Relatório federal incendeia
Silicon Valley

Jorge Nascimento Rodrigues em Palo Alto

Versão ampliada do artigo publicado no Expresso/Economia de 25.04.98

A economia digital parece ter finalmente o seu primeiro triunfo junto da opinião pública norte-americana com a divulgação em meados de Abri do primeiro relatório do Secretariado para o Comércio Electrónico, dependente do Departamento de Comércio norte-americano, intitulado "A Economia Digital Emergente" (pode ser lido na Web em www.ecommerce.gov ou em resumo aqui na Janela) .

O relatório, dirigido por Lynn Margherio (lynnmargherio@hotmail.com) que foi a "directora de projecto", fala abertamente de "uma revolução digital" e sublinha que, em vinte anos, este novo sector duplicou o seu peso no Produto Nacional Bruto dos Estados Unidos, passando de 4,2 por cento em 1977 para 8,2 este ano. A contribuição da economia digital para a taxa de crescimento da economia norte-americana é estimada num valor anual superior a 25 por cento em média no último quinquénio, com um pico de 41 por cento em 1995.

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Estes dados incendiaram literalmente o entusiasmo das empresas que vivem desta nova vaga no Silicon Valley, o conhecido vale do «hight-tech» que se estende do sul de São Francisco até à cidade de São José, e no Multimedia Gulch, os quarteirões na parte sul da cidade de São Francisco que estão inundados de microempresas e PME ligadas ao multimedia e à World Wide Web.

Ele trouxe a confirmação do "acerto da nossa estratégia", referiu-nos Katherine Webster (katherine.webster@sun.com), responsável pela área de comércio electrónico na Sun Microsystems (www.sun.com), que nos recebeu no complexo desta multinacional em Menlo Park. Ela trabalhou com Lynn Margherio e alguns dos casos de sucesso do comércio electrónico que repousam em plataformas da Sun, como o da conhecida Cisco Systems (www.cisco.com), também aqui do Vale, foram acolhidos como exemplo a seguir no relatório.

Também Laura Yecies (lyecies@netscape.com), directora de Marketing Internacional da Netscape (www.netscape.com) afinou pelo mesmo diapasão ao nos receber no impressionante complexo de 26 edificios desta empresa pioneira dos «browsers», criada apenas há quatro anos!

Capital da creatividade

Universidade de Stanford, o berço de Silicon Valley Aliás, o eco do relatório federal esteve patente nas diversas empresas que visitámos, ao acompanhar uma missão de quadros europeus ao Silicon Valley organizada por Pascal Baudry e pelo grupo WDHB Consulting (mais informações em www.wdhb.com), e apoiada pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento no que respeita à presença portuguesa.

O grupo pôde visitar quer empresas situadas no Vale, como a PointCast (www.pointcast.com), a I/PRO (www.ipro.com) e a WebTV Networks (http://webtv.net), uma das pontas no Vale da teia da Microsoft, bem como «estrelas» do Multimedia Gulch, como a Intershop (www.intershop.com) criada por Stephan Schambach, uma alemão de Jena que decidiu sediar esta jovem multinacional em São Francisco, ou a Mohai Techonologies (www.moai.com) fundada por Deva Hazarika e Frank Kang, dois jovens desconhecidos que inventaram um software original para leilões «on line», a BusinessBots (www.businesssbots.com) do visionário japonês Moses Ma (moses@businessbots.com), que já está a pensar em aplicações de terceira geração para o comércio electrónico, nomeadamente a nível das cidades, ou ainda a Studio Archetype (www.studioarchetype.com), um dos melhores gabinetes de design para a Web, onde fomos recebidos por Dean Fernandes, um descendente de açoreanos.

Nesta zona da cidade de São Francisco há mais de 300 empresas que já facturaram 2,2 biliões de dólares em 1997 e que criaram, até agora, 35 mil novos empregos "literalmente de talentos, de capital humano", sublinhou-nos Sam McMillan, do New Media Institute albergado na San Francisco State University, que acompanha muito de perto toda esta actividade eleita pelo município como "motor de crescimento e de posicionamento estratégico da cidade".

Susan Hoffman (shoffman@thecity.sfsu.edu), da mesma entidade e que é uma das directoras artísticas do Mutimedia Studies Program (http://msp.sfsu.edu), referiu-nos que São Francisco pretende transformar-se na "capital da creatividade no multimedia" e Moses Ma candidatou a cidade "a primeiro protótipo urbano da Iniciativa presidencial para a próxima geração da Internet (Next Generation Internet)", o que foi aceite.

Aliás, a "guerra" com o Silicon Alley de Nova Iorque - a área onde se estabeleceram mais de 100 empresas ligadas ao multimedia e à Web nos últimos anos - está patente nas preocupações destes californianos. Um jornal novaiorquino, denominado mesmo Silicon Alley Reporter (ver em www.siliconalleyreporter.com), desanca frequentemente sobre a Bay Area de São Francisco e sobre uma das revistas aqui muito populares, a The Red Herring (ver em www.redherring.com), o que deixa as gentes do Vale e do Multimedia Gulch francamente irritadas. Na edição deste mês do Silicon Alley Reporter fazia-se mesmo um ensaio de "cerco", promovendo em conjunto o Silicon Alley de Nova Iorque e a "Digital Coast", de Los Angeles, onde estão empresas como a Disney Online, a Dreamworks Interactive, a City Search e a Geocities.

Também a Alta Vista (http://altavista.digital.com), a Marímba (www.marimba.com), a CommerceNet (www. Commerce.net) e a Idea Factory lançada por John Kao (o autor do livro «Jamming» sobre o papel da inovação) sofreram a nossa "espionagem" e confirmaram o entusiasmo em torno da economia digital e do comércio electrónico em particular, que é suposto atingir um número apetecível de 300 biliões de dólares em 2002 para as relações entre empresas e de uns 16 a 20 biliões para as vendas a consumidores finais através da Web.

O outro facto que ajudou à euforia foi a reabertura esta semana do processo federal contra a Microsoft àcerca de uma potencial violação da lei anti-trust. O surgimento de um reputado especialista em direito anti-trust, Robert Bork, e do político Bob Dole na arena em prol da "coligação para promover a concorrência no comércio electrónico" (conhecida pelo acrónimo ProComp, que comprime uma designação mais extensa - Project to promote Competition and Innovation in the Digital Age) está a dar muita força às empresas do Vale interessadas em evitar a todo o custo a monopolização pela Microsoft deste novo mercado. Esta "guerra" está a ir tão longe que até um prestigiado jornal como o San Jose Mercury News, através da empresa proprietária, a Knight Ridder New Media, tomou partido público pela coligação este semana.

Moderar os exageros

No entanto alguma "água fria" começa a ser posta em todo este entusiasmo transbordante que conduziu a uma bolha gigante de capitalização de mercado na ordem dos 600 biliões de dólares - era de 12 biliões há uma década atrás.

Paul Romer, o economista de Stanford que muitos consideram um provável futuro Prémio Nobel, insiste em "moderar" os exageros que se estão a gerar em torno da economia digital e alerta para os mitos que se estão a criar em torno de ideias como a da improbabilidade de novas recessões ou de um impacto deflacionário contínuo por parte da nova vaga de tecnologias.

Em entrevista exclusiva, ele não deixa, contudo, de referir o "segredo" de Silicon Valley e da Bay Area de São Francisco: "A capacidade empresarial, o capital de risco e o ambiente muito vivo de convívio entre os talentos que permite pegar em invenções que vêm de fora da região - como aconteceu com o transístor, depois com o circuito electrónico, e mais recentemente com o «browser» ou o ADN - e transformá-las em alavancas de novas indústrias".

Mas como que a dar razão à "moderação" de discurso reclamada por Romer, acaba de ser divulgado no San Jose Mercury News (www.mercurycenter.com) um relatório sobre as 150 maiores empresas do Vale, que adverte para a possibilidade de uma "abrandamento" em relação ao crescimento dos últimos anos. O grande motor dos lucros da região é a Intel, que só por si abarbata 50 por cento dos 15 biliões gerados no ano passado.

Contudo, outros ripostam falando da biotecnologia, que poderá muito bem vir a ser a próxima alavanca de um terceiro renascimento do Silicon Valley.

Os dois andamentos do Vale

O que está a começar a ocorrer é uma evolução da economia da Bay Area em dois andamentos. Por um lado, as líderes da terceira vaga, como a Intel, a Silicon Graphics, a Seagate e a National Semiconductors vêm-se obrigadas a anunciar «layoffs». Desde Janeiro deste ano foram já anunciados despedimentos na ordem dos 17 mil «layoffs» por 10 das grandes empresas do Vale. O impacto da crise asiática parece estar na sua origem.

No entanto, continua a haver uma enorme fluidez no emprego do pessoal despedido - o grande "consumidor" de quadros disponíveis é o novo sector emergente ligado à Net e à Web. Os analistas dizem abertamente que o "optimismo" continua a proliferar graças às oportunidades em torno da Net. Os arautos do novo Midas dizem mesmo que "tudo o que é tocado pela Net transforma-se em ouro", o que tem alimentado as expectativas e criado um círculo virtuoso.

Cerca de 40 por cento do capital de risco colocado no Silicon Valley ultimamente tem ido para empresas ligadas à Net e à Web. As estatísticas dizem mesmo que o Vale somou mais 5 por cento de empregos do que no ano passado e cerca do dobro da média nacional americana.

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