Sérgio Rebelo reforça palavras
de Paul Romer

Versão ampliada da entrevista publicada no Expresso

O Relatório norte-americano pode sofrer de algum optimismo excessivo e continuam a existir muitas dúvidas sobre o impacto real da revolução digital sobre a produtividade.

Sérgio Rebelo Sérgio Rebelo (s-rebelo@nwu.edu) é um dos economistas portugueses radicados nos Estados Unidos mais respeitado, com trabalho desenvolvido na área dos ciclos económicos e do impacto das políticas macroeconómicas sobre o crescimento económico.

É professor de Finanças Internacionais actualmente na J.L. Kellogg Graduate School of Management da Northwestern University, no Illinois, e é um dos discípulos do economista americano Paul Romer.

Que avaliação faz do recente relatório do Departamento de Comércio norte-americano (www.ecommerce.gov) sobre "A Economia Digital Emergente", que provocou uma verdadeira euforia aqui no Silicon Valley?

SÉRGIO REBELO - Na minha opinião o relatório exagera os efeitos económicos da revolução informática. O texto dá grande relevo a alguns exemplos bem conhecidos de sucesso na Internet, como o da livraria Amazon.com, mas deixa de lado os numerosos falhanços. Por exemplo, até agora, nenhuma das revistas da Internet (as famosas "e-zines") conseguiu obter lucros. É, também, importante salientar que tem sido muito difícil identificar os efeitos positivos dos sistemas informáticos sobre a produtividade das empresas.

Quer explicar esse paradoxo?

S.R. - Em muitos casos, a adopção de nova tecnologia informática levou a uma redução da produtividade no curto prazo e a ganhos que só se realizam a prazos surpreendentemente longos - entre cinco e vinte anos. Há mesmo quem defenda a ideia de que o declínio da taxa de crescimento da produtividade nos Estados Unidos desde 1974 se deve a estes efeitos transitórios da introdução de computadores sobre a produtividade.

Crê que a actual capitalização neste sector de alta tecnologia ligado à Net e à Web é verdadeiramente uma bolha e acabará por romper, ou a ideia de um boom longo e de um disparo para a estratosfera do valor das cotações em bolsa é mesmo para durar?

S.R. - Se eu conseguisse prever o mercado bolsista não teria tempo para responder às suas perguntas… É dificil responder. É verdade que há algumas ações que têm um PER muito elevado que só pode ser justificado se se esperarem taxas de crescimento verdadeiramente fora do comum. Por outro lado, há mais de dois anos que ouço alguns dos meus colegas que trabalham em "asset pricing" dizer que o mercado está sobre-avaliado e que um "crash" bolsista está eminente. O grande economista Irving Fisher perdeu grande parte da sua fortuna e reputação profissional quando falhou nas suas previsões sobre o grande "crash" bolsista de 1929. Tenho uma fotografia dele no meu gabinete para me lembrar que quando alguem me pede previsões sobre a bolsa o melhor é estar calado.

Microsof tem testado os limites

Uma das questões que colocámos a Paul Romer foi sobre a relação entre o monopólio e a concorrência. O monopólio, ainda que transitório, é mesmo uma necessidade para o crescimento económico em períodos de inovação tecnológica e criação de novas indústrias como é o presente? O litigio com a Microsoft tem pernas para andar ou é forçado?

S.R. - A meu ver, há algumas propostas nos Estados Unidos para substituir o sistema de patentes por um sistema de leilões, em que o governo compra a patente e a coloca no domínio público. Não acredito que estas propostas possam ser postas em prática. O poder de monopólio conseguido por uma empresa inovadora é, a meu ver, um mal menor que é compensado vastamente pelos benefícios das inovações. A Microsoft tem testado os limites deste processo ao querer ser o "pacman" da industria informática, aglomerando todo o tipo de aplicações à volta do seu sistema operativo. Felizmente a Microsoft está rodeada de muitos competidores potenciais. Se tentar subir demasiado o preço dos seus produtos, novos sistemas operativos irão concerteza aparecer. Ao fim ao cabo, o Unix e o incipiente Java só precisam de uma escorregadela ou duas de Bill Gates para ganharem momento. O caso de anti-trust contra a Microsoft é um cartão amarelo que avisa que o governo americano não quer ver estes outros jogadores potenciais rasteirados.

Como avalia o papel de Paul Romer e das suas contribuições para a teoria económica do crescimento?

S.R. - Paul Romer é um dos mais influentes economistas da actualidade. A originalidade e profundidade do trabalho dele sobre o crescimento económico é difícil de igualar. Curiosamente, Romer fez metade da sua tese no MIT e a outra metade em Chicago. Por ter mudado de programa a meio acabou por praticamente não ter supervisor. Por isso nao sabia que tinha havido uma enorme literatura sobre o crescimento económico nos anos 60 que tinha falhado. O seu primeiro «paper», escrito em 1982 mas só publicado em 1986, levou a que a maior parte dos macroeconomistas se dedicassem de novo ao estudo do crescimento económico. Devemos-lhe isso a ele.

O que o liga a Romer?

S.R. - A minha carreira académica foi bafejada pela sorte em vários momentos críticos. Um desses momentos foi o facto de Paul Romer ter aceite ser um dos dois supervisores da minha tese de doutoramento na Universidade de Rochester. Li algures que durante o seu período áureo o compositor Cole Porter não parava de inventar melodias que lhe chegavam aos dedos sempre debruçados no teclado sem qualquer esforço aparente. As aulas de Paul Romer eram assim também - lembro-me de o ver escrever no quadro pela primeira vez modelos que mais tarde se tornaram extremamente famosos e que lhe pareciam surgir de forma natural e imediata. Mas enquanto muitos investigadores de primeira água querem que os seus alunos sejam continuadores do seu trabalho, Romer encoraja os alunos a seguir as suas pro'prias linhas de investigação, a descobrir o seu próprio caminho.



Biographical Sketch -- Sergio Rebelo,Tokai Bank Distinguished Professor of International Finance, Kellogg Graduate School of Management, Northwestern University. Professor Rebelo has research and teaching interests in macroeconomics and international finance. His work has probed the causes of business cycles, studied the impact of economic policy on the rate of economic growth, and examined the effects of exchange-rate-based stabilizations. He received a Sloan Fellowship for his dissertation work and has been awarded an Olin Fellowship by the National Bureau of Economic Research. His papers have been published in the American Economic Review, the Journal of Political Economy, the Journal of Monetary Economics, the Journal of Economic Dynamics and Control, and the European Economic Review. His research has been financed by the National Science Foundation. He currently serves as an Associate Editor of the American Economic Review, Journal of Monetary Economics, European Economic Review and Journal of Economic Growth. He is on the Advisory Board of the Carnegie-Rochester Conference on Economic Policy and has served on the panel of Economic Policy.Prior to joining Kellogg Rebelo has taught at the University of Rochester and at the Portuguese Catholic University. He has served as a consultant to the World Bank, to the International Monetary Fund, and to the Board of Governors of the Federal Reserve System. He is currently affiliated with two research networks: the Center for Economic Policy Research and the National Bureau of Economic Research.
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