuno artigo desta semana ('Net Stock Rules', edição de 7 de Junho de 1999), não se cansa de repisar este argumento.

    Veja aqui o artigo da revista Fortune 'Net Stock Rules'

    Correcção a caminho?

    «As acções das empresas da Net parecem estar de facto muito altas, se analisadas em termos comparativos históricos. Não será uma surpresa se houver algum desapontamento um dia destes», comenta-nos, com alguma ironia, Paul Romer, um dos mais falados candidatos a Prémio Nobel da Economia, pelas suas contribuições para a nova teoria do crescimento económico, em que o que ele chama de 'revolução do soft' desempenha um papel central.

    Este professor da Graduate School of Business da Universidade de Stanford torçe o nariz à ideia de uma 'terceira revolução financeira', mas acentua «o indiscutível papel que toda esta circulação de dinheiro de umas áreas para outras está a trazer».

    Por seu lado, António Dias, um empresário português radicado em Sunnyvale e que lançou recentemente a Tympani Development, uma empresa na área da Web, adverte que «apostar nestas empresas é assegurar uma quota no futuro. Como tal, os critérios clássicos para avaliar uma IPO não são tomados em linha de conta. O mercado bolsista aposta em modelos de negócio por ora altamente deficitários».

    O líder da Tympani concorda que, mais cedo ou mais tarde, «os accionistas irão exigir resultados», e que, por isso, «já tem havido várias correcções e sem dúvida haverá mais».

    O perigo de um mecanismo tipo «D.Branca» é-nos levantado por José Miguel Villas-Boas, um professor em Marketing e Estratégia, há 8 anos na Haas School of Business da Universidade da Califórnia em Berkeley, e que acumula o papel de director do Programa de Estudos Portugueses, financiado por aquela universidade e pela FLAD.

    «No entanto, as opiniões críticas sobre as acções destas empresas já se ouvem há anos e elas têm continuado a subir, fazendo ouvidos moucos», comenta sorrindo.

    Algemas douradas

    Um outro propulsor desta revolução tem a ver com «as algemas douradas que são oferecidas aos quadros», refere-nos Villas-Boas. «Estas opções sobre acções permitem às empresas contratar quadros de grande qualidade sem um risco exagerado para a empresa e dando incentivos aos quadros para estes se esforçarem em benefício dos accionistas. Parece, no entanto, que nalguns campos, têm exagerado, e que as empresas têm pago demais».

    Um caso português, no Silicon Valley, de «algemas douradas», é o de Pedro Roque, que com 26 anos está há dois anos como engenheiro de software na Cisco Systems, em São José. Ele consegue duplicar o salário anual (que já é elevado, em termos de padrões portugueses de remuneração de quadros superiores) com as suas opções de acções na empresa, que já somam dez mil.

    O papel multiplicador deste mecanismo de gestão é corroborado por Kevin Kelly. «Veja o que acontece com a política de captação e conservação de quadros. Todas as empresas do Silicon Valley e de toda esta região californiana, desenvolveram os pacotes de opções de ações para os seus empregados, desde o programador mais simples à secretária. E o que é que esta gente faz com todo esse dinheiro em papel? Conservam uma posição na própria empresa e investem outra parte em outras empresas que consideram com grande potencial. É um mecanismo de financiamento global que beneficia tudo o que mexe aqui no 'hi-tech'. Alguns desses simples investidores transformaram-se em milionários de um dia para o outro», sublinha o principal propagandista da 'nova economia'.

    A febre em volta do «.com» é tão forte que «outros sectores se queixam que não conseguem arranjar o dinheiro que precisam, como é o caso da biotecnologia», comenta Kevin Kelly, que tem a mulher a trabalhar na Genentech, a pioneira deste sector.


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