O Robin dos Bosques do software

Os leitores já terão ouvido falar do sistema operativo LINUX e, a alguns mais metidos na «informática», não lhes é estranho o movimento do código aberto (acesso livre à fonte), «OPEN SOURCE», no original californiano, nascido apenas há três anos em Palo Alto. O «REI» desta tendência é um antropólogo da cultura «HACKER», Eric Steven Raymond, mimoseado pela Microsoft como «Robin dos Bosques» e pintado por uma revista como o «007» do digital. Debaixo destas piadas está uma contra-corrente claramente em ASCENSÃO. Imagine que o movimento até já tem um FILME denominado «Revolution O.S.»

Entrevista conduzida por Jorge Nascimento Rodrigues a Eric Raymond
e ilustração por Paulo Buchinho

Contra-Corrente é uma rubrica © Ideias & Negócios/Janela na Web

Ideia-chave:
Inovação é acelerada se houver acesso livre às fontes de código e espírito colaborativo

Nova buzzword:
Inteligência de «software» distribuída

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Outros protagonistas da Contra-Corrente

A ideia básica evangelizada por Eric Raymond é que o acesso livre às fontes de programação do software permite a inovação por milhões de programadores voluntários em todo o mundo e em tempo recorde. Incentiva a inteligência de software distribuída, para utilizar as novas palavras da moda na comunidade mais vanguardista do «high-tech».

E esta «gratuitidade» com sabor libertário não é avessa ao capitalismo. Eric descortinou inclusive nove modelos de negócio que se estão a desenvolver em torno do novo paradigma do «código aberto». Alguns académicos já dedicaram ao tema «papers» de investigação - de que um recente trabalho publicado na Sloan Management Review é exemplo.

Sinal dos tempos, um filme sobre o tema acabou de ser produzido. J.T.S. Moore filmou em 35 mm a «Revolution O.S.», a que a revista Wired já deu honras de destaque.

Um artigo a não deixar de ler
título: «What Makes a Virtual Organization Work?»
autores: M. Lynne Markus, Brook Manville e Carole E. Agres
revista: Sloam Management Review, Fall 2000
Os três académicos viram no movimento de «open source» algo de novo em termos de organização empresarial, para além dos novos modelos de negócio emergentes em seu torno (que eles catalogam como um total de oito).
Segundo eles, o movimento lançado por estes «hackers» personifica algumas das características-chave de novas formas de organização empresarial do futuro.
Primeiro do que tudo, o movimento é tipicamente atractivo para os denominados trabalhadores do conhecimento, que Peter Drucker já há muito anunciou serem o núcleo duro das empresas de hoje. O apelo à auto-motivação acima das recompensas materiais, o papel da reputação que se ganha, e a importância para o curriculo profissional da afiliação neste tipo de comunidades técnicas jogam um efeito de alavanca decisivo para o envolvimento deste tipo de trabalhadores no «open source».
Em segundo lugar, o tipo de mobilização de massa cinzenta assenta em dois eixos - um núcleo duro de participantes permanentes e uma franja de colaborações temporárias de um sem número de voluntários, em permanente renovação.
Terçeira característica: o controlo do processo é feito na base da adesão individual voluntária a um conjunto de regras de ouro que vêm inscritas nas próprias licenças de software, nos procedimentos de votação e nas leis de associação ao grupo.
O auto-governo destas comunidades do software assenta em dois pilares: por um lado, os fundadores, inventores e alguns «hackers» pioneiros mantêm influência (desde que mantenham a sua reputação técnica e de comportamento) e, por outro, os participantes travam discussões abertas e participam em votações. Este processo é feito basicamente através da Internet, funcionando em rede.

Este modelo origina um software de melhor qualidade - «quantos mais olhos, mais os erros se tornam triviais», foi a frase que se tornou senso comum nesta comunidade tecnóloga, nascida oficialmente no Silicon Valley há apenas três anos.

Eric chamou-lhe o modelo do «bazar» em contraposição ao modelo tradicional, fechado, que cognominou de «catedral». Ele desenvolveu publicamente, pela primeira vez, esta ideia num Congresso do movimento em torno do Linux em Maio de 1997.

A Microsoft não gostou nada desta ideia e num conjunto de documentos internos confidênciais – que viriam a ser conhecidos publicamente no final de 1998 - chegou a mimosear o grupo como «o bando do Robin dos Bosques».

Mas o gigante de Seattle (a Microsoft) que se ponha em guarda. Eric é cinturão negro, atirador desportista, músico e fã da ficção científica. Ainda por cima, politicamente, diz que é anarquista. Mais propriamente do «ramo» libertário, que nos Estados Unidos significa uma coisa diferente do que o leitor está a pensar – os libertários da terra do Tio Sam são pela economia de mercado (efectivamente) livre e pela herança dos fundadores da América.

Eric Raymond O nosso interlocutor começou com estudos de matemática e filosofia e nunca tirou um curso de computação e software – contudo virou «hacker» cedo na vida. Mas as suas ideias de «libertação» do software convenceram a Netscape em 1998 a permitir o acesso à fonte de código do «browser» Navigator 5.0. O software foi rebaptizado como «Mozilla» e foi criada uma organização independente, a Mozilla.org. A Sun Microsystems defende uma filosofia semelhante na área da Java.

A etiqueta «Open Source» ocorreu num «brainstorming» em Palo Alto (no coração do Silicon Valley californiano) há três anos atrás, em que participaram Eric e mais cinco «salteadores» - Todd Anderson, Christine Peterson (mulher do «pai» da nanotecnologia, Eric Drexler, e líder do Foresight Institute em Palo Alto), John Hall (que tem a alcunha de «Maddog»!) e Larry Augustin e San Ockman do movimento Linux internacional. O novo termo ganhou a outros mais usados, como «freeware» e «shareware». Uns meses depois nasceria a Open Source Initiative. Linus Torvalds, o «pai» do Linux, associou-se depois ao «bando».

O ideal nasceu no final dos anos 60. A iniciativa do sistema operativo Unix por investigadores dos laboratórios Bell foi pioneira neste campo. A criação da Free Software Foundation em 1984, da linguagem PERL em 1986 e da criação do Linux pelo jovem finlandês Linus Torvalds em 1991, foram alguns dos passos seguintes mais significativos até à mais recente cobertura mediática.

Eric é hoje director da VA Linux Systems, uma das empresas do Silicon Valley que baseiam o seu negócio naquele sistema operativo. É, naturalmente, o presidente da Open Source Initiative (OSI, no acrónimo).

 A OBRA «REVOLUCIONÁRIA» DO AUTOR 
Capa do livro The Cathedral and the Bazaar A Catedral e o Bazar
- Original em inglês (compra do livro)
-
Tradução em português (Brasil)
O Caldeirão Mágico
(El Caldero Mágico)

- Version castellano

Depois de uma série de escritos publicados «on-line» durante dois meses, compilou em papel um livro que tomou o título de «A Catedral e o Bazar» (no original The Cathedral and the Bazaar, publicado pela O’Reilly, lançado em 1999, e cuja reedição acabou de sair em Janeiro deste ano. Um fã do Brasil publicou uma tradução em português.

O «Robin Hood» do software tem um livro magistral sobre a cultura «hacker» - The New Hacker’s Dictionary (compra do livro), lançado pela editora do MIT em 1991 (reedições posteriores disponíveis).

A conversa foi rápida, à velocidade «internet». Tome nota do que diz Eric, pois o futuro pode guardar uma surpresa.


«Open Source» é uma tendência crescente no mundo dos negócios ou não passa de um nicho de programadores radicais?

E.R. - Se se prestar atenção às posições no mercado de projectos como o Linux e o Apache, é óbvio que já se saíu do estatuto de «nicho».

O que é que faz actualmente a Open Source Initiative?

E.R. - O que sempre fizemos - avaliação e certificação de licenças no regime «open source» e desenvolvimento de um ponto de encontro, de uma «ponte», entre a cultura genuinamente «hacker» e o mundo dos negócios.

Portanto, o «business» é algo que não é rejeitado pelo movimento?

E.R. - Obviamente que não. Há uma minoria que se mantém hóstil ao lucro, mas o sentimento geral da comunidade é cooperar com o mundo empresarial sempre que ele «sirva» os nossos fins. É o caso da cooperação com as empresas em torno do Linux. No meu artigo «The Magic Cauldron» (O Caldeirão Mágico) listei nove modelos de negócio relacionados com o valor de uso e com o que denominei de «venda indirecta». Como sabe, é difícil extrair lucros directos da venda deste tipo de software. O movimento não concorda que quem quer que seja do mundo empresarial tenha uma posição privilegiada para extrair lucros.

Mas de que é que vivem os programadores voluntários do movimento «open source»? Da reputação? Como é que pagam as contas ao final do mês?

E.R. - O pessoal vive do valor de uso do software. A gente para quem trabalha necessita desse tipo de desenvolvimento para fazer coisas. Isso não quer dizer – como erradamente se pensa – que essas empresas queiram «vender» esse software.

Olhando retrospectivamente, o principal erro da Netscape foi não ter aderido ao movimento do «open source» desde o princípio, e só o ter feito quando a Microsoft os tinha «comido» na guerra dos «browsers»?

E.R. - Provavelmente, ter distribuído o Netscape Navigator como uma fonte «fechada» foi um erro. Deveriam tê-lo «libertado» desde o princípio de modo a terem conquistado uma boa quota de mercado nos servidores.

Alguns economistas dizem que os monopólios temporários são inevitáveis, são «naturais», durante os períodos de inovação. Se a inovação gera esses ganhadores totalitários, como é que o movimento «open source» pode impedir essa «fatalidade»?

E.R. - As licenças do tipo «open source» tornam a monopolização impossível.

Você afirmou que a «ecologia» empresarial do vosso modelo é mais produtiva em termos de software. Porquê?

E.R. - A forma como está organizado o modelo amplifica a produtividade, os seus efeitos, se assim se pode dizer.

Mas como é que funciona esse efeito «megafone»?

E.R. - Por exemplo, na comunidade Linux há múltiplos distribuidores concorrentes que formam um segmento separado dos programadores que desenvolvem o código. Estes escrevem o código e disponibilizam-no na Internet. Cada distribuidor, por seu lado, selecciona o que lhe interessa, integra e mete tudo num pacote com uma marca e vende seguidamente. Esta separação de águas é benéfica.

Há algum relacionamento estratégico entre o vosso movimento e os empreendedores e programadores que hoje aparecem à volta da tecnologia emergente da computação distribuída?

E.R. - Não há nenhuma relação de fundo. Mas há pessoal que está nos dois movimentos.

Como é que será o mundo do software de amanhã quando terminar esta «transição» de que fala para o paradigma do «open source»?

E.R. - A indústria do software continuará fortemente empresarial com nichos a emergirem continuamente sobretudo na área das aplicações. Os sectores infraestruturais (Internet, Web, sistemas operativos) migrarão para o movimento «open source», sendo mantidos cooperativamente por consórcios de utilizadores e serviços/distribuidores lucrativos. O chamado «midleware» (bases de dados, ferramentas de desenvolvimento) tenderá a tornar-se mercadoria e a transitar também para o «open source».

CÁBULA DE NOVOS MODELOS DE NEGÓCIO
  • Valor de uso da programação partilhando os custos: caso dos servidores Apache, aderindo à Fundação Apache (ex Grupo Apache). Apache domina hoje 60% do mercado, segundo a Netcraft.com.
  • Valor de uso da programação espalhando os riscos: decisão já tomada pela Cisco Systems num caso.
  • Dar de borla o acesso ao código no quadro de uma estratégia de quota de mercado. O movimento da Netscape com o Mozilla é deste tipo e foi feito para contra-atacar a tentativa de monopolização por parte da Microsoft. A AOL, depois da aquisição da Netscape, manteve o apoio a esta estratégia.
  • Permitir acesso ao código do software de equipamentos, no sentido do cliente poder customizar o «hardware», fidelizando-o à marca. Exemplo: a decisão da Apple, em 1999, de abrir o acesso a «Darwin», o elemento central do seu sistema MacOSX. Casos também da Corel e da VA Linux (onde está Eric Raymond).
  • Dar a receita, vender o serviço. É o modelo inspirado na lógica da Gilette (dar a máquina de barbear e vender a lâmina). O exemplo mais típico é o da Red Hat e de outros distribuidores Linux. O que eles vendem não é o software, mas o valor acrescentado.
  • Vender sob licença, mas com direito do cliente customizar e distribuir livremente (excepto se para fins comerciais, implicando, nesse caso, uma comissão) no futuro.
  • Dar o acesso ao código para poder «vender» a marca. O caso da estratégia da Sun Microsystems com a linguagem Java e Jini.
  • Ganhar na venda de acessórios ao software disponibilizado – formação, documentação, CD-ROMs, periféricos, «merchandising».
  • Dar de borla o acesso ao software para vender conteúdo indispensável ao utilizador, por exemplo através de assinatura da informação regular.
  • Alavancar serviços on-line pagos dando o acesso ao software.
  • Licenciamento de marcas ligadas ao movimento «open source». Facturar no uso por terçeiros das marcas para criação de produtos derivados.
  • Franchising da marca criando outras empresas que fornecem serviços.

  • Fonte: Eric Raymond, no livro «The Magic Cauldron», e M. Lynne Markus (Hong Kong), Brook Manville (consultoria na Califórnia) e a falecida doutoranda Carol Agres, em «What makes a virtual organization work», publicado na Sloan Management Review, Fall 2000, volume 42, nº1.

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